O que aprendemos em 2020?

Hoje chega ao fim este ano tão atípico e exigente que, de formas muito diversas, nos obrigou a refletir sobre variadíssimas coisas. E, após esta reflexão, o que aprendemos nós? Em que medida crescemos como pessoas, família e comunidade?

Olhando para trás, recordo os primeiros meses do ano em que, de forma fácil e imediata, culpabilizámos a China pelo vírus maldito. É interessante constatar que, muitas vezes, a primeira reação do ser humano é responsabilizar terceiros. Chama-se "processo de atribuição externa" e significa que sacudimos a água do capote - o problema foi causado pelos outros e os outros que o resolvam.

Algum tempo depois percebemos que estávamos, afinal, perante uma realidade muito mais global. De olhos postos no mundo lá fora, chorámos ao ver os italianos a cantar à janela e a aplaudir os profissionais de saúde. Logo de seguida fomos nós.

Confinados em casa, em teletrabalho e com os miúdos em telescola, aprendendo a conviver todos os minutos do dia com quem habitualmente víamos apenas aos bocadinhos, desenhámos arco-íris e gritámos que ia ficar tudo bem. Falámos de resiliência, de esperança e de crescer com os desafios, da importância dos abraços e dos afetos. Tentámos encontrar as vantagens no meio de tantas desvantagens, crentes num processo de aprendizagem que, muitas vezes, as situações de crise potenciam. E é verdade, sabemos isso. As crises aumentam o risco de patologia, mas podem, também, se bem geridas, constituir-se como uma oportunidade de mudança e crescimento.

Chegados ao último dia deste ano, e já com a vacina garantida, somos tentados a olhar para 2021 como o ano da esperança e do recomeço, como o ano de todas as expectativas (positivas), em que tentaremos apagar da nossa memória coletiva as provações de 2020.

Neste contexto, há uma pergunta que se impõe. Será que aprendemos alguma coisa em 2020? Alguma coisa realmente importante? Era suposto aprendermos a valorizar a presença ao invés dos presentes. Os afetos, o toque, a entreajuda e a empatia. Era suposto... mas será que aprendemos?

Olho à minha volta e vejo famílias em que a violência se mantém. Homicídios conjugais. Crianças expostas a essa violência. Crianças batidas, humilhadas e violadas. Crianças em leitos nupciais. Crianças que crescem sem o direito a uma família. Pais em guerra, utilizando os filhos como verdadeiras armas de arremesso.

Animais maltratados e abandonados à sua sorte - ou à falta dela. Fogos postos, homens e mulheres executados. Refugiados tratados como criminosos. Pessoas mortas devido à cor, ao sexo, à religião, ou apenas porque sim. Catástrofes naturais como consequência da ganância do ser humano. E tantas, mas tantas outras coisas...

Com a chegada de um novo ano, reconhecemos a importância da ciência e da saúde. Valorizamos o esforço coletivo e falamos, acima de tudo, de esperança. Mas de que adianta a esperança e os desejos formulados quando comemos as 12 passas se transportarmos connosco a mesma forma de pensar e de agir?

2021 poderá ser um ano diferente e melhor, é verdade... se cada um de nós for igualmente diferente e melhor. Para si mesmo e para os outros.

Psicóloga clínica

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