Que pontapé, Joacine

Parecia ter tudo para causar ondas, das boas, das que fazem pensar: a primeira negra cabeça de lista eleita ostentando o seu ativismo antirracista e uma deficiência de fala. Era uma bandeira, claro. Mas ainda nem passaram dois meses e cabe perguntar de quê.

De Joacine Katar-Moreira soube pela primeira vez em janeiro, quando a vi, em vídeo, discursar a propósito do episódio de violência policial no bairro da Jamaica. Gostei do discurso e fiz uma nota mental: gostaria de a entrevistar. Essa entrevista acabou por acontecer no DN, meses depois, pela Maria João Caetano. Foi nela que descobri, com surpresa, que Joacine é gaga: no discurso do vídeo não havia sombra de hesitação. Era uma entrevista "de vida", e achei interessante a história de vida de Joacine, então já anunciada como a cabeça de lista do Livre por Lisboa.

Pareceu-me uma ótima ideia: há muito que me era escandalosa a quase total ausência de afrodescendentes no parlamento. Quando ao anúncio da sua candidatura se seguiu o de que também Beatriz Gomes Dias, pelo BE, e Romualda Fernandes, pelo PS, estavam em lugares elegíveis, achei que finalmente se tinha virado uma página. Continuo a achar.

Reparei que Joacine, no Twitter, fez um remoque sobre isso. Algo do tipo "foi preciso eu aparecer para os outros partidos se lembrarem de pôr negras em lugar elegível". Estranhei o tom - não deveria ser antes de contentamento? - mas descontei: de facto é muito tarde na democracia portuguesa para os partidos, que tiveram a consciência, há 13 anos, da discriminação em relação às mulheres na representação política, instituindo quotas para a combater, se darem conta do padrão cromático esmagador do parlamento. Joacine tinha motivos para estar zangada, e eu não tinha motivos para achar que aquele tom prenunciava alguma coisa.

Na noite das eleições, festejei a eleição de Joacine com comoção, como tinha festejado comovida a posse de Francisca Van Dunem, a primeira ministra afrodescendente: foram para mim dois momentos importantes na democracia portuguesa.

Não me chocou, depois, a pessoalização da campanha do Livre em torno dela: era uma imagem forte, que me parecia congregar uma série de ideias boas - e a confiança que tenho em algumas pessoas do Livre, a começar pelo meu amigo Rui Tavares, fazia-me crer na justeza da escolha. Gostei do vídeo e da canção dos Fado Bicha, achei graça à letra e ao "pontapé no estaminé". E fui-me convencendo de que, na conjuntura de uma maioria de esquerda confortável, havia condições para que se libertassem votos para o Livre. Assim sucedeu: o partido teve mais 45% de votos que em 2015, 78% no Porto e 55% em Lisboa. Na noite das eleições, festejei a eleição de Joacine com comoção, como tinha festejado comovida a posse de Francisca Van Dunem, a primeira ministra afrodescendente: foram para mim dois momentos importantes na democracia portuguesa.

Faltaria à verdade se não dissesse que ainda assim fui anotando atitudes em Joacine que não percebi ou que me caíram mal. Nada porém que se assemelhasse à sucessão de revelações da última semana, quando a propósito da sua abstenção no voto sobre os colonatos na Palestina se percebeu que ela e a direção do partido não se falam. Só isso aliás justifica o comunicado que o Livre fez, exprimindo perplexidade com essa abstenção: é preciso que as relações estivessem em ponto de rebuçado para isso suceder, já que o partido nada tem a ganhar e tudo a perder em assumir a situação publicamente.

Mas seja qual for a opinião que se tenha sobre o comunicado do Livre, sua oportunidade e consequências lógicas, o de Joacine é um ponto de viragem para quem como eu a seguia com simpatia. Mostra-nos alguém que diz assumir "total responsabilidade" pela sua abstenção para no mesmo parágrafo responsabilizar por ela a "falta de comunicação com a atual direção" (sublinhado em atual); que poeticamente afirma ter votado "contra a direção de si mesma", numa declaração de violentação íntima, para a seguir apelidar o voto de retórico, sem consequências na vida dos palestinianos (ou seja, tanto fazia?). E que termina dizendo que a sua eleição sobreleva em muito o partido, antecâmara para as declarações do dia seguinte, quando clama ter sido "eleita sozinha" e acusa a direção de na noite das eleições se ter atrevido a festejar a subvenção (só quem não se lembre do drama das dívidas do Livre após as legislativas de 2015 se espantará com isso) antes de saber se ela, Joacine, tinha conseguido entrar no parlamento.

