De telhados arrefecidos a fachadas "verdes": 40 cidades globais lutam em rede contra as ondas de calor

A nível mundial, 480.000 pessoas morrem todos os anos por causa das vagas de calor. Lisboa pertence a uma rede global de 40 autarquias que estão a tomar medidas de planeamento urbano e de mobilidade suave para combater o fenómeno

As ondas de calor têm sido mortais em muitos pontos do globo. Todos os anos morrem 480.000 pessoas que não resistem às altas temperaturas. "As vagas de calor são o assassino silencioso do aquecimento global", afirmou Francesco Rocca, presidente da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC), ao EuroNews Green. "Mas não tem de ser assim", acrescentou Rocca, colocando a tónica na prevenção, uma vez que é possível prever as ondas de calor com semanas de antecedência.

Sabendo deste presente apocalíptico, nunca foi maior a urgência de agir na forma como se planeiam e desenham as infraestruturas das grandes cidades e até na forma como nos deslocamos nelas.

Numa rede que une 40 metrópoles e autarquias globais, e onde Lisboa está incluída, a prevenção já está a ser pensada para futuras gerações, com base num planeamento urbano mais ecológico e sustentável e em formas de transporte ou mobilidade suave.

Trata-se da C40 Cool Cities Network, rede parceira da IFRC na campanha de consciencialização mundial sobre um fenómeno que veio para ficar e que está a esculpir um novo mundo: o aquecimento global e os seus desvarios extremos, das ondas de calor às enxurradas e tremores de terra.

Parece ficção científica mas não, é bem real: A C40 Cool Cities Network lançou uma "caixa de ferramentas de refrigeração urbana", espécie de kit de sobrevivência nas metrópoles com medidas de planeamento urbano que incluem "infraestruturas verdes" como telhados e corredores verdes; "infraestruturas azuis" tais como fontes públicas, bebedouros, piscinas públicas e "spray parks" (parques de recreio para crianças e adultos com zero profundidade, onde a água é expelida de estruturas verticais ou de bocais de pulverização e depois drenada antes de se poder acumular) e "infraestruturas cinzentas" - telhados e pavimentos arrefecidos, sombreamento de fachadas, película ou filtro solar para janelas e arrefecimento passivo em edifícios (ventilação natural em vez do ar condicionado, entre outros métodos).

São iniciativas que refletem um planeamento urbano mais ecológico e respirável.

"De Miami a Bombaim, de Atenas a Abidjan, os autarcas na nossa rede estão a aumentar os espaços verdes, a expandir os programas de telhados frescos e a colaborar em ações destinadas a aumentar a resiliência contra as crescentes vagas de calor urbanas", sublinhou Marl Watts, diretor executivo da rede C40 Cool Cities.

A 14 de junho, a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho lançou o primeiro Heat Action Day (Dia de Ação contra o Calor) a nível global, sob o lema #BeattheHeat ("Vencer o Calor"). Foram realizados eventos em mais de 50 cidades mundiais para chamar a atenção para o impacto das sucessivas vagas de calor que têm vindo a ser mais frequentes e intensas de 2015 até agora.

Metas de Lisboa: ar limpo e energias renováveis

A ficha de Lisboa no site da rede C40 Cool Cities descreve-a como uma cidade com 508,543 mil habitantes (só dentro da cidade, excluindo a área metropolitana) com uma área de 87Km2 e um PIB (Produto Interno Bruto) de 22.2 mil milhões de euros. A capital de Portugal, autarquia governada pelo social-democrata Carlos Moedas, comprometeu-se com dois objetivos na rede C40 Cool Cities: o acelerador de ar limpo e o acelerador de energias renováveis.

Quanto ao ar limpo, significa que antes de 2025, Lisboa e as outras autarquias signatárias deste compromisso na rede C-40, têm de executar programas concebidos para resolver as principais causas da poluição atmosférica e das emissões de dióxido de carbono. Terão também de expandir políticas de "emissões zero" nos transportes públicos, criar zonas livres de poluição; apoiar a mobilidade suave, nomeadamente as caminhadas e o uso da bicicleta; reforçar as restrições ao tráfego automóvel e desincentivar o uso do carro; reduzir o transporte de pesados e de outros veículos municipais poluentes; reduzir as emissões da queima de madeira e as industriais; restringir a poluição causada pela queima de resíduos sólidos e alargar os espaços verdes, como está explicado no site.

Lisboa terá também de monitorizar a qualidade do ar e tornar essa informação pública e colaborar com instituições na pesquisa dos impactos para a saúde da poluição do ar, dos benefícios da melhoria da qualidade do ar e implicações económicas associadas e publicar esses resultados.

