Hospital Fernando Fonseca forma médicos de família para poderem salvar doentes mais cedo

Coração de Portugal. A insuficiência cardíaca não tem de ser tratada só nos serviços de cardiologia. Pelo contrário, quanto mais cedo se identifica a doença, mais fácil se torna salvar vidas. Foi neste sentido que os profissionais do Hospital Fernando Fonseca, na Amadora, decidiram criar um programa de formação para colegas de medicina geral e familiar, para que estes possam identificar mais cedo os sintomas e medicar os doentes. Só assim se poderá reduzir a mortalidade elevada desta doença.

Há muito que Alberto Garcia, de 50 anos, não aparecia no hospital. É utente frequente no Fernando Fonseca, conhecido como Amadora-Sintra, e seguido por insuficiência cardíaca no serviço de cardiologia, mas a pandemia de covid-19 reduziu as visitas presenciais. O seu rosto, ainda que escondido pela meta
de pela máscara, não esconde a satisfação do regresso que transposta para as mãos inquietas. De vez em quando, diz, gosta de vir agradecer aos seus médicos, que em 2017 olharam para o seu caso como o de um doente que estava mais perto da morte do que da recuperação: 24 quilos aos 47 anos, um corpo moribundo e um coração que, por duas vezes, na cama 8, parou. Mas eles salvaram-no.

Na ótica dos cardiologistas desta unidade de saúde, o sucesso destas histórias depende, em grande parte, de um diagnóstico e acompanhamento precoce. Por isso, os profissionais que aqui entrevistamos decidiram criar um programa de formação para colegas de medicina geral e familiar para que estes possam identificar e apoiar cada vez mais cedo doentes com insuficiência cardíaca. Um programa que dizem ser único no país e que tem como objetivo detetar sintomas precocemente em doentes que acompanham e antes mesmo de serem encaminhados para os serviços de cardiologia. Um projeto que, acreditam, pode duplicar a possibilidade de se salvar doentes com insuficiência cardíaca.

A história de Alberto Garcia poderia ter começado por ser detetada no médico de família. Não foi. Aos 47 anos, depois de décadas de coração sereno, "de um dia para o outro", foi parar ao hospital para viver aquela que diz ter sido uma semana "terrível" e da qual não guarda qualquer boa memória.

Uma semana em que os dias eram passados no parapeito de uma janela, devido à constante falta de ar e ao "cansaço extremo". Aliás, era junto à janela que dormia; estranhava, mas acreditava que acabaria por passar, por isso decidiu aguentar uma semana inteira. Até ao dia em que não aguentou mais e pediu ajuda: a 30 de novembro de 2017, dá entrada no Hospital Fernando Fonseca. Sentou-se na sala de espera, aguardou a sua vez e, quando foi chamado, levantou-se da cadeira, deu uns "passos apressados" e colapsou.

Quando acordou, transmitiram-lhe "que estava com insuficiência cardíaca" e que estava a ser "preparado para ser transplantado". "A 28 de dezembro sou conduzido para [o Hospital de] Santa Cruz, para procederem ao transplante, e fui induzido em coma no dia 2 de janeiro. Acordei a 14 de fevereiro" e já com um cardioversor-desfibrilhador implantável (CDI). Mas o seu estado físico, 24 quilos apenas e o lado direito do corpo imóvel, obrigou-o a ser transferido novamente para o Fernando Fonseca para fazer o trabalho de recuperação.

Na cama 8, onde esteve internado, "uma cama mediática, chamemos-lhe assim, porque fica em frente à porta onde médicos, enfermeiros e auxiliares entram" e "o caos dos médicos" acontecia, o seu coração parou por duas vezes. Os diagnósticos dos profissionais de saúde apontavam para que, mais dia, menos dia, o coração de Alberto parasse e, dessa vez, não voltasse a funcionar. "Nunca me foi dito a mim, mas havia sempre uma expectativa de não sobreviver ao problema que tenho. Isto foi dito à minha mãe, que só me dizia que as informações que lhe iam dando eram péssimas, eram sempre para a ir preparando para uma morte lenta."

Só que Alberto venceu o diagnóstico e saiu do hospital com 55 quilos e grande parte dos movimentos recuperados em abril de 2018. "Foi uma surpresa" ver-se no hospital e com insuficiência cardíaca. "Fazia análises, nunca foi detetado nada", afirma. Agora, fazendo a retrospetiva do que viveu entre hospitais, acredita que um diagnóstico precoce pelo seu médico de família poderia ter precavido a crise que o levou ao hospital em 2017. "Talvez tivesse feito diferença se um médico de medicina geral tivesse mais formação nesta matéria e percebesse que eu estava com um problema de insuficiência cardíaca."

Diagnosticar cedo e cedo erguer

Diagnosticar cedo e cedo erguer dá saúde, sim, afirma a equipa de cardiologistas do Fernando Fonseca. E, ao contrário do ditado, não faz crescer, mas pode fazer decrescer uma taxa de mortalidade que, em Portugal, se tem mantido elevada. "A mortalidade desta doença é muito elevada e mata mais do que muitos cancros", diz a cardiologista Ana Oliveira, responsável pelo programa de formação aos colegas de medicina geral e familiar. "É uma coisa de que as pessoas não têm a noção", e pode acontecer quer por morte súbita quer por insuficiência cardíaca.

