Até agora, o sexo masculino tem sido o padrão para a investigação científica. Basta lembrar, como refere ao DN Paula Macedo, professora, subdiretora para a Investigação na Nova Medical School (NMS) e vice-presidente da Sociedade Europeia de Investigação Clínica, que os medicamentos são feitos para o metabolismo de um homem adulto com cerca de 1,70 m de altura e com 70 quilos. Mas, a verdade, é que há também uma explicação científica para que tal tenha sido sempre assim: “O sexo masculino tem uma fisiologia mais contínua ao longo do vida, a mulher não”, refere a professora da NMS.A fisiologia da mulher não é a mesma ao longo da vida, muda com a fase menstrual, com a gravidez ou com a menopausa. E, por isto mesmo, a sua reação às doenças pode divergir da do homem. A equipa de Paula Macedo já realizou dois estudos, publicados em revistas científicas, sobre o tema. Um é o Tuning Metabolic Wellness Across Women’s Life Transitions (Adaptando o Bem-Estar Metabólico ao Longo das Transições de Vida da Mulher) - que ficou em 3.º lugar no concurso europeu H-INNOVA, entre cerca de 600 candidaturas de vários países europeus, em dezembro de 2025 -, que aborda a questão de o metabolismo feminino se alterar radicalmente na adolescência, na gravidez e na menopausa e o que isto implica para a prevenção e tratamento de doenças como a diabetes. O outro é o Lipidomic Profiling Unveils Sex Differences in Diabetes Risk: Implications for precision medicine (Perfil Lipídico Revela Diferenças Entre os Sexos no Risco da Diabetes: Implicações para a medicina de precisão), que analisou quase mil portugueses e revelou que os perfis lipídicos (tipos de gorduras que circulam no sangue) diferem significativamente entre homens e mulheres com risco metabólico semelhante.De acordo com a evidência demonstrada neste estudo, as mulheres apresentam níveis mais elevados de ceramidas de cadeia longa, enquanto os homens exibem outros padrões lipídicos associados ao dismetabolismo. Ou seja, e como destaca Paula Macedo, as evidências revelam que diagnosticar e tratar a diabetes olhando apenas para a glicose, sem considerar o sexo e o perfil lipídico, é um retrato incompleto, defendendo que a abordagem à saúde da mulher tem de passar a incluir outras dimensões, nomeadamente fisiológicas e sociais.Como investigadora, tem dedicado muito do seu percurso à descoberta das diferenças entre organismo feminino e masculino. À luz do que se sabe hoje, pode dizer-se que os organismos feminino e masculino reagem de forma diferente às doenças na generalidade ou só a algumas doenças? Eu começaria por colocar outra questão que é: hoje em dia, a medicina conhece verdadeiramente o corpo da mulher? Isto porque, há de facto imenso conhecimento, mas no que toca ao organismo feminino conhece-se menos do que se deveria, até porque durante décadas foi sempre o corpo masculino que foi tratado como modelo-padrão na investigação. É certo que a maior razão para que tal tivesse acontecido foi sempre a necessidade de o organismo feminino requerer uma abordagem mais complexa, pois ao longo da vida e ao longo do próprio mês, a fisiologia da mulher sofre variabilidades. Ou seja, a fisiologia de uma mulher nunca é igual, passa por várias fases e não podemos encarar uma mulher sempre da mesma forma. Não podemos encarar uma mulher que está grávida como encaramos outra que não está - o metabolismo será sempre diferente. O mesmo acontece com uma mulher que está na menopausa e outra que não está, por exemplo. Mas, ao longo dos tempos, isto fez com que tenha havido menos progresso no conhecimento da saúde da mulher. É uma lacuna que tem de ser encarada cientificamente, até para se poder estudar melhor, diagnosticar melhor e tratar melhor as mulheres na sua generalidade.Mas relativamente à questão, homens e mulheres reagem de forma diferente à doença? O sexo masculino e o sexo feminino são diferentes na sua fisiologia e fisiopatologia, mas o que quero dizer com isto? Que pode haver patologias ou doenças em que ambos se comportam de forma muito similar, mas que pode haver muitas outras em que se comportam de forma distinta, até porque, no caso das mulheres, pode haver formas distintas de reagir a algumas situações ao longo da vida. Por exemplo, em relação às doenças cardiovasculares, os perfis de sintomatologia e de reação a estas doenças podem ser distintos entre homens e mulheres, e, nestas, distintos entre uma que já esteja numa fase menopáusica e outra que não. Ou, por exemplo, distinto para uma mulher que tenha diabetes e outra que não. As doenças podem ser as mesmas, mas terem perfis diferentes (fenótipos diferentes) para homens ou para mulheres. Em relação à doença que estudo, a Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD), as mulheres encontram-se muito mais protegidas que os homens durante uma grande parte da sua vida, mas quando chegam à fase da menopausa deixam de estar protegidas e passam a ter uma enorme prevalência, muito próxima da do homem.Quer dizer que podem reagir de forma diferente, mas que ainda há um longo caminho a fazer no estudo sobre as diferenças entre o organismo feminino e masculino?Há muito caminho a fazer em todos esses aspetos, precisamente porque cientificamente o homem tem sido mais estudado do que a mulher. É um perfil mais contínuo do que a mulher, não passa por tantas variáveis ao longo da vida, e, por isto, foi sempre mais estudado. Era o sexo masculino que era sempre usado para ensaios clínicos. Agora, já