Costa não deixa passar nada em branco

Mudanças em São Bento. Depois de os secretários de Estado do Ministério da Economia terem desautorizado Costa Silva, ou saía o ministro ou saíam os secretários de Estado. O que não poderia ser considerado normal era ficar tudo na mesma, como se nada se tivesse passado. Neste braço de ferro, ganhou Costa Silva. Já a demora de António Costa na decisão surpreende... ou talvez não. Afinal, já é sobejamente conhecido que o primeiro-ministro não gosta de ser pressionado para demitir os seus e só o faz quando e como entende. Uma coisa é certa: não deixa passar episódios em branco.

Afinal, o que muda? Soube-se ontem que João Neves e Rita Marques são substituídos na Economia (ambos declararam publicamente estar contra uma redução transversal do IRC, defendida por Costa Silva). Recorde-se que Neves e Marques integraram a equipa do ex-ministro, Pedro Siza Vieira, e há muito que estavam em colisão com o atual governante. Para o Ministério da Rua da Horta Seca, entram agora Pedro Cilínio e Nuno Fazenda de Almeida.

Também o atual secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes, muda de posto. Sai do Terreiro do Paço e passa para São Bento como novo secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro. Substitui Miguel Alves, que se demitiu neste mês, ao saber-se que é arguido por suspeita de crimes financeiros enquanto presidente da Câmara de Caminha. Para tomar conta dos Assuntos Fiscais foi escolhido Nuno Félix, uma solução de continuidade, já que trabalhou com Fernando Rocha Andrade, antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (já falecido) e foi chefe de gabinete de... Mendonça Mendes.

O facto de Costa puxar a si António Mendonça Mendes revela que pretende ter por perto um homem que não só domina o aparelho do PS, como a máquina das Finanças, quem sabe para começar já a preparar um Orçamento Retificativo ou novas medidas de ajuda para 2023, que tenham cabimento orçamental.

Apesar da maioria absoluta, os casos recentes - aos quais se soma esta remodelação - evidenciam a fragilidade do governo. Costa não tem conseguido colocar o executivo a falar a uma só voz e isso revela descoordenação política, situação que a oposição vai aproveitando a seu favor. Além disso, todos os recentes episódios vão minando a confiança dos eleitores, que esperavam menos polémicas e mais ações concretas em prol da agenda reformista do país.

Em suma, António Costa e a sua equipa devem concentrar-se mais na função executiva e em pôr em marcha, de uma vez por todas, o PRR, bem como em preparar o país para o desafiante ano de 2023. Tudo o resto é pura fantasia.

Diretora do Diário de Notícias

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