Premium Os limites da inflexibilidade

Em democracia não existem bloqueios eternos, mas os efeitos da inoperância podem não ser meigos. A gestão dramática do Brexit atinge todos os que contribuíram para o beco em que nos encontramos. A catarse não pode ser só britânica, tem de ser partilhada pelos restantes europeus. É isso que se exige.

Mais uma votação, mais uma derrota. A bizarria de tudo isto é que são as derrotas sucessivas a manter a primeira-ministra no cargo, uma vez que só se o acordo de retirada fosse aprovado é que ela se demitia. O exotismo do Brexit, para além do grupo de pândegos que lhe deu origem, reside também na incontrolável degradação da expressão que catapultou a campanha no referendo: "recuperar o controlo". Na altura, estarão lembrados, o séquito de alucinados chefiado por Boris Johnson e Nigel Farage - homem que detesta tanto a União Europeia que há 20 anos consecutivos não larga o lugar em Bruxelas - acenou com a opressão sofrida por Westminster há décadas às mãos desse monstro burocrático e legislativo protagonizado por aqueles a quem Viktor Orbán chama homo brusselicus.

Segundo a tese, o Reino Unido (tal como a Hungria), país vítima desse espezinhar comunitário insuportável, tinha de dar um murro na mesa para reconquistar poderes sacados na calada da noite à Câmara dos Comuns, esse local idílico da democracia liberal, sugado ao longo dos anos de competências várias. Para eles, o Reino Unido, mas em especial a sua Inglaterra branca, pura e excecional, era um autêntico Estado vassalo e havia que pôr definitivamente um travão nessa dinâmica