“Acordo Conjunto de Defesa de Meca é uma combinação de anos de acordos e parcerias separadas”
O protagonismo diplomático do Paquistão nos últimos meses, atuando como mediador entre o Irão e os EUA, é importante para o país, pois demonstra a sua relevância internacional?
Não creio que o Paquistão esteja a envidar esforços pela paz e estabilidade regional para demonstrar a sua importância. O Paquistão é um ator importante na paz e segurança regional. É do nosso interesse que haja paz na região. Não nos esqueçamos da nossa geografia. E, muito importante ainda, o Paquistão mantém relações e parcerias estratégicas que remontam à sua fundação, há quase oito décadas. As nossas parcerias históricas e fraternais são com a Arábia Saudita, com os outros países do Golfo, com o Egito, com a Turquia, e temos relações culturais históricas com o Irão, com quem partilhamos 900 quilómetros de fronteira. Por conseguinte, é do nosso interesse e do interesse da região que o Paquistão tenha sentido a necessidade de desempenhar o seu papel para trabalhar em prol da resolução do conflito regional desde 28 de fevereiro. E não estamos sozinhos neste esforço. Reconhecemos e agradecemos profundamente os esforços empreendidos por Omã, Qatar, Egito, Turquia e Arábia Saudita.
Foi agora assinado um pacto de defesa entre o Paquistão, a Arábia Saudita e a Turquia. É uma reação à situação na região?
O Acordo Conjunto de Defesa de Meca, assinado no dia 7 de agosto, não é algo que tenha acontecido nos últimos meses. Trata-se de uma conversa que tem vindo a ocorrer há muitos anos entre os três países. Há parcerias estratégicas que o Paquistão mantém com a Turquia, por um lado, e com a Arábia Saudita, por outro. E creio que o Acordo Conjunto de Defesa é uma combinação de anos de acordos e parcerias separadas que tivemos, agora reunidas num mecanismo trilateral. Portanto, é algo ainda muito recente. Assim sendo, a sua estrutura e os seus detalhes serão definidos ao longo do processo. Mas não é contra qualquer país. É um acordo defensivo para a dissuasão coletiva e para a estabilidade e progresso da região no seu todo.
Quando se especula que se trata de um pacto de defesa contra o Irão, que diz?
De forma alguma. Como já disse, isto não é algo que tenha acontecido depois de 28 de fevereiro como consequência do conflito. Já estava em desenvolvimento há muito tempo. Este novo mecanismo trilateral reforça agora a parceria estratégica já existente, alargando o seu alcance.
Temos falado agora do envolvimento do Paquistão no Médio Oriente. Mas existe um outro contexto que diz especificamente respeito à Ásia do Sul. Nos últimos anos, emergiu um conflito com o Afeganistão. E há o conflito com a Índia que data da independência de ambos os países. Como descreveria a situação nestas duas fronteiras?
No que diz respeito ao nosso vizinho de leste, as nossas diferenças e disputas com a Índia remontam à época da partição, em 1947. E, só para realçar, na sexta-feira, 14 de agosto, celebramos o 79.º aniversário da independência do Paquistão. Logo após a fundação do país, a Índia tornou-se uma nação agressiva e ocupou o vale de Jammu e Caxemira a 27 de outubro de 1947. Desde então, as nossas disputas e divergências com a Índia têm persistido a diversos níveis. Jammu e Caxemira é a principal divergência e disputa, mas existem várias outras. E a mais recente é que, em maio de 2025, a Índia atravessou a fronteira internacional e atacou cidades paquistanesas. E as forças armadas paquistanesas deram uma resposta muito contundente. E mostraram que o povo paquistanês, o governo paquistanês e os militares paquistaneses não permitirão que a Índia ataque sem uma resposta.
A mediação de Donald Trump, com todo o peso de ser o presidente dos Estados Unidos, foi importante para evitar uma escalada do conflito?
É muito importante compreender que não escolhemos este conflito. Esta guerra foi imposta ao Paquistão. E o pedido de cessar-fogo foi feito pela Índia ao nosso amigo comum, a liderança americana e o presidente Trump. E, em consequência disso, foi-nos pedido para iniciar um processo de cessar-fogo. E concordámos, porque não somos o agressor. Não estamos à procura de uma guerra. Em contraste com a Índia, que, sendo um país cinco vezes maior que o Paquistão, acredita ter o direito divino de impor a sua vontade ao Paquistão. Assim, aceitámos o pedido de cessar-fogo.
Sendo Paquistão e Índia duas potências nucleares, evitar um conflito em larga escala é uma prioridade?
