Quase 90% dos fundos de investimento de baixo risco perdem dinheiro

Juros negativos em produtos que são alternativa aos depósitos levaram a resgates de centenas de milhões de euros.

Têm pouco risco. Mas nem assim evitam perdas. Quase nove em cada dez fundos de investimento considerados seguros, de gestoras portuguesas, perdem dinheiro neste ano. Em 56 produtos com classe de risco baixa, apenas sete rendem mais de 0% desde o início do ano. A culpa é das taxas de juro negativas em aplicações tidas como mais seguras, como dívida de curto prazo e obrigações de entidades com ratings de qualidade.

Nos fundos de investimento que têm menor risco, o desempenho desde o início do ano e 24 de agosto varia entre perdas de 2,26% e ganhos de 0,72%, segundo cálculos do DN/Dinheiro Vivo baseados nos dados mais recentes da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP). Dos 56 produtos nas duas classes de risco mais baixas (numa escala de um a sete) apenas sete rendem mais de 0%. Desses só dois valorizam neste ano mais de 0,50%. E nenhum dá ganhos acima da inflação: a taxa não harmonizada foi de 1,6% em julho.

Dos produtos que estão nos dois níveis de risco mais baixos, o Caixagest Obrigações Mais tem a pior prestação deste ano. Perde 2,18%. Este fundo aposta em dívida de empresas. Mas este produto, com um nível de risco 2, reserva também uma parte significativa do dinheiro para alocar em depósitos bancários. O problema é que essas aplicações feitas tanto na Caixa Geral de Depósitos como no BBVA rendem 0%.

E, mesmo nos fundos ainda mais defensivos, o cenário repete-se. O Crédito Agrícola Curto Prazo, por exemplo, está classificado no nível mais baixo de risco. Mas perde 0,64% desde o início do ano. Investe maioritariamente em depósitos, em dívida de grandes bancos internacionais e em papel comercial. Ativos que pouco ou nada rendem.

A perder 0,46% neste ano

Em média os fundos de curto prazo, que servem como alternativa aos depósitos bancários, perdem 0,46% neste ano. Entre os produtos nos dois níveis de menor risco estão ainda fundos de mercado monetário e de obrigações. Uma das explicações para estes desempenhos são as políticas do Banco Central Europeu (BCE). A autoridade monetária tem a taxa de referência em 0% e aplica um juro negativo de 0,40% para guardar dinheiro dos bancos.

Essas medidas não convencionais são uma das explicações para que taxas como a Euribor também estejam abaixo de 0%. E também levaram a que dívida de maior qualidade ou de curto prazo começasse a ter juros negativos.

O Tesouro português, por exemplo, consegue financiar-se com taxas negativas em Bilhetes do Tesouro (geralmente emissões a seis e a 12 meses), o que significa que os investidores perdem dinheiro. Aquelas decisões de choque do BCE foram tomadas durante a crise do euro para segurar a economia do bloco económico. E as taxas do banco central devem começar a subir no próximo ano.

A resposta dos investidores a estes desempenhos negativos dos fundos mais conservadores tem sido os resgates. Tiraram mais de 570 milhões de euros destes produtos entre o início do ano e final de julho, segundo os dados mais recentes da APFIPP.

Mas não são apenas os fundos mais seguros a perder dinheiro. Nos mais de 200 produtos comercializados por gestoras portuguesas (independentemente do risco), apenas 24% dão ganhos neste ano. O melhor desempenho é de fundos que apostam nas bolsas dos EUA. Ganham, em média, mais de 8%. Mas têm um nível de risco de entre 5 e 6, o que indicia que podem não ser adequados a investidores mais conservadores.

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João Gobern

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