O compromisso do acelerador de ar limpo foi assinado por 47 metrópoles: Abidjan (Costa do Marfim), Accra (Gana), Addis Abeba (Etiópia), Austin (EUA), Amã (Jordânia), Barcelona (Espanha), Bangalore (Índia), Berlim (Alemanha), Bogotá (Colômbia), Buenos Aires (Argentina), Copenhaga (Dinamarca), Dakar (Senegal), Nova Deli (Índia), Dubai (Emirados Árabes Unidos), Durban e Ekurhuleni (África do Sul), Freetown (Serra Leoa), Guadalajara (México), Heidelberg (Alemanha), Houston (EUA), Jacarta (Indonésia), Joanesburgo (África do Sul), Lagos (Nigéria), Lima (Peru), Londres (Inglaterra), Los Angeles (EUA), Cidade do México (México), Madrid (Espanha), Medellín (Colômbia), Milão (Itália), Nairobi (Quénia), Oslo (Noruega), Paris (França), Phoenix e Portland (EUA), Quezon (Filipinas), Quito (Equador), Rio de Janeiro (Brasil), Roterdão (Holanda), Seul (Coreia do Sul), Estocolmo (Suécia), Sidney (Austrália), Telavive e Jaffa (Israel), Tóquio (Japão), Tshwane (África do Sul), Varsóvia (Polónia) e Washington DC (EUA).

Aposta nas energias limpas

Ao nível do acelerador de energias renováveis, a capital portuguesa compromete-se, tal como as outras signatárias, a dar prioridade aos investimentos nas também chamadas "energias limpas" com pacotes de estímulo que podem ajudar na recuperação da pandemia da covid-19 com a criação de emprego e crescimento económico.

O primeiro passo é usar 100% de energias renováveis nas cidades até 2035 e usar energia totalmente limpa para cozinhar, aquecer e arrefecer os edifícios urbanos até 2050, o mais tardar. Para atingir as metas fixadas nesses anos, as metrópoles concordaram em tornar disponíveis os sistemas de "energia limpa" para eletricidade, aquecimento, arrefecimento e cozinha.

No acelerador de energias renováveis são signatárias, para além de Lisboa, 13 outras cidades: Buenos Aires (Argentina), Copenhaga (Dinamarca), Lagos (Nigéria), Londres (Inglaterra), Los Angeles (Estados Unidos), Montréal (Canadá), Paris (França), São Francisco (EUA), Seul (Coreia do Sul, Sidney (Austrália), Tóquio (Japão), Tshwane (África do Sul) e Vancouver (Canadá).

Singapura, um exemplo de cidade biofílica

A cidade-estado insular do Sudoeste Asiático aprendeu a misturar a Natureza com a vida cosmopolita e hoje mostra-nos como é possível ultrapassar o betão e o aço dos arranha céus e ter jardins suspensos em fachadas de edifícios e autênticos parques públicos com bolsas verdes e de ar fresco a remeter para a imagem idílica de um Éden urbano. Singapura ocupa uma superfície de apenas 700 quilómetros quadrados mas nela vivem 5.7 milhões de pessoas, é o segundo território mais densamente povoado do planeta, figurando apenas atrás do principado do Mónaco, que, por comparação, tem apenas 40.000 residentes. Singapura é membro da rede de cidades biofílicas (amantes da natureza e do mundo natural) desde 2013 por mérito próprio.

Em 1967, dois anos depois de se tornar independente, o governo de Singapura concebeu os primeiros planos para a transformar numa "cidade jardim", consignando terrenos que seriam classificados de reservas naturais. A poluição aérea era uma fatalidade, ao ponto de em 1996 a cidade-estado ser considerada uma das mais poluídas do planeta. Foi então criado, ainda na década de 90 do século passado, o Plano Verde de Singapura, que foi sendo atualizado ao longo das décadas, e que se focou em três grandes áreas: ar e alterações climáticas, água e terra limpa, natureza e saúde pública.

Um dos entrevistados no Portugal Mobi Summit (PMS) 2022, o planeador urbano holandês Hans Karssenberg, elogiou o exemplo dado por Singapura na entrevista dada a Paulo Tavares e Charles Landry, curadores do PMS. "Admiro muito o que Singapura fez para se tornar uma cidade verde e o que isso representou de compromisso a curto prazo do Governo", exemplificou. "Primeiro desenvolveu-se como uma cidade de grandes parques mas há 20 anos decidiram mudar, por causa das alterações climáticas, para toda a cidade ser ela própria um parque. Portanto, verde nas ruas, verde nas fachadas dos edifícios, em todo o lado, desafiando os investidores a fazerem um esforço. Agora quando se anda no centro de Singapura este é muito agradável aos peões. Kuala Lumpur e Singapura estão na mesma temperatura mas na capital da Malásia sente-se mais 5 graus por causa dos carros e isso faz a diferença entre andar a pé ou não andar a pé".

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