Ao fim de 19 anos ao serviço dos doentes da unidade de cardiologia no Fernando Fonseca, e tendo sido quem, em 2005, instituiu a consulta de insuficiência cardíaca na unidade, a especialista tem presente o abismo das estatísticas. E lembra que o cenário atual indica que "50% das pessoas [com insuficiência cardíaca] poderão estar mortas ao fim de cinco anos, desde que é feito o diagnóstico".

Foi com estes números em mente e com a consciência de que um cenário destes pode ser invertido com o diagnóstico precoce que Ana Oliveira integrou a equipa de cardiologistas que lançou um repto aos médicos de medicina geral e familiar. Sendo eles "os primeiros a quem o doente recorre quando começa a ter sintomas - como cansaço, falta de ar e pernas inchadas -, porque não formá-los para reconhecerem estes sintomas, pedirem exames complementares, fazerem o diagnóstico e iniciarem medicação"? Então depois encaminhariam os doentes para o cardiologista.

"Muitas vezes, perde-se tempo entre o diagnóstico e o doente chegar até nós. Os motivos são vários, um deles é a lista de espera que existe para chegar a uma consulta de cardiologia", afirmam. Mas se "o clínico geral tiver essas armas consegue iniciar a terapêutica e o doente já chega até nós medicado e, portanto, com menos sintomas - porque, obviamente, a doença causa sofrimento. E, às vezes, com pouca terapêutica, melhoram muito. Nós [cardiologistas] depois faremos todo o trabalho para perceber qual é a causa da insuficiência cardíaca e acompanharemos o doente."

Tiago Ferreira foi dos médicos de família que aceitaram o desafio da formação em insuficiência cardíaca para se ganhar tempo nos cuidados primários e salvar-se mais vidas. Em novembro de 2018, o interno de medicina geral e familiar do 4.º ano, de 33 anos, tornou-se mais um entre as dezenas de colegas da especialidade que se inscreveram na formação do programa coordenado pela cardiologista Ana Oliveira. E desde a formação que o alcance que tem perante sinais de alerta dos seus doentes da Unidade de Saúde Familiar de São Marcos, em Agualva-Cacém, mudou muito. Tiago Ferreira conta que, "além de aprender todos os protocolos terapêuticos que se deve fazer até ao momento em que devemos referenciar para o hospital", sente-se mais seguro, sendo já capaz de "identificar os sintomas numa fase mais precoce da doença e, portanto, referenciá-los mais cedo ou iniciar um tratamento mais direcionado".

O resultado é benéfico para todos: a vida dos doentes melhora, os centros de saúde passam a estar mais capacitados e os hospitais deixam de ter um peso tão grande nos internamentos. David Roque, assistente hospitalar no Fernando Fonseca, diz que a insuficiência cardíaca é "a principal causa de internamento acima dos 65 anos, o que coloca uma grande carga sobre o sistema de saúde".

Além disso, "estes doentes têm uma elevadíssima taxa de reinternamento: há volta de 30% a 40% dos doentes são novamente internados ao fim de um mês. Isto não é só um peso nos serviços de saúde, é também na própria economia - são muitos dias perdidos de trabalho, porque muitos dos doentes ainda trabalham".

A seguir, formar os doentes

Mas além de formar os médicos e de se diagnosticar os doentes, há também que alertar outros para a doença, já que parte do processo para se conseguir salvar mais vidas deve partir do reconhecimento de sintomas por parte do próprio doente. Por isso mesmo, também no Hospital Fernando Fonseca foi criado um programa com o objetivo de se formar utentes para estarem alerta aos sinais de risco. Catarina Fernandes, de 39 anos, enfermeira "por vocação", como diz, na área da cardiologia, coordena estas formações. "Esta área de apoio ao doente com problemas cardiovasculares diferencia-nos de outros centros, é o nosso ex-líbris", defende. A intenção é "ajudar as pessoas a terem uma literacia de saúde um pouco mais diferenciada, serem gestoras da sua doença, saberem onde procurar informação e onde aceder aos cuidados", esclarece.

Para utentes com insuficiência cardíaca, "é uma formação de proximidade", em que os enfermeiros procuram saber "as necessidades de cada um dos utentes e fazer uma formação associada aos fatores de risco que cada uma das pessoas tem". E até os familiares podem participar. "Podemos chamar aqui os cuidadores formais destas pessoas e podemos auxiliá-los também, promovendo um pouco as sinergias entre a família e o utente."

Catarina Fernandes lembra o caso de Alberto Garcia, que "tinha hábitos etanólicos marcados, não tinha hábitos alimentares regulados, não praticava exercício físico nem estava desperto para estas situações, e a parte emocional não estava estabilizada". Um quadro que não é mais do que "o resultado das escolhas que nós vamos fazendo no nosso dia-a-dia e que depois culminam, como aconteceu com o Alberto, numa situação aguda e de doença gravosa".

Durante anos, Alberto viveu sem sinais de alerta. O episódio que o poderia ter deixado mais perto de saber o que viria a sofrer aos 47 anos ocorreu em 1993, era ele um jovem a cumprir o serviço militar obrigatório. Durante um exercício, "as pulsações aumentaram bastante", acima do normal. No entanto, "não me passava pela cabeça que, passado 35 anos, viesse a espoletar esta situação", diz. Agora, e depois de uma experiência terrível em 2017, sabe como lidar com a doença.

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