Há poucos dias, no debate sobre o Estado da Nação, a área da Saúde foi uma das visadas, como economista e professor da ENSP como olha para o estado atual da Saúde e do SNS? Antes de falar especificamente das questões mais económicas ou da organização do sistema, penso que é importante olharmos para indicadores de saúde pública, como a esperança média de vida que é das mais elevadas da Europa e que tem vindo a aumentar mesmo depois da pandemia. Este é um aspeto positivo, mas traz um outro problema: as pessoas vivem muitos anos, em média, até aos 82 ou 83 anos, mas estão a envelhecer mal. Ou seja, a partir dos 65 anos a população portuguesa regista taxas muito elevadas de multimorbilidades, duas ou três doenças, que lhes provocam restrições e limitações nas suas atividades. Depois, temos uma taxa de obesidade também elevada, um consumo de álcool que é igualmente dos mais elevados da Europa e uma falta grande de atividade física. Portanto, se por um lado o país está bem na esperança média de vida, por outro é preciso trabalhar na prevenção de alguns indicadores de saúde pública. E relativamente ao funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS)?Bem, falarei no sistema de saúde como um todo e, neste âmbito, também há problemas sérios, nomeadamente no acesso aos cuidados de saúde. Temos tempos de espera muito elevados, que não respeitam o tempo máximo de resposta garantida nas consultas ou nas cirurgias, até em áreas como a do cancro, o que significa que muitos doentes não têm acesso aos cuidados atempadamente. Este é um dos problemas mais sérios, que leva uma boa parte dos portugueses a gastar muito dinheiro do seu bolso com a saúde para terem alternativas, por exemplo através de seguros nos setores privado ou social. Em média, um português gasta cerca de 1100 euros por ano com alternativas na saúde, o que para as famílias mais carenciadas é um valor muito elevado. Aliás, este número foi apontado recentemente como despesa catastrófica, já que 40% do rendimento destas famílias é gasto com a saúde. É uma taxa de esforço muito grande para as famílias, pois este dinheiro não pode ser usado para comer, para habitação ou para comprar livros escolares. E este é um problema muito sério. Na sua opinião, esta questão deveria fazer parte de um debate sobre o Estado da Nação? Claro que sim. Eu diria que estes são os pontos centrais para uma população que está a envelhecer mal, não só porque tem comportamentos pouco saudáveis, digamos assim, mas também porque tem muitos problemas em aceder a um médico quando precisa. Mas, a nível do SNS, há outras falhas no acesso da população aos cuidados, como a nível da medicina oral (dentistas), da saúde mental (psicólogos), nutrição ( nutricionistas) e na mobilidade (fisioterapeutas). Este é outro problema grave, porque o serviço público não consegue dar resposta nestas áreas ou se dá é muito insuficiente.. Este Governo lançou um Programa de Emergência e Transformação da Saúde (PETS) que deveria resolver algumas destas questões, acha que este cumpriu os objetivos. Houve metas que ficaram por cumprir? Depende do que falamos em relação a metas por cumprir. Acho que algumas foram cumpridas, outras não e outras estão no bom caminho. Por exemplo, destaco a diminuição no atendimento de doentes nos serviços de urgência, de doentes que iam lá e não deveriam ir. Na ENSP fizemos um estudo onde se demonstra que a Linha SNS24 e as outras linhas de apoio, como para grávidas, têm tido impacto positivo, o que eu apontaria como algo muito favorável no sentido de se estarem a encontrar caminhos alternativos. Ainda em termos de acesso, o Governo tomou uma medida em relação aos medicamentos que considero ser uma melhoria para a população, sobretudo para idosos, que foi a aplicação da gratuitidade dos medicamentos a pensionistas abaixo de um determinado nível de rendimento. Isto é uma melhoria que permitiu diminuir o que as famílias carenciadas gastavam com a saúde. Mas, por outro lado, e ainda no acesso a cuidados tenho de dizer que a percentagem de pessoas que são tratadas para além do tempo máximo garantido é elevada e tem piorado. E esta era uma das metas do plano de emergência - pode dizer-se que houve uma melhoria no acesso a cirurgias dos doentes de oncologia no início do programa, quando o Governo lançou incentivos muito fortes aos profissionais para aumentar a realização de cirurgias, mas depois essa melhoria deixou de se confirmar. E, neste momento, e de uma forma geral, o acesso a cirurgias está pior, como o acesso a uma consulta de especialidade. Na prática, isso quer dizer que não houve transformação?A transformação vai-se fazendo ao longo do tempo e com medidas mais estruturais. E parece-me que isso não foi conseguido. Aliás, não se conseguiram resolver alguns dos pontos considerados emergentes e urgentes: continuamos com mais de um milhão e meio de pessoas sem médico de família. É um problema grave. O Governo tinha apontado uma linha de pensamento para resolver esta questão através das Parcerias Público Privadas (PPP) com as Unidades de Saúde Familiar (USF) Modelo C, mas este trabalho tem-se revelado muito