há maior paridade, mas tem de continuar a haver uma evolução até para se poder responder ao que são as preocupações para o sexo masculino e para o sexo feminino. Portanto, hoje, num ensaio clínico não basta dizer que está assegurada a paridade com 50 homens e 50 mulheres, temos de passar à fase seguinte e avaliar quais são as preocupações para um e para o outro e em que fase da vida. Isso quer dizer que a própria ciência e a medicina têm de se adaptar a esta nova realidade, sobretudo porque vivemos a era em que se aposta cada vez mais nos tratamentos personalizados? Quando falamos de medicina personalizada há uma dimensão que tem de estar incluída, que é a do género (variável do sexo), porque hoje em dia os fármacos ainda são desenhados para serem tomados por um homem com cerca de 1,70 m de altura e com 70 quilos. E há que fazer aqui um caminho do ponto de vista científico para termos a certeza de que há uma adequação ao organismo feminino e à sua capacidade de metabolização. Portanto, sim, é preciso adequar a toma de um medicamento ao organismo da mulher. E neste sentido, ciência, medicina e indústria farmacêutica têm de ter uma nova abordagem em relação à saúde da mulher para lhes dar melhores cuidados, até pela longevidade e aumento da esperança média de vida. Mas é preciso também sensibilizar a sociedade para este tópico, pois terá de ser esta a pedir que este caminho seja feito.Porquê?Porque as mulheres são as últimas a cuidarem delas próprias. As mulheres são cuidadoras e como são, a forma como cuidam delas próprias também faz com que a identificação de uma determinada doença ocorra mais tardiamente do que nos homens. Por exemplo, numa questão como a obesidade, se olharmos para um homem obeso e para uma mulher obesa, se calhar, a interpretação que a própria sociedade faz da obesidade é diferencial. E há que sensibilizar a sociedade para todos estes tópicos, porque é a sociedade, sempre aliada à ciência, que faz mover tudo o resto.Se não houver esta sensibilização na ciência e na própria sociedade sobre as diferenças no organismo da mulher esta pode correr mais riscos em relação a certas doenças ou não ter tratamento adequado? A ciência terá sempre de ser o pilar de tudo isto, mas se não houver esta sensibilização a mulher vai, com certeza, ser menos cuidada do que o homem. O nosso propósito, enquanto investigadores, é que passe a haver uma preocupação real com a saúde da mulher, até por causa, e como já disse, do aumento da esperança média de vida e do envelhecimento das mulheres. Nesta fase, há uma preocupação com a variável sexo que é diferencial e que tem de estar no centro da atenção dos investigadores e dos modelos de cuidados. Ou seja, quando falo na saúde da mulher e na forma de a abordarmos ou cuidarmos não é só em termos de farmacologia, pura e dura. Há muitas outras dimensões que têm de entrar nesta abordagem, como a saúde mental. É muito importante que se tome consciência desta dimensão, porque se a mulher foi toda a vida cuidadora como é que agora vai cuidar dela própria ou como vai ser cuidada pela sociedade? E esta também é uma responsabilidade da própria sociedade.Fala de várias dimensões, como a saúde mental, quais são as outras que considera importantes para que haja uma mudança na abordagem da saúde mulher? São inúmeras, mas acho que uma das mais importantes é a dimensão dos estudos e dos ensaios clínicos, que são aqueles que nos podem dizer de forma rigorosa se há realmente uma diferença entre homens e mulheres e qual deve ser o caminho para combater essa diferença. Há uma década a ciência fundamental estava muito centrada na investigação através de um modelo padrão que era o sexo masculino, agora começa-se, e até por determinação da própria Comissão Europeia, a considerar também o sexo feminino. E, por isso, a dimensão dos estudos e ensaios clínicos é uma das primeiras que temos de ter em conta. Depois, temos a dimensão das patologias e o próprio percurso da mulher ao longo da vida. Não podemos fazer estudos pontuais sobre uma patologia, cada vez mais temos de fazer estudos ao longo das várias fases da vida da mulher. Quando olhamos para uma patologia na dimensão de uma mulher grávida esta é muito diferente da dimensão de uma mulher idosa, até pode ser a mesma mulher, mas são muito diferentes. Por fim, temos a dimensão dos modelos de cuidados: como podemos alterar o percurso de uma mulher que é cuidadora e se esquece de cuidar dela na doença? O que vamos fazer e como? E o que pode ser feito?Podemos pegar no que é a nossa vivência diária e repensar o modelo de cuidados de forma a que se esteja mais atento à prevenção das doenças e até mais atento à prevenção da progressão destas. E as soluções podem estar no uso de metodologias relevantes, como a transformação digital, que vai desde a formação de profissionais à prática clínica. Ou seja, através de uma mudança que vai desde a bancada da investigação até à sociedade, gerando-se mais evidência rigorosa, mais inovação e melhores cuidados de saúde para a mulher. E este é o propósito da Faculdade de Ciências Médicas, da Nova Medical School, na área da investigação, para que possamos contribuir para um passo em frente na abordagem em relação à saúde da mulher. .Mulheres queixam-se de falta de flexibilidade laboral para gerir a saúde.Investigação associa menopausa a efeitos semelhantes aos de doença de Alzheimer.Diferença de atenção dada à saúde de mulheres e homens custa 920 mil milhões de euros por ano