Irlanda

António Araújo

Um pedaço de Bacon (1)

Quando a Irmã Mercedes lhe fechou os olhos, na Clínica Ruber de Madrid, ignorava por certo o que aquele homem dissera anos antes sobre alguém que, como ele, partira para o outro mundo aos braços de uma freira. "Morreu num hospício de Málaga, tratada por umas irmãzinhas católicas... haverá coisa mais horrível do que essa?", perguntara ele ao falar da morte de Jane, mulher do escritor Paul Bowles, que conhecera em Tânger, nos anos de maior loucura, os anos em que por um triz não perdera a vida na voragem da violência e do excesso. O seu amante da altura, talvez o amor maior de toda a sua vida, acabou por morrer lá, devastado pelo álcool e pelas dívidas. Bebia três garrafas de whisky por dia, numa vertigem suicidária, e ele soube-o morto quando, no dia da inauguração de uma exposição sua na Tate, poucas horas antes da abertura, recebeu um telegrama de Marrocos com a notícia mais que esperada.

Graça Lobo

"Os lares são todos muito maus. Encontrei pobreza que não imaginava"

Nasceu há 80 anos num palacete em Vialonga, tem passado os últimos em lares, "numa tournée", ironiza, com horários completamente desfasados do teatro. Fala destes tempos, de uma pobreza que não imaginava, mas também dos tempos do glamour. Tão intensos como as suas paixões. Este texto foi publicado a 4 de agosto de 2019 e faz parte de uma seleção de entrevistas, realizadas pelo DN durante o último ano, para voltar a ler neste verão.