Entrevista a Isabel Allende: "Depois da morte da minha filha, tudo ficou escuro"

Isabel Allende concebeu o seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos”, como uma carta para o avô que estava a morrer.
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Isabel Allende concebeu o seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos”, como uma carta para o avô que estava a morrer. Apesar de este se ter tornado num best-seller internacional, precisou de escrever mais um livro de sucesso antes de se sentir suficientemente segura para deixar o emprego. Tem agora mais de 20 títulos publicados, incluindo “O Amante Japonês”, lançado no ano passado.

“Paula” é um livro de memórias sobre a morte da sua filha; “A Casa dos Espíritos” era uma carta ao seu avô moribundo. O trabalho ajuda-a a superar estas tragédias?

Foi curativo. “A Casa dos Espíritos” foi uma tentativa de recuperar o mundo que eu perdera no exílio — a minha família, o meu passado, o meu avô — e acho que o consegui. Estará para sempre nesse livro. Depois da morte da minha filha, tudo ficou escuro. Toda a cor desapareceu da minha vida. Todos os dias pareciam iguais. Ela passou um ano em coma e cuidei dela em casa. Um mês depois, a minha mãe devolveu-me 180 cartas que eu lhe escrevera ao longo desse ano, e comecei a escrever. Foi muito duro, mas também curativo, porque pude depositar naquelas páginas tudo o que acontecera e isso permitiu-me voltar a ver em meu redor. Os meus netos estavam a nascer. Eu tinha um marido que me amava. Havia vida por todo o lado.

Parece muito confortável ao tornar pública a sua vida privada.

Quando escrevi “Paula”, a minha mãe disse, “Escreveste tanto sobre a tua vida íntima, estás tão vulnerável”. Respondi-lhe, “Mãe, não fico vulnerável pelas verdades que conto, mas pelos segredos que escondo”. A minha vida não é diferente da de ninguém. Não fiz nada tão horrível que não possa ser dito e, quando partilho, os outros partilham comigo. É uma troca de histórias e de emoções.

Falou das muitas edições estrangeiras dos seus livros. Porque pensa que os seus livros encontram eco em diferentes culturas?

Concentramo-nos sempre nas diferenças — cor da pele, cultura, língua, nacionalidade, seja o que for, mas as pessoas são muito semelhantes em todo o lado. Temem as mesmas coisas. Querem as mesmas coisas. Por dentro, temos todos exatamente os mesmos órgãos, os mesmos cérebros, os mesmos sonhos. Então, uma história sobre o envelhecimento em S. Francisco encontra eco na Turquia.

Afirmou que esteve sempre determinada a trabalhar. Porquê?

Porque queria sustentar-me. Uma coisa que influenciou a minha vida foi ver a minha mãe como uma vítima. Ela era uma jovem bonita que casou com o homem errado, teve três filhos em quatro anos e foi abandonada por esse homem, por isso foi viver para casa do meu avô. Não tinha uma boa instrução nem uma profissão. Dependia completamente do pai. Adoro a minha mãe, fomos sempre muito próximas, mas eu não queria ser como ela. Além disso, não tenho jeito para ficar em casa. Adorava os meus dois filhos, mas confiei na minha sogra e numa avó adotiva para me ajudarem a criá-los, porque eu precisava de sair para o mundo.

Tentou escrever um livro com o seu marido, agora ex, um romance policial. Como é que correu?

A ideia foi da minha agente, mas foi impossível. Ele escreve em inglês, eu escrevo em espanhol. Ele consegue concentrar-se 11 minutos; eu escrevo durante 11 horas. Eu faço pesquisa, ele não. Então eu escrevi “O Jogo de Ripper” e ele continuou a escrever o seu quinto policial.

“A Casa dos Espíritos” foi rodada em filme, mas não se envolveu no processo. Foi difícil?

Cinemas, peças de teatro, ópera — nunca me envolvo, porque é outro meio, um produto totalmente diferente sobre o qual eu não sei nada. Não gostaria que alguém espreitasse por cima do meu ombro quando estou a escrever, porque espreitaria eu por cima do ombro de um realizador? Vendemos a opção por relativamente pouco dinheiro e eles fazem o que quiserem. Quando vendi os direitos de “A Casa dos Espíritos”, escrevi à mão no contrato que queria que Bille August, o realizador dinamarquês, fizesse o filme. Tinha visto o seu “Pelle, o Conquistador” e adorado. Então, foi ele que acabou por realizar o filme. Mas os produtores eram alemães, os atores anglo-saxónicos e a língua foi o inglês. Foi filmado na Europa, pelo que não tinha muito do Chile. Mas acho que foi muito bem feito.

Em 2011 falou em reformar-se. Ainda pensa nisso?

Foi uma época má e eu estava muito cansada. Tinha viajado muito. E todos os meus amigos se estavam a reformar e a viver uma vida ótima, por isso, pensei, “Porque é que eu não posso?” Mas agora sei que não posso reformar-me. Para quê? Adoro o que faço. Para o tipo de trabalho que tenho, não preciso de estar em forma nem de ser jovem. Só preciso de ter o cérebro em boas condições.

Vê-se como mentora ou modelo de desempenho para outras mulheres que trabalham?

Não, mas as pessoas, especialmente as mulheres jovens, dizem que as personagens dos meus livros as inspiraram por serem mulheres fortes e independentes, que ultrapassaram obstáculos horríveis e têm vidas próprias.

Tem alguns modelos de desempenho?

Aquelas mulheres extraordinárias que apoiamos com a nossa fundação — por exemplo, mulheres no Congo que foram violadas ao ponto de nunca mais poderem voltar a andar, mas são líderes nas suas comunidades; rapariguinhas que foram vendidas para bordéis mas conseguiram fugir e ajudar outras. Os meus modelos são elas.

A sua família representa um importante legado político no Chile. Alguma vez considerou uma carreira no governo?

Não. Tenho uma prima que tem o meu nome — Isabel Allende Bussi — e que é a política da família. Eu não tenho estofo para isso. Sou escritora. Gosto de estar tranquila, sozinha, criando as minhas próprias histórias na minha cabeça e no meu coração. Não posso andar por aí a fazer acordos e negociatas com políticos. Nem pensar!

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