"Espero ser bem-sucedido, ter uma família normal, quem sabe"

Marcelo e Ronilson vivem juntos num dos dez apartamentos de autonomização da Santa Casa. Aqui aprendem a ter novas responsabilidades e a preparar-se para uma vida autónoma e longe das instituições que os acompanharam durante grande parte da vida.

Vivem juntos há três anos e já são como todas as famílias. Marcelo e Ronilson discordam sobre quem é o mais arrumado ou até o melhor cozinheiro - ao mesmo tempo que não trocavam de colega de casa por nada. Os dois jovens - e mais um colega - partilham um dos apartamentos de autonomização da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), depois de terem passado algum tempo em instituições. Ronilson veio de Angola ainda adolescente, sozinho, à procura de uma vida melhor. Marcelo tem os pais e os irmãos, que visita regularmente, a viverem em Cascais. Os dois estão agora a aprender a viver sozinhos rumo a uma autonomia completa.

Marcelo Silva chegou a um lar da Santa Casa aos 10 anos, o que significa que, com 20, já viveu metade da sua vida em instituições. Neste momento, já na última etapa rumo à autonomia total, Marcelo está à procura de trabalho e joga futebol no Sintrense B, com o desejo de chegar "à segunda divisão".

Mas os tempos nos lares até deixam saudades. "Na Casa da Alameda tínhamos alguém que nos passava a ferro, que fazia o almoço e o jantar. Aqui, se não temos nada para fazer acabamos por sofrer um bocado de solidão e ali temos sempre alguém, miúdos, vamos sempre conhecendo um bocado da outra pessoa. Eu gosto de pessoas, de ser assim mais social." Marcelo aprecia esse apoio constante e saber que não está sozinho. Por isso, quando vai ao bairro e alguém lhe diz para avisar os mais novos que, se se portarem mal, vão parar a uma instituição, a resposta que ouvem é: "Ir para um colégio como aquele para onde eu fui é a melhor coisa da vossa vida."

Marcelo chegou à Santa Casa depois de alguns problemas na escola e em casa. "Era um miúdo reguila, não gostava de ir à escola, fazia algumas coisas menos boas e tive de vir para aqui [Santa Casa]." A recordação não é triste, porque Marcelo gosta de sublinhar o que aprendeu nas casas por onde foi passando. "Não é nenhum castigo para ninguém."

"As pessoas não têm a noção do que uma instituição pode dar", assegura Marcelo, acrescentando que teve "bué oportunidades". "Se não consegues estudar no bairro, nos colégios tens sempre alguém que está ali contigo, mesmo que faças porcaria, eles estão ali. E isso é bom. Eu aprendi muita coisa."

E agora, fora dos colégios, mas ainda integrado na Santa Casa, Marcelo continua a aprender. "Estou a tentar aprender a fazer uma vida sozinho, a ganhar responsabilidades, para crescer e ser ajudado de uma forma diferente", descreve. Aqui, sente apoio, que "é essencial para seres bem-sucedido na vida. Eu espero ser bem-sucedido, ter uma família normal, quem sabe".

Sobre as coisas mais concretas da vida no apartamento, o jovem de Cascais não esconde que foi difícil adaptar-se às rotinas domésticas. "Posso levantar-me às 11.00, 12.00 ninguém me vai dizer nada. E é aqui que temos de ter responsabilidade, para os horários e para tratar das coisas sozinhos."

Uma autonomia controlada

Os jovens, normalmente três por casa, vivem nestes espaços - dez apartamentos, três para raparigas e sete para rapazes - em total autonomia. No entanto, todo o processo é acompanhado por uma equipa técnica constituída por educadores e psicólogos, conforme explica Margarida Cruz, diretora da equipa técnica de apoio aos apartamentos de autonomização da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Neste processo, os jovens podem ser acompanhados diariamente pelos educadores ou podem receber um apoio mais espaçado no tempo, e todos os educadores estão sempre contactáveis, para o caso de os jovens precisarem. O trabalho deles é não só ensinar competências básicas, como cozinhar, lavar a roupa ou ir ao supermercado, mas também ajudar em tarefas mais difíceis como a estabelecer objetivos de vida e ensinar os jovens a perspetivarem-se no futuro.

Marcelo descreve a figura do educador, neste caso Mário Martins, como sendo "chato, mas fixe". "Sei que ele está lá para nos ajudar. Sempre me ajudou, sempre que teve de me dizer que eu estava errado nunca me disse de forma bruta. Ele é um bom pai."

À procura de uma carreira musical

Ronilson Paulo - ou Ronny Fuego, nome artístico -, de 22 anos, é o melhor cozinheiro da casa, mas não é o mais arrumado. Chegou a Lisboa sozinho há sete anos, à procura de uma vida melhor. Foi acolhido na Casa do Lago, em Benfica, e depois entrou na Casa da Alameda, ambas geridas pela SCML. Há quatro anos mudou-se para o apartamento de autonomização. Está no último ano do curso de Audiovisuais e conta entrar na universidade.

Para Ronilson, a mudança rumo a uma maior autonomia aconteceu para "ter mais apoio da equipa" e estar mais perto "dos objetivos". "Tenho mais condições para fazer o que quero, seguir os meus sonhos e completar os meus objetivos." E isso é: "Acabar a formação na área de audiovisuais e um dia trabalhar na parte da produção da televisão."

Em paralelo, lançou-se numa carreira de músico e realizador de videoclipes. O seu quarto está repleto de material de gravação de som e edição de imagem. Tudo é depois partilhado, como qualquer jovem da sua geração, no seu canal de YouTube.

Este foi um desejo que chegou cedo e que Ronny nunca pensou que se tornasse realidade. Começou a fazer música ainda em Angola, mas acabou por desistir da ideia. Tanto que quando chegou a Portugal estava concentrado em conseguir uma vida melhor, mas a música já estava afastada do cenário. Até que chegou ao colégio da Alameda e os computadores e microfones disponíveis despertaram-lhe a curiosidade. E esta aguçou-lhe o engenho. "Não sabia de nada, ia mexendo no computador e gravando umas músicas. Tornou-se um hobby e para a edição de videoclipes ia vendo tutoriais."

As coisas evoluíram e agora está a tentar lançar uma marca, a Fuego Studios. Vai fazendo as suas músicas e até os videoclipes de alguns amigos.

Uma carreira artística que não atrapalha a vida em casa, nem quando está repetidamente a cantar a mesma música para uma gravação. "O ambiente é mesmo chill, entendemo-nos bem, gostamos do mesmo estilo de música", garante o artista. Os conflitos, quando há, "são por causa da louça, mas é muito raro".

Uma vida como em qualquer outra casa, mesmo que sem adultos a supervisionar. Tanto que Ronilson confessa estranhar quando os companheiros não estão em casa. "Penso logo que precisava de desabafar com alguém." E também Marcelo admite que se precisar de contar alguma coisa é aos colegas de casa que liga. Laços que acabaram por se criar e que eles têm a certeza de que vão manter mesmo depois de conquistarem a sua autonomia.