Já chegaria como retrato, mas a deputada achou que não; acusou a seguir a direção de "golpe" e de a querer "descartar", sem no entanto explicar por que motivo e como: sabe bem que não pode ser removida do parlamento a não ser que queira sair. A acusação, porém, casa com a narrativa que se começou a criar entre os seus apoiantes: de que é vítima de uma perseguição, quer mediática quer no próprio partido, por motivos raciais - racistas, portanto.

Essa narrativa foi finalmente assumida pela própria no perfil publicado esta sexta-feira pelo Expresso, ao citar a preocupação da avó guineense com a sua eleição: "Tu aí sozinha no meio desses brancos todos. Eles não se traem uns aos outros". Não há dúvidas sobre o que isto quer dizer, já que traições de "brancos" uns aos outros é, como se sabe, o pão de cada dia: perante a negra que ela é, os brancos unem-se. É então essa a razão do "golpe". Ser negra.

É verdade que Portugal é um país racista, muito racista. Esse racismo é estrutural - fomos criados e educados nele, todos nós, e é bom que nos consciencializemos disso porque é a única forma de o combatermos -- mas também é individual. E Joacine, pela sua elevada exposição, tem sido vítima de virulentos ataques racistas - da reação à bandeira guineense na celebração da sua eleição aos insultos horríveis que se encontram nas redes sociais contra ela, passando pelo delírio odiento de quem a acusa de fingir ser gaga para ganhar simpatia. Isso é uma realidade indesmentível e deve envergonhar-nos a todos. Não pode é ser invocada como um impedimento absoluto à crítica das suas ações, sob pena de se estar a apelar a um paternalismo e condescendência que são apenas mais uma das faces do racismo.

Acusou a direção do partido de "golpe" sem explicar o porquê. Até citar a preocupação da avó guineense com a sua eleição: "Tu aí sozinha no meio desses brancos todos. Eles não se traem uns aos outros". É então essa a razão que aponta para o "golpe". Ser negra.

Mas, claro, podemos interpretar tudo como perseguição e discriminação. Dizer por exemplo que "toda a gente fala de Joacine como se não houvesse mais assunto" e que tal sucede por racismo. É verdade que se fala muito dela, e que há nisso a muito diagnosticada perversidade dos ciclos noticiosos, do "jornalismo de matilha" e a mentalidade de linchamento. E também, decerto, racismo e machismo. Há sempre disso se a pessoa de quem se fala é mulher e negra.

É verdade também que quer Joacine quer o seu gabinete ainda não pararam de falar e dar entrevistas, de alimentar o buzz. E que a estratégia da deputada desde as eleições passou por frequentar programas de TV populares - aliás, até o assessor foi a um, à conta da sua escolha vestimentar - numa óbvia opção por um determinado tipo de mediatismo, aquele que, como se de uma estrela pop se tratasse, promove a sua personalidade e história de vida e a adesão emocional.

No meio de toda essa promoção popularucha - de que o perfil no Expresso é mais uma manifestação, não lhe faltando sequer uma foto em bikini, obviamente fornecida pela própria --, onde fica a política?

Fica no mínimo muito prejudicada. Porque desse lado tudo é pouco e tende a ser mau. É cedo para ajuizar? Deveria ser, mas já muito se passou em tão pouco tempo. Ao episódio da abstenção e ao conflito com o partido mais ao desacerto na entrega do diploma da nacionalidade, que de resto parece inacabado (desde a escrita descuidada à ausência de justificação para determinadas medidas já até reputadas de inconstitucionais), junta-se o burlesco do pedido de segurança no parlamento para afastar jornalistas, que tem, claro, uma leitura política.

Para quem anunciava querer dar um "pontapé no estaminé", no que isso anuncia de informalidade e de recusa de institucionalismo, o recurso a um polícia para "impor respeito" é de um simbolismo fatal na sua afetação autocrática. Que pontapé, de facto.

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