Viva o Jorge Fonseca! Viva a nova Lisboa! Viva nós!

Ontem, em Tóquio, uma senhora de cabelos brancos ergueu-se, livrou-se de uma écharpe que lhe embaraçava as palmas e desatou a ovacionar um campeão do mundo. Havia algo de seu naquela vitória, a senhora Sashiko era filha de Kiyoshi Kobayashi, o mestre. Este fora ensinado para piloto kamikaze durante a II Guerra Mundial, mas a mais radical das formas de combater não estava no seu destino. A mais delicada das artes marciais, sim: conduzir, com técnicas delicadas, o adversário à perda. Que forma nobre de lutar! Kobayashi emigrou para Lisboa em 1958 e inventou o judo português.

A Federação Portuguesa de Judo organiza um torneio internacional - o anual Memorial Kiyoshi Kobayashi - e muitas vezes Sashiko regressa a Portugal para assistir à homenagem ao seu pai, que faleceu em 2013. Quis esta história entre dois países longínquos, que o momento mais alto desta relação, ocorrido ontem, tivesse sido no ponto de origem, Tóquio. Era o que a senhora aplaudia, emocionada. O semear do seu pai deu como fruto, pela primeira vez, um campeão do mundo, Jorge Fonseca. Plantar longe, num hemisfério; para colher no outro, lugar de partida. Parece tirado do Fernão Mendes Pinto.

Um mundo novo, como deve ser, expresso por wazari, golpe quase perfeito. Seguiu-se um ippon, golpe perfeito. Tão perfeito, que aconteceu depois da vitória (já lá vamos). Entretanto, eis uma pequena e enorme lista dos herdeiros de Kiyoshi Kobayashi, que o são, mesmo quando não o conheceram: Nuno Delgado, lisboeta filho de cabo-verdianos, campeão europeu, medalha olímpica; Telma Monteiro, filha da Outra Banda, vice-campeã mundial, campeã europeia e medalha olímpica; Bárbara Timo, nascida carioca, vice-campeã mundial (também esta semana) e o já referido Jorge Fonseca, desde ontem campeão mundial, nascido em S. Tomé.

Então, Jorge Fonseca, aplaudido pela filha do Mestre, proclamado campeão do mundo pela juíza, passou a explicar isto tudo. Segundos depois da vitória, com o tal ippon, com o gesto perfeito. Poderoso, fechou os punhos, abriu os braços ao mundo. Pausa. Então, ele convocou a nova Lisboa. Essa, a cantada por Dino D"Santiago, que é da ilha de Santiago como os seus pais, mas todo ele da Quarteira, por nascimento e tudo o mais. Lisboeta de ginja, pois. Em Tóquio, o judoca dançarino - a música e a letra não se ouvindo (os locutores e as bancadas estavam aos gritos de alegria e espanto) - pôs os seus passos de Nureyev de mais de cem quilos.

Dizia a dança: "Qualé ideia? Qualé a ideia? Mas qualé a ideia?". E respondia a dança: "Vem, sente, sente, sente esta quente Lisboa/ Sente, sente, sente esta nova Lisboa." E mais umas ashi-waza (técnicas de perna), e outras koshi-waza (técnicas de quadril), entrecortadas por te-waza (técnicas de braço) com este pano de fundo: "De onde veio toda essa gente, eu não sei/ Dizem que tamos na moda, ma n ka krê sabê"... O queremos saber é que o negro Jorge, cabeça rapada e suada, sorriso aberto, dizia que quer ser recebido na sua cidade, a nova Lisboa, a dançar.

Quem se opuser é tolo. Toda a técnica do judo é levar-nos, firme e docemente, pelo que de fundo temos nós. Chega-nos o pai da delicada Sashiko e oferece-nos a arte que nos trouxe de tão longe. Chega o pai do Dino D"Santiago e vai pescar atuns algarvios, porque já os conhecia de Chão Bom. E aproveita o judoca campeão, são-tomense da Damaia, e dá-nos uma lição, perdão se estou a ser otimista, sobre o mundo moderno, sobre o mundo como deve ser. O Mundo Nôbu que canta Dino D"Santiago. Ou peço perdão coisa nenhuma: se "tamos na moda" é exatamente porque somos mesmo mais como o mundo deve ser do que pensamos, escrevemos e não sabemos.