Um gesto

Ontem estava num café e na mesa atrás de mim ela insistiu que a torrada tinha de ser com muita manteiga. Foi doce e alegre no tom, segura e intencional no timbre. Não controlamos por quem nos apaixonamos, mas podemos controlar o que fazer com isso, pelo menos é o que dizem as revistas e eu não disse nada, apenas fiz um gesto.

O empregado, que já é da geração fit-tatoo, que por certo prefere suplementos a alimentos, todos em grandes caixas (Freud, alguma coisa a dizer?), e come muito frango por causa da proteína, espantou-se, com muita manteiga??, e ela teve de repetir. Sim, mesmo com muita manteiga. Foi simpática ainda assim, mas mais determinada do que da primeira vez. Senti na voz, naquele momento, que o olhava nos olhos, e que ele, percebendo que não ia levar troco e ter de trazer manteiga a escorrer, os deve ter desviado dos dela, para a bandeja ou para o balcão. Repetiu o pedido em voz alta lá para dentro, uma torrada com muita manteiga, exagerou um pouco no muita, mas não tanto como exageraria se não tivesse sido, como imagino, fulminado pelo olhar dela, numa fulminação doce mas que não deixou de o enfiar naquela caixa do tu não tens nada que ver com quantidade de manteiga que eu quero ou deixo de querer na minha torrada. Entre uma coisa e outra deixou cair o tom condescendente, mais como reflexo do que por estratégia, mas em vão porque talvez não saiba, mas era bom que soubesse, que elas perdoam quase tudo menos a condescendência. Mas isto também não posso cobrar ao jovem fit, porque é ignorância da maior parte dos homens, não tem que ver com o pacote sêxtuplo.

E eu, que sei destas coisas, e que estava ali no café a fazer horas, ou melhor, a responder a e-mails, alinhar ideias, em trânsito, mas no fundo a refugiar-me no ar condicionado do café a troco de dois euros de consumo (uma gelatina), a tentar negar este calor de setembro, este outono que pensa que é verão, que está com medo de desiludir com as primeiras chuvas, não tenhas medo, outono, vem com confiança, quem não gosta de chuvas não é boa gente, outubro não é mais mês de sandálias nem roupas curtas, apesar de fazerem as vistas largas, e é preciso mudar a roupa de inverno com a de verão, mudar o lado do colchão, e já ouvi falar disso, que eu ouço muitas conversas nos elevadores, de famílias inteiras (há lá expressão mais bonita do que famílias inteiras), famílias inteiras, dizia, que já mudaram para a roupa de inverno, porque têm um modelo formal de organização doméstica, por dia de calendário e não por grau de termómetro, e agora tiveram de ir buscar de novo a roupa de verão, e estão com as duas a uso, e gera-se uma grande confusão naqueles armários outrora ordenados a régua e esquadro. E eu percebo a confusão, e solidarizo-me rapidamente, antes de elas e eles saírem no quarto, andar bem entendido, e continuarem a conversa entre as infinitas siglas que de que é feito o seu mundo do corporate reporting.

"António Costa, depois de ter demolido no Parlamento as pretensões do setor do táxi que queria contingentes que qualificou como coisa do condicionamento industrial do antigamente, pode vir a dizer "sou o chefe que a direita liberal sempre quis ter".

Quando ele voltou à mesa, já com a torrada entre as pernas, mas com alguma agressividade passiva, muito leve, notei no tom (eu estava de costas e até aqui ainda não me tinha virado, e estava atento a pensar, olha vou escrever sobre isto para domingo no DN, não me apetece escrever sobre a ONU ou sobre os táxis, mas até tinha uma frase boa, que era dizer que se Sócrates disse um dia "sou o chefe democrático que a direita sempre quis ter", António Costa, depois de ter demolido no Parlamento as pretensões do setor do táxi que queria contingentes que qualificou como coisa do condicionamento industrial do antigamente, pode vir a dizer "sou o chefe que a direita liberal sempre quis ter", mas isto não seria absolutamente verdade, mas o problema é que também não seria absolutamente mentira), estava a dizer, notei no tom alguma irritação de macho vergado. Assim está bem? E ela disse, está perfeito. E deve ter-se sorrido, na cara dele, agora ela com condescendência, com aquele olhar de ainda não percebes nada disto.

Eu não sei se sim se não nisto dos olhares, porque não olhei, mas tenho quase a certeza que sim. Ergui a minha mão direita, com o polegar bem para cima, solidarizando-me com ela, com o muita manteiga, e com a sua atitude de revolta firme e serena contra a condescendência. E virei-me para trás, apenas um segundo, e ela riu-se, sem condescendência, mas com o ar de quem é este tonto, e voltei à vida, quer dizer, saí da vida e voltei ao trabalho, o resto do dia com o coração quente de haver mulheres que ousam pedir torradas com muita manteiga.

Advogado

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