Absolutamente. Não há precedentes na história em que dois rivais com armas nucleares, que são também vizinhos, não tenham um mecanismo de diálogo, um mecanismo de resolução de litígios. E devemos agradecer ao governo do primeiro-ministro Modi, que nos últimos 11, quase 12 anos, eliminou qualquer tipo de contacto com o Paquistão. Oficialmente, oficiosamente, a todos os níveis. Esta é uma situação insustentável. Os acontecimentos de 2025 deveriam servir de alerta para a comunidade internacional. Além disso, e quero realmente partilhar isto, o facto de o Tratado das Águas do Indo ter sido declarado publicamente como suspenso pela liderança indiana acrescenta um elemento muito perigoso às disputas em curso entre o Paquistão e a Índia. Publicamente, os dirigentes indianos declararam que, e cito, “não permitiremos que uma gota de água chegue ao Paquistão”. Isto é tornar a água uma arma.
E sobre o conflito com o Afeganistão?
Partilhamos uma fronteira de 2600 quilómetros com o Afeganistão. O Paquistão apoia o Afeganistão há décadas. Acolhemos mais de quatro milhões de refugiados em consequência da invasão soviética de 1979. O Paquistão tem procurado ajudar os nossos irmãos e vizinhos afegãos, com quem partilhamos laços culturais, religiosos e históricos. Desde que Cabul foi tomada pelos talibãs, em agosto de 2021, temos estado envolvidos com o regime. Esperamos ver um Afeganistão estável, progressista e próspero, integrado e ligado à região. E que não permite que o seu território seja utilizado para ataques terroristas contra o Paquistão ou contra qualquer outro país. É isso que desejamos. O Paquistão tentou ajudar na reconstrução e no desenvolvimento económico do Afeganistão no período pós-guerra. Infelizmente, a resposta do lado afegão tem sido insatisfatória. Os grupos terroristas continuam a utilizar o território afegão para lançar ataques contra as forças de segurança e civis no Paquistão, nas zonas fronteiriças e até nas cidades. Temos escolas a serem atacadas. Registaram-se incidentes em mesquitas no norte do Paquistão, que faz fronteira com o Afeganistão. Portanto, a situação é difícil. No entanto, continuamos a dialogar com eles. Temos também um mecanismo trilateral com o Afeganistão, o Paquistão e a China, ao nível dos ministros dos Negócios Estrangeiros, onde nos reunimos com bastante regularidade e trazemos à luz todas as questões que precisam de ser discutidas, para que este diálogo possa resultar em soluções que todas as partes devem acatar. Mas penso que, por vezes, os afegãos não honram a palavra que nos dão.
O Paquistão é um aliado da China há décadas, mas é também um aliado tradicional dos EUA. Como é lidar com estas duas grandes potências rivais?
As nossas relações e parcerias não são binárias. Não é uma questão de “ou um ou outro”. Não encaramos os objetivos da política externa do Paquistão nesta perspectiva. Sim, temos tido uma parceria com os Estados Unidos ao longo de muitas décadas, desde os anos 50. Em vários momentos geopolíticos muito importantes, o Paquistão foi o parceiro preferencial dos Estados Unidos, tanto para a região como para a procura de soluções, quer na guerra contra o terrorismo após o 11 de Setembro, quer na SEATO como na CENTO nos anos 50, quer quando a União Soviética invadiu o Afeganistão. O Paquistão mantém uma relação estratégica, económica e de desenvolvimento de longa data com os Estados Unidos. Com a China, temos uma parceria estratégica inabalável que remonta à época em que o Paquistão se tornou independente. O Paquistão foi um dos primeiros países a apoiar a China na conquista do seu lugar de direito nas Nações Unidas. As nossas relações, ao longo destas quase oito décadas, foram repetidamente testadas e comprovadas quanto à profunda convergência de valores, ideais e visão que os dois países partilham. Portanto, não se trata de uma escolha entre um ou outro.
Mohammed Ali Jinnah foi o pai fundador do Paquistão e quis uma democracia. Mas a história do país desde 1947 tem sido marcada por dinastias políticas e também pela influência dos militares. E agora há a questão da prisão do ex-primeiro-ministro Imran Khan. Quão forte é a democracia paquistanesa?
Para nós, a democracia tem sido uma viagem, parte da viagem nacional. Houve interrupções no nosso regime democrático em três ocasiões. Mas há uma coisa que nunca nos foi tirada: o consenso entre o povo paquistanês de que deseja uma forma de governo democrática e pluralista no seu país. A aspiração do povo paquistanês é a razão pela qual, sempre que houve um regime militar, foi necessário o regresso à ordem democrática, pois, caso contrário, as coisas não continuariam como o regime militar desejava. E precisavam de regressar à ordem democrática. Assim, os partidos políticos, a intelectualidade, a academia e a sociedade civil estão unidos na aspiração de que o Paquistão seja governado por meios pluralistas e democráticos. Sim, o ex-primeiro-ministro ainda está preso. E as acusações feitas contra ele estão a ser julgadas nos tribunais. Portanto, o processo legal está a seguir o seu curso e espera-se que chegue a uma conclusão e que os seus casos sejam decididos de acordo com a lei do país.
