Não resisto em sorrir contra o racismo

Houve eleições nesta semana na Namíbia. Mas que interesse têm para nós as eleições da Namíbia? Sim, eu sei, todos os países são dignos da nossa atenção, o mundo é uma aldeia e até há lá uma Academia do Bacalhau, em Whindhoek. Mas eu tenho uma razão particular para vos falar da Namíbia.

Nestas eleições eu vi uma foto. Permitam-me, primeiro, falar da moldura. Em 1990, nas primeiras eleições em que o país todo votou, não só os brancos, eu estive lá. Em 1884, naquela parte de África, logo abaixo de Angola, a Conferência de Berlim retalhara fronteiras ao acaso do esquadro para servir um então novo colonialismo, o alemão.

Naquele tempo metiam-se lanças em África com apetites tão arrogantes como fazer um corredor longo (de meio milhar de quilómetros) e apertadinho (de 30 quilómetros) entre colonialismos mais antigos, como o português (Angola) e inglês (na Bechuanalândia, hoje Botswana), só para chegar ao rio Zambeze. O resto do território desenhou-se também assim e, de forma mais malévola, foi feito o mesmo aos povos que por lá andavam.

Depois de ter sido colónia alemã, com a derrota de Berlim na I Guerra Mundial, a Sociedade das Nações entregou o governo do Sudoeste Africano à África do Sul - a história às vezes parece mera rosa-dos-ventos. Nas primeiras eleições, há 30 anos, a Namíbia nascia. Acima dela, Angola vivera uma longa guerra pela independência e vivia ainda uma mais longa guerra civil. Já a Namíbia viu o seu movimento de libertação, a Swapo, chegar ao poder sem grande atividade guerrilheira e a Namíbia não conheceu guerra civil.

As tragédias eram só acidentes de estrada. À noite, os kudus encadeados pelos faróis saltavam no momento do embate e entravam pelos para-brisas. Nem isso vi, mas em Oshikango, vi uma burra, tão pestanuda e triste, a lamber o filho atropelado na berma - outro acidente comum, que dizimava as manadas de burros selvagens na fronteira norte do país. Contei isso, porque os repórteres, que vão para longe, servem para contar o que leva os leitores para perto. E escrevi, então, também sobre as mulheres hereros.

Nesta semana, foi uma mulher herero, aqui no DN, que vi em foto e me levou a esta crónica. Era Esther Muinjangue, a primeira candidata à presidência da Namíbia. Não deve ter ganho mas quero falar do magnífico vestido que a senhora Muinjangue envergava. A hereros usam-nos assim há mais de cem anos. Belas vestes vitorianas, estampadas de cores garridas, que juntam padrões variados e engrossam exageradamente ombros e ancas. O todo é encimado por um soberbo chapéu, também berrando cores, numa armação que invoca cornos. As hereros espalham-se agora por toda a Namíbia mas são originárias do deserto do Calaári, na fronteira com Angola.

O escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho, nascido em Santarém, mas angolano (oh quanto!), era um apaixonado dos mucubais, nómadas que pastoreiam bois no deserto do Namibe, do outro lado da fronteira, já em Angola. Ele tem um livro belo e difícil, de antropólogo e de poeta, Vou Lá Visitar Pastores, em que conta a importância do gado para esses povos. As mucubais, que são hereros também, usam tanga e levam os seios nus.

Abaixo da fronteira, na Namíbia, logo a 50 quilómetros das angolanas mucubais, suas irmãs, as mulheres hereros, como a candidata presidencial Esther ou uma vulgar dona de casa, usam o tradicional fato pomposo e vitoriano. O chapéu armado evoca o gado que já não têm. Entre 1904 e 1908, os alemães moveram guerra aos hereros, um dos genocídios reconhecidos do século XX - abateram 80% daquele povo. O gado nunca o recuperaram, só o chapéu das hereros o lembra.

Mas o genocídio as mulheres nunca o esquecem nem escondem. Ostentam. Copiaram os vestidos das mulheres do colonialismo que quase aniquilou o seu povo e, deles, europeus, vitorianos, secos e feios, fizeram uma glória de cor, de soberba e de alegria. Não conheço mais belo e eficaz exemplo para arrumar o mau passado: dar a volta por cima, andar em frente.

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