O criador de conteúdos digital conhecido por bruttosuave, que “por enquanto” não revela a identidade, mas respondeu a perguntas do DN por correio eletrónico, diz que “provavelmente teria feito” o vídeo viral que mostra André Ventura, animado pela inteligência artificial, a fazer passos de dança enquanto debita, com voz de rapper, versos como “tira os teus putos castanhos da minha creche”, mesmo que pudesse saber que o refrão “Isto não é o Bangladesh” viria a ser aproveitado pelo Chega.“Enquanto estiver a encarnar aquilo que para mim é um veículo de sátira, é-me relativamente fácil abstrair de qualquer culpabilidade ou responsabilidade social, embora compreenda as implicações”, diz quem se orgulha de, em dois meses - lançou os primeiros vídeos a 10 de setembro -, ter conseguido dezenas de milhar de seguidores nas redes sociais. E mais de dez milhões de visualizações no Instagram, TikTok e YouTube, além de muitas mais em partilhas de utilizadores, com destaque para os vídeos ‘Bangladesh’ (28,1 milhões) e ‘Cripto Moedas’ (1,9 milhões), que juntam animação feita em inteligência artificial e sátira política traduzida em rimas de rap.“Relativamente surpreendido” com a rápida viralização dos seus vídeos, o criador considera que “este foi um daqueles casos em que se olha para trás e se pensa ‘criei um monstro’, não necessariamente no mau sentido”. Sem revelar mais nada sobre a identidade além da informação de que a sua área profissional “está relativamente ameaçada pelo boom da inteligência artificial”, bruttosuave diz que, “em vez de decidir tentar combatê-la, decidi tentar compreendê-la, tentar manipulá-la a meu favor”.“A escolha do Chega e do André Ventura foi porque tinha de começar por algum lado e porque, goste-se ou não, é um partido que está na linha da frente do mediatismo e do falatório público”, conta quem juntou o líder a Pedro Pinto, Rita Matias e ao ex-deputado Miguel Arruda (“Faz as malas, vamos limpar esta m...”, ouve-se no vídeo) para uma sátira à retórica contra a imigração que acabaria por ser aproveitada para propaganda política.Fã do nonsense dos Monty Python, da série de animação South Park e do fenómeno do You Tube ERB, que cria batalhas de rap entre figuras históricas, bruttosuave “quis tentar algo cómico-satírico” e que representasse “uma fase distópica da nossa realidade sócio-política”. Para tal, contou com as possibilidades das novas tecnologias de animação, mas deixa um esclarecimento sobre o aviso de que as figuras “baseadas em pessoas reais”, embora ficcionais, “foram criadas através de técnicas ultra-avançadas de IA, apenas acessíveis a meia-dúzia de humanos”: “A descrição dos vídeos faz parte da sátira. É impossível fazer o que está ali da forma que está descrita, e há muito trabalho humano.”Isso também é válido para as letras das músicas ouvidas nos vídeos. Depois de o DN lhe perguntar se os versos foram gerados por uma ferramenta como o Chat GPT, Brutto Suave desmente tal possibilidade. “As letras são 100% humanas, da minha autoria, e tanto as letras como as músicas estão devidamente registadas na Sociedade de Autores”, diz, referindo-se a ‘Bangladesh’ ou ‘Cripto Moedas’, disponíveis nas plataformas Spotify e Apple Music. E no site vende merchandising alusivo aos vídeos: t-shirts, canecas e gravuras de Ventura ao estilo de Andy Warhol..Advogado de prevenção.Ao associar Ventura e outros deputados do Chega a xenofobia ou colocando Carlos Moedas a relativizar o acidente que fez 15 mortes no Elevador da Glória - “Sei que uns turistas morreram, e isso é uma tristeza, mas pelo menos viram de perto a calçada portuguesa”, surge na letra da canção -, bruttosuave diz ter “um advogado de prevenção”, mas não antevê ser alvo de processos judiciais. “Estou relativamente dentro daquilo que posso ou não fazer, embora me mova numa área um bocado cinzenta e não é impossível que haja alguma tentativa ou iniciativa nesse sentido. Quando fiz o ‘Bangladesh’ tentei blindar algumas coisas, porque contava com um backlash maior, mas a verdade é que ainda ninguém me tentou processar”, diz.Também diz não ter tratado nenhum dos protagonistas dos seus primeiros vídeos pior do que o outro. “Acho que fui igualmente implacável com ambos, mas também acho que ambos beneficiaram do kick extra de visibilidade que os vídeos trouxeram”, responde, admitindo que Moedas “não tenha gostado muito da forma como foi representado”, a dançar entre a Calçada da Glória e a Web Summit, ou num cemitério, de pá na mão e olhos a brilhar no escuro, cantando “já lidei com tantas mortes e quedas, que até já há quem me chame Cripto Moedas”, o que não o impediu de ser reeleito presidente da Câmara de Lisboa. “Pedir-lhe-ei desculpas pessoalmente, se um dia se proporcionar”, refere.Apesar de já ter sido “contactado por alguém muito próximo de um dos satirizados”, garante que as razões para manter o anonimato não têm a ver com segurança, tendo dito aos seguidores que ainda não pretende misturar a faceta de criador de vídeos satíricos com a sua vida profissional. Ao DN, nega temer que isso lhe feche portas. “Não posso ser prejudicado, pois estou numa boa posição em termos de carreira. Se calhar, até ia ser beneficiado, mas ainda não quero que as pessoas que me conhecem, e me seguem há vários anos, por outros motivos, se confundam com o facto de estar a fazer algo tão diferente daquilo que me tornou relativamente conhecido num certo nicho”, esclarece, acrecentando que a revelação da identidade “eventualmente irá acontecer, mas para mim ainda é cedo”.Também já lhe perguntaram se é militante do partido de André Ventura, tendo em conta o aproveitamento da frase “Isto não é o Bangladesh” nos outdoors espalhados pelo país, e o criador reconhece haver quem assuma que pertence, ou tem ligação ao Chega, “embora não tenha de todo”.“Posso ser considerado apartidário”, diz quem já colocou Mariana Mortágua a recriar a mais célebre cena de Titanic nos braços de Greta Thunberg, ou mostrou tentativas de José Luís Carneiro para produzir um rap do PS com a socialista Eva Cruzeiro e a ex-deputada Joacine Katar Moreira. “Nunca pretendi ‘favorecer’ ninguém, nem acho que o deva fazer, porque isso tiraria algum do sentido da sátira em si”, refere. Certo é que a sua “vítima” mais recente é José Sócrates, estrela do vídeo ‘Marquês’, lançado nesta quinta-feira, com ‘presenças’ de Carlos Santos Silva, Ricardo Salgado ou Luís Montenegro.