Elétricas europeias têm 3,3 biliões para acelerar descarbonização

Para a Associação das Empresas Elétricas Europeias, a transição energética e a eletrificação são grandes oportunidades de negócio.
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Mais de três biliões de euros. Este é o valor global que as empresas elétricas europeias, incluindo a portuguesa EDP, querem investir até 2050, a uma média de 100 mil milhões por ano, para acelerar o processo de transição energética e conseguir um mix energético livre de combustíveis fósseis na União Europeia antes da primeira metade do século XXI.

Um envelope financeiro considerável e agora multiplicado quase para o dobro face aos 1,8 biliões de euros que o CEO da EDP, António Mexia, anunciou em 2017, na convenção anual da Eurelectric - Associação das Empresas Elétricas Europeias, no Estoril, que o setor elétrico europeu iria investir até 2050 na modernização dos sistemas energéticos no continente para cumprir as metas de descarbonização estabelecidas.

Neste contexto, a EDP tem feito investimentos anuais em energias renováveis entre dois e três mil milhões de euros, e só em Portugal a empresa investiu mais de 15 mil milhões nos últimos 12 anos, garantiu ao Dinheiro Vivo António Coutinho, administrador da EDP Comercial.

Para os próximos anos, o ritmo de investimento manter-se-á, com “um envelope financeiro definido pela empresa, que é depois aplicado nos mercados mais atrativos”. A EDP tem projetos de energias renováveis em Portugal, no Brasil e nos EUA. “A descarbonização da economia passa pela eletrificação e isto tem de se fazer com investimentos. O dinheiro existe, falta um contexto favorável para que o investimento se faça”, disse Coutinho, em Bruxelas.

Esta semana, os responsáveis de muitas das 3500 associadas da Eurelectric - entre elas gigantes como a Enel, Endesa, Iberdrola, EDF, E.ON SE, ESB, Gas Natural Fenosa, EDP, entre outras -, voltaram a reunir-se na Bélgica para obter da Comissão Europeia a aprovação formal da visão para o setor que apresentaram em dezembro e que já obteve um sinal positivo das Nações Unidas.

No cenário histórico da Biblioteca Solvay, a dois passos do hemiciclo do Parlamento Europeu, na capital belga, Maros Sefcovic, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pela pasta da União Energética, deu a sua benção ao plano de ação da Eurelectric para acelerar a descarbonização e eletrificar setores chave para as economias europeias - como o aquecimento, os transportes e a indústria.

“Agora temos de passar do debate à implementação no terreno”, disse o responsável, anunciando o arranque de projetos-piloto para reduzir a dependência do carvão em quatro países europeus: Polónia, Eslováquia, Grécia e Alemanha. “Ainda há 41 regiões europeias muito dependentes do carvão na União Europeia. É um setor que emprega muitas pessoas, temos de arranjar uma alternativa viável”, disse Sefcovic, rematando: “Para que o Acordo de Paris seja um sucesso, temos de acelerar para uma mudança mais rápida”.

Na visão de Francesco Starace, CEO da italiana Enel e sucessor de Mexia na presidência da Eurelectric, “a indústria vê grandes oportunidades na eletrificação e descarbonização do consumo de energia na Europa, mas para conseguir cumprir este objetivo precisamos do apoio dos legisladores para criar um ambiente estável para os investimentos de longo prazo necessários”.

Kristian Rubi, secretário-geral da Eurelectric, confirma. “Estamos a falar de investimentos na ordem dos 100 mil milhões de euros por ano até 2050. Mas queremos fazê-lo mais rápido, bem antes de meados do século. É muito dinheiro, os investidores querem previsibilidade nos seus cash flows, certezas e retorno do investimento. Temos de nos certificar que seja criado o enquadramento legal para que isso seja possível”, disse em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Além da “clara urgência para mudar o setor energético e fazer a transição”, Ruby sublinha a “oportunidade de negócio para as empresas e perspetivas de crescimento para o setor da energia, se existir um enquadramento legal adequado e se a eletricidade tiver o papel principal”. “As necessidades de investimento são tão grandes, que superam os próprios lucros das empresas do setor. Precisamos dos grandes bancos, de outros setores, dos governos. Daí a necessidade de oferecer certezas de retorno do investimento feito. Só assim os grandes bancos emprestam dinheiro para projetos na área da energia, que é muito volátil”.

Para 2018, Kristian Ruby revela que será feito um estudo no terreno sobre a eletrificação do aquecimento, dos transportes e da indústria: que quantidade de eletricidade precisam, quanto custará e quão rapidamente podem estes setores ser descarbonizados? E deixa um recado à Comissão Europeia: “Definiram o gás como prioridade, mas é importante não esquecer que a transição energética passa por usar mais eletricidade”.

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