A fome e a cultura do desperdício

Não é todos os dias que se consegue presenciar o riso do mundo. Donald Trump presenteou-nos com esse privilégio no seu recente discurso nas Nações Unidas, ao defender o patriotismo doutrinário. Para mal de Trump, a assembleia da ONU respondeu-lhe com uma gargalhada que nos encheu de esperança.

Segundo o relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018", da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), secundado nesta semana pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), o número de pessoas que passam fome no mundo aumentou pelo terceiro ano consecutivo.

A fome, enquanto fenómeno mundial, alimenta-se precisamente da inação global e da aposta no egoísmo patriotista. Neste mundo que simultaneamente é autor da fast-food e da permanente dieta, dos reality shows da culinária e dos programas do "saber-viver" saudável, estou certa de que nos parece a todos um absurdo que a fome no mundo conviva global e pacificamente com o banquete do desperdício.

A resposta global ao fenómeno da fome tem assentado na distribuição emergencial de recursos financeiros, alimentícios e materiais a populações que deles careçam, por serem vítimas de circunstâncias ambientais adversas ou de conflitos armados. É o tipo de resposta fortemente alicerçada na ação das ONG, que tem vindo a fazer o seu caminho desde os longínquos Live Aid e We Are the World, de 1985. Não obstante a sua utilidade extrema, ninguém refutará que esta resposta traduz o ato caritativo que mitiga a realidade, mas que nunca verdadeiramente a transforma. Precisamos urgentemente de estratégias-resposta não apenas de cariz epidemiológico, mas também globalmente concertadas e orientadas para, a par de lutar pela paz, erradicar a fome associada à pobreza. Uma dessas estratégias é a consciencialização de que o desenvolvimento económico pode ser alcançado também de uma forma inclusiva e tendo em vista a diminuição da desigualdade social.

Ao invés de apelar ao protecionismo económico, não será mais útil apelar à promoção do investimento empresarial (nos países menos desenvolvidos e não só) com impacto social e ambientalmente responsável? Qual é o medo?

Acredito que a resposta à tragédia da fome no mundo, que nos envergonha, passa também pela consciência multilateral de que o investimento na inclusão é viável e de que a distribuição da riqueza também se efetua pela distribuição (geográfica e democrática) da possibilidade desse mesmo investimento. A coragem de promover esta consciência possibilitará aos organismos de cúpula internacional a difusão de políticas públicas internacionais promotoras da paz pela igualdade. Temos como exemplo dessa consciencialização o nosso próprio país. A história recente de Portugal demonstra-nos que é possível crescer economicamente apostando em medidas de inclusão. Mesmo com a reposição do que se perdeu durante a austeridade foi possível a Portugal crescer economicamente. Neste ano, as famílias portuguesas pagarão menos mil milhões de euros em IRS do que no ano anterior.

Declaremos, então, guerra à fome. Pois só essa luta nos trará a paz.

Deputada do PS

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