Chegou há menos de um ano a Portugal. Como descreve as relações bilaterais?
O Paquistão e Portugal têm desfrutado de relações cordiais baseadas na boa vontade mútua, nos valores mútuos e nos interesses mútuos ao longo dos últimos 75 anos. Uma das coisas que gostaria realmente de ver acontecer durante o meu mandato, e já estou há cerca de oito meses, é acrescentar uma componente económica muito mais forte a estas relações bilaterais. Gostaria de ver um aumento do contacto cultural e interpessoal entre os nossos dois países. Acredito que ainda existe uma lacuna na compreensão e no conhecimento mútuo. Penso que o povo português não sabe muito sobre o Paquistão e vice-versa, e acredito que, através da cooperação cultural, dos intercâmbios culturais, do turismo e do contacto interpessoal, podemos conhecer-nos melhor e compreender quem é o outro. Além disso, houve muito poucas trocas de alto nível e visitas bilaterais de ambos os lados. Assim, espero que a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, a Islamabad neste segundo semestre de 2026 contribua para uma interação mais dinâmica entre os nossos dois países. A última vez que um ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal visitou o Paquistão foi em 2009. Temos também um mecanismo de consulta bilateral ao nível dos ministérios dos Negócios Estrangeiros, que decorreu em julho, e a equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros deslocou-se a Islamabad para avaliar o estado das relações e começar a trabalhar na visita ministerial. Existem várias vias que podem ser exploradas e que têm um enorme potencial para fortalecer as relações bilaterais. O setor agrícola é uma delas. O nosso ministro da Agricultura esteve em Lisboa em junho para a reunião do Conselho Oleícola Mundial. O Paquistão tornou-se membro. Teve conversas muito proveitosas com o ministro da Agricultura português e ambos concordaram que precisam de explorar também este setor. Convidámos formalmente o ministro a visitar o Paquistão, juntamente com empresas portuguesas do sector agrícola, quer no ramo da produção de azeite, quer noutros sectores, como o da pesca. Existe potencial para o desenvolvimento de muitas outras vias de cooperação que ainda não foram plenamente exploradas.
Qual a sua perceção, baseada nestes já alguns meses de funções em Lisboa, sobre a integração da comunidade paquistanesa em Portugal?
A comunidade paquistanesa tem crescido nos últimos anos. Os migrantes de primeira geração são sempre os que abrem caminho, que descobrem um novo país. Valorizam o contacto com a sociedade portuguesa e com as autoridades portuguesas, que, obviamente, são muito prestáveis. Considero que a língua é uma barreira a uma mais plena integração na sociedade portuguesa. Sempre que encontro membros da minha comunidade, esta é uma das primeiras coisas que aconselho: devem procurar cursos de língua portuguesa e tornarem-se fluentes, pois isso abrir-lhes-á portas, facilitará a compreensão cultural, a comunicação e a integração. E para as crianças que agora estudam em escolas portuguesas, os jovens nas universidades, isto irá ajudá-las a fazer amigos, para que todos sintam que Portugal é um lar para eles.
Existe uma curiosa tradição de embaixadoras do Paquistão em Portugal. Como descreve a sua experiência como diplomata e mulher? Reflete a condição das mulheres no seu país?
Gostaria de destacar o facto de eu ser a sétima embaixadora do Paquistão em Portugal. Não sou um fenómeno novo. E isto não é recente. Desde as décadas de 50 e 60 que enviamos embaixadoras a todo o mundo. Esta é uma forma de observar o empoderamento feminino no Paquistão. Pelo menos nas últimas quatro ou cinco décadas, as mulheres estão presentes em todas as esferas de atividade no Paquistão e na nossa diáspora. Seja na medicina, na engenharia, até nas forças armadas. Temos mulheres pilotos de caça na Força Aérea do Paquistão. Não conheço nenhuma profissão em que não se encontre uma mulher paquistanesa. Por isso, penso que muitos dos estereótipos que se ouvem sobre as mulheres serem oprimidas e subjugadas no Paquistão são infundados. E não estou a dizer que não existam casos desses. Existem tradições antigas que ainda reprovam a presença das mulheres na esfera pública. Mas são cada vez mais uma minoria.