mais complicado do que parecia. As propostas para atrair o setor privado a desenvolver estas USF não têm sido muito atrativas. Os privados têm levantado muitas questões sobre a sustentabilidade destas unidades e não têm querido concorrer. Ou seja, houve um número reduzido de candidaturas e isso, claramente, não vai resolver o problema da falta de médico de família. Se houver alguma melhoria, será muito marginal e muito residual. E esta era uma das medidas apontadas como uma grande bandeira. O Conselho Europeu recomendou há poucos dias a Portugal que resolva o problema do acesso e a falta de profissionais. É outro problema? O Governo tem apostado em políticas de incentivos, pagar aos médicos para fazerem mais consultas, exames e cirurgias, mas estas políticas podem ter impacto a muito curto prazo, mas a médio e longo prazo não estão a dar grande resultado. E o problema é que assim não se resolve a questão de fundo: porque é que os profissionais não querem ficar no SNS? Não é necessariamente pagando mais ou pagando à peça que este problema se resolve, porque se hoje as pessoas não querem trabalhar no SNS, sobretudo os mais jovens, é porque as condições de trabalho não são atrativas, porque não há perspetivas de carreira aliciantes e porque o trabalho que se faz não é reconhecido. Este é um problema de fundo sério que deve ser resolvido, e não é só deste Governo é de outros e de há mais de dez anos. Portanto, não tenho a certeza que para atrair mais médicos ao SNS dependa só de uma questão de mais dinheiro. As novas gerações querem mais flexibilidade nos horários, querem conciliar mais a vida profissional com a pessoal e querem ter mais possibilidade de fazer carreira também na investigação. Basta ouvir quem está no terreno para se saber isto.Ao fim de dois anos, este governo já devia ter percebido esta questão? Sim. E vou utilizar para este governo a mesma acusação que sofreram os governos anteriores, que era a de que assumiam uma postura ideológica para resolver as questões. Os governos de esquerda foram acusados de ter uma postura ideológica contra tudo o que era privado, por exemplo a desconfiança em relação às PPP, que acabaram, quando os privados podem ter um papel no sistema de saúde. Agora, temos a postura ideológica ao contrário, que é a de se resolver tudo com as PPP. Também não é assim. Neste entretanto, a política de pagar mais para se fazer mais não é uma boa opção, mas para se sair desta postura ideológica é preciso ter nos lugares certos pessoas que percebam exatamente o que está a acontecer, o que querem os profissionais e o que deve ser feito. Ou seja, nesta altura, o Governo está a cometer os mesmos erros que cometeram governos anteriores esquecendo algumas questões importantes no debate público, como questões de saúde pública e o que fazer para que as pessoas não fiquem tão doentes e envelheçam melhor. Por exemplo, este governo tem apostado nos rastreios e na vacinação, são pontos positivos, mas são precisas outras medidas de saúde pública para se combater algumas doenças, como a obesidade, e para se viver de forma mais saudável. Perceber isto é mesmo muito importante para que as pessoas fiquem menos doentes, porque o sistema de saúde nunca vai conseguir responder a toda a população se esta estiver toda doente.Para resumir, o Conselho Europeu recomendou a Portugal resolver a questão do acesso aos cuidados, para si é também dos grandes problemas do SNS? A questão do acesso é um problema muito sério em Portugal, sobretudo para as populações mais desfavorecidas que não têm possibilidade de pagar para ir a um privado. Do milhão e meio de pessoas que não têm médico de família, 80% são pessoas de baixo rendimento. Ou seja, o próprio SNS está a ser discriminatório em relação aos mais pobres. E esta questão tem mesmo de ser melhorada. É uma prioridade. E se não temos médicos de família suficientes, como parece que não temos, há que pensar que muito trabalho feito por estes médicos poderia e deveria ser feito por outros profissionais. Por exemplo, investir mais no acompanhamento da saúde mental por psicólogos. Isto não implica mais dinheiro, implica reorganizar as profissões e os cuidados. É preciso deixar que outros profissionais entrem na esfera dos cuidados e possam acompanhar os doentes para que todos tenham direito aos cuidados que precisam. É ainda preciso apostar mais em sistemas de informação para não se duplicar exames. É ainda preciso investir mais no acompanhamento do idoso dependente, por exemplo em cuidados continuados. É mesmo preciso, porque estas situações são dramáticas para as famílias que têm de tomar conta de um idoso fragilizado e que não têm possibilidades para isso. E uma sociedade não consegue evoluir se a sua população idosa não envelhecer bem. .Das 142 vagas para médicos de Família só 50 foram ocupadas, em Lisboa e Vale do Tejo 60 ficaram vazias.Médicos de família aceitam que “convenções” com setores privado e social sejam “solução para alguns doentes”.SNS com défice de 1.035 milhões de euros em 2025.Ministra da Saúde atribui quebra das cirurgias no SNS ao travão imposto pelo Governo à produção adicional