Alguns Temas Efectivamente Na Área do Gás

"Passo de imediato a palavra ao excelentíssimo deputado, para que comece pelas palavras que achar melhor, queira ter a gentileza". Setembro, mês de recomeços. A nova temporada da democracia estreou-se na ARTV, com uma intrigante série intitulada Comissão Parlamentar de Inquérito ao Pagamento de Rendas Excessivas aos Produtores de Electricidade. O episódio de terça-feira contou com a participação especial do convidado Franquelim Alves, ex-secretário de Estado que em 2004 teve "a tutela da Energia... e alguns temas na área do gás". "Era essa", garantiu, "a esfera em que me enquadrava".

Todas as séries de nicho - destinadas a um mercado pequeno, mas conhecedor e exigente - enfrentam algo a que podemos chamar o "Problema da Autenticidade de Diálogo": porque retratam actividades com um nível de especialização tão distante da compreensão leiga, geram um vocabulário próprio abstruso e impenetrável, pelo que a informação que conseguem transmitir a um público generalista é necessariamente limitada. A solução para este problema é transmitir não informação, mas uma postura, privilegiando a melodia em detrimento da letra: rejeitar qualquer tentativa de elucidar pormenores técnicos específicos e apostar numa fluência suficientemente persuasiva para projectar autoridade confortável. Foi a solução encontrada por gerações de porta-vozes da Brigada Trânsito que explicaram a repórteres que "a ocorrência foi efectivamente registada", e também por gerações de personagens de ficção científica que pediram a outras personagens de ficção científica para "estabilizarem efectivamente o compressor quântico!" ou "inverterem efectivamente a polaridade do fluxo de neutrinos!".

A audição de Franquelim Alves foi efectivamente exemplar deste efectivo ponto de vista. Manuseando habilmente uma enxurrada de acrónimos, como códigos de aeroportos exóticos ("... em articulação com a REN e a ERSE... a BCG... nas considerações a ser tidas em conta na transição dos CAE para os CMEC...", etc), foi acima de tudo efectivo na utilização de "efectivamente". "Eu tinha essa informação que resultava da situação efectiva dos interveniente", explicou. "Uma confluência de factores que geravam efectivamente uma pressão significativa", sustentou. "Definido um conjunto de orientações... para desenvolver toda essa temática em conjunto com outros intervenientes", esclareceu. "Foram, do ponto de vista técnico, efectivamente importantes na elaboração da tecnicidade dos relatórios", asseverou. "Havia discussões ao nível da discussão dos princípios nas quais participaram intervenientes", elucidou. "Um número significativo de gente envolvida na temática", desobscureceu. "Todos estes factores e outros também aduzidos, efectivamente", concluiu. As tonalidades melódicas da tecnocracia foram tão efectivamente projectadas que quase era possível esquecer que o que estava a ser efectivamente admitido era uma série de decisões políticas que falharam todos os objectivos económicos propostos.

Mas a série destina-se claramente a um mercado de nicho. O mesmo formato, na versão blockbuster e suplementado com grandes valores de produção, podia ser visto na CNN, que passou grande parte de quinta-feira a transmitir outra audição perante um corpo legislativo: os depoimentos no Senado Americano de Brett Kavanaugh, juiz nomeado para o Supremo Tribunal, e de Christine Ford, a professora que o acusou de abuso sexual.

Foram horas e horas de televisão "fascinante" (adjectivo repetido pelo pivot da CNN e pelo Presidente dos Estados Unidos), ao longo das quais a palavra "efectivamente" não foi usada uma única vez, ao contrário da frase "Eu gosto de cerveja", que foi repetida em pelo menos nove ocasiões. Alguns temas na área do gás foram abordados ("era uma piada sobre flatulência", explicou o juiz), bem como alguns temas na área do vómito ("por vezes o meu estômago não reage bem ao esparguete com ketchup", explicou o juiz). Os rituais esotéricos da crueldade adolescente foram decifrados. Lágrimas foram vertidas. O que nunca esteve em causa foi a natureza performativa do evento, sustentada pela retórica exorbitante tanto da cadeia televisiva - um separador berrante após cada pausa comercial garantia estarmos perante "UMA AUDIÇÃO HISTÓRICA" - como pelo constante recurso à hipérbole dos participantes. Um senador republicano garantiu nunca ter visto nada "tão deplorável em todos os meus anos na política"; outro comparou a ocasião aos piores tempos do mccarthyismo. E Kavanaugh descreveu o processo de confirmação como "uma vergonha nacional", protestando indignadamente contra o esforço concertado para lhe "destruírem a vida" e "arrastarem pela lama o bom nome" que consolidou desde que estudou em Yale. E agora arriscava-se ao castigo mais formidável de todos: não ser promovido ao cargo mais importante da sua profissão. Foi mais ou menos nesta altura que recordei um grande plano do Super-Homem, também ele numa audição no Congresso, a olhar fixamente um frasco cheio de mijo.

A última década e meia trouxe uma nova vaga de filmes sobre super-heróis deliberadamente reorientados para o mercado adulto: para que espectadores adultos os pudessem consumir em massa, e para que um subsegmento de adultos (os que escrevem colunas de opinião ou ensaios académicos) pudesse usá-los como ponto de partida para comentário cultural, com temas tão apelativos como Justiça, Poder, Tolerância, Genocídio, Política Migratória e Alterações Climáticas. No meio destas especializações, um efeito curioso é a frequência com que os super-heróis são levados a depor perante comissões parlamentares de inquérito - a sinédoque que resta (ou talvez a única que ainda possui peso dramático) para submeter o exercício ilimitado de poder ao escrutínio democrático. Não deixa de ser uma opção minimamente realista para dramatizar uma questão que este tipo de filmes raramente abordava: a necessidade de integrar uma classe anómala - composta por uma aristocracia biológica que não está sujeita às mesmas regras e consequências - num contexto pré-existente de instituições políticas e soberania popular.

Em Superman vs. Batman (2016), um filme péssimo a vários níveis, a comissão do Congresso é alvo de um atentado à bomba durante o inquérito ao Super-Homem. Um frasco contendo a urina de Lex Luthor (o bombista) alerta uma senadora para o que vai acontecer, mas demasiado tarde. Toda a gente morre. O Super-Homem é o único sobrevivente. Fica triste. Recolhe-se longe dali, provavelmente destroçado por sentir que a sua vida foi destruída e o seu bom nome arrastado pela lama. Nos termos do universo cinematográfico que habita, ele é literalmente o único imune às consequências apocalípticas, mas também aquele que, por ser colocado no centro da história, é tacitamente autorizado a comportar-se como o que tem mais a perder. Para não falar na trabalheira enorme que deve ser lavar todo aquele sangue alheio do seu impecável uniforme.

Assumindo-se como um processo para contrastar duas versões diferentes dos mesmos eventos e determinar qual delas era mais credível, a audição de Kavanaugh e Ford rapidamente reverteu para o género de drama político mais popular da actualidade: determinar quem tem mais direito a sentir-se vítima.

Cronista. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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