Os Estados Unidos vão voltar a marcar presença numa reunião da Coligação dos Dispostos, com a Casa Branca a confirmar esta segunda-feira, 5 de janeiro, que o enviado especial Steve Witkoff, e o genro do presidente, Jared Kushner, marcarão presença no encontro desta terça-feira em Paris, onde serão discutidas garantias de segurança para a Ucrânia. Uma confirmação que surge horas depois de Donald Trump ter afirmado publicamente que não acredita num alegado ataque ucraniano a uma residência do presidente Vladimir Putin, como acusa Moscovo, usando este argumento para rever a sua posição nas negociações de paz.“Não acredito que este ataque tenha acontecido”, disse o presidente dos EUA a bordo do Air Force One. “Aconteceu algo muito perto, mas não tem nada a ver com isso.” Uma mudança de posição de Trump que, logo depois de ter sido informado por Putin do alegado ataque, disse ter ficado “muito irritado”. “Uma coisa é ser ofensivo, porque eles são ofensivos. Outra coisa é atacar a casa dele. Não é o momento certo para fazer nada disto”, declarou no início da semana passada. A véspera deste encontro em Paris fica também marcada pela decisão de Volodymyr Zelensky de substituir o chefe do serviço de segurança da Ucrânia (SBU), Vasyl Maliuk, dando assim continuidade a uma reformulação de alto nível que incluiu a nomeação do até agora chefe dos serviços de informação militares, Kyrylo Budanov, para chefe de gabinete.De acordo com um decreto publicado no site da presidência ucraniana, o novo líder interino da SBU será Ievhen Khmara, antigo chefe do Centro de Operações Especiais “A” do Serviço de Segurança. Maliuk tinha sido nomeado chefe da SBU em fevereiro de 2023, após meses como interino, com o seu mandato a ficar marcado por grandes operações, como o ataque com drones contra dezenas de bombardeiros russos estacionados a milhares de quilómetros da Ucrânia ou três ataques à ponte que liga a Rússia à península da Crimeia.Nas redes sociais, Zelensky explicou ter pedido a Maliuk para se concentrar mais nas operações de combate, sublinhando que “deve haver mais operações assimétricas ucranianas contra o ocupante e o Estado russo, e resultados mais concretos na eliminação do inimigo.”A reunião desta terça-feira, 6 de janeiro, em Paris da Coligação dos Dispostos irá ter como ponto central as garantias de segurança a longo prazo, de forma a impedir uma nova invasão russa, mas também para consolidar o apoio militar e político ocidental a Kiev. No sábado, num encontro em Kiev com os conselheiros de segurança nacional dos países que fazem parte da coligação, o presidente ucraniano salientou a importância de discutir documentos específicos e detalhes do processo de paz, bem como as necessárias garantias de segurança que os estados parceiros estão dispostos a fornecer, notando que estas devem incluir a presença física de tropas estrangeiras na Ucrânia, pois a dissuasão não pode depender apenas de garantias políticas. No âmbito deste encontro preliminar em Kiev, o negociador ucraniano Oleksandr Bevz adiantou que estavam a ser coordenados planos de garantia de segurança com os parceiros europeus, que incluiriam um acordo multilateral envolvendo as forças ucranianas como primeira linha de defesa, tropas lideradas pela Europa destacadas na Ucrânia e apoio dos EUA como mecanismo de salvaguarda.Já o vice-primeiro-ministro ucraniano, Taras Kachka, adiantou que os parceiros internacionais tinham chegado a um entendimento sobre um pacote de apoio económico de cerca de 800 mil milhões de dólares (cerca de 683 mil milhões de euros) para a Ucrânia na próxima década.Este pacote - que tem por base cálculos do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia e que ficaria ligado às reformas de adesão ao bloco - cobriria indemnizações por danos, a reconstrução do país, estabilização económica e um estímulo ao crescimento de 200 mil milhões de dólares (cerca de 170 mil milhões de euros).Com a presença esperada de cerca de 30 chefes de Estado e de governo, no encontro estarão também o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Esta segunda-feira, Bruxelas afirmou que existem “progressos” nas discussões sobre as garantias de segurança, mas sem entrar em detalhes, dizendo apenas considerar a adesão da Ucrânia à União Europeia como “uma garantia de segurança muito clara” e que pode ser oferecida “independentemente do que a Coligação dos Dispostos possa apresentar”.O primeiro-ministro polaco usou esta segunda-feira as redes sociais para pressionar a obtenção de um entendimento hoje em Paris, avisando que “ninguém levará a sério uma Europa fraca e dividida: nem inimigos, nem aliados”. “Precisamos de acreditar finalmente na nossa própria força, precisamos de continuar a armar-nos, precisamos de permanecer unidos como nunca antes. Um por todos e todos por um. Caso contrário, estamos perdidos”, reforçou Donald Tusk.Já o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Kestutis Budrys, afirmou ontem que quaisquer garantias de segurança oferecidas à Ucrânia como parte de um acordo para pôr fim à guerra com a Rússia devem ser reais. “Não podemos fazer bluff... A Rússia não acreditaria nos nossos bluffs. Precisa de ser real, as garantias de segurança precisam de ser muito claras”, disse Budrys.A par das negociações, no terreno os ataques continuam. Segundo o autarca de Kharkiv, Ihor Terekhov, a Rússia realizou esta segunda-feira cinco ataques com mísseis contra a segunda maior cidade da Ucrânia, causando “danos muito graves” nas infraestruturas energéticas. “É um ataque ao aquecimento, à água, à vida normal das pessoas. Estão a tentar destruir-nos com medo e escuridão”, disse no Telegram. Já um ataque aéreo russo noturno contra Kiev e arredores matou duas pessoas, informaram ontem as autoridades ucranianas, o primeiro registo de mortes em ataques russos contra a capital este ano.O Ministério da Defesa russo, por seu lado, informou que a Ucrânia tem atacado Moscovo com drones todos os dias deste ano, marcando assim uma aparente escalada em relação aos ataques anteriores, mais esporádicos, contra a capital russa..Baixas russas na Ucrânia atingem números sem precedentes .UE classifica como “distração deliberada” alegado ataque da Ucrânia à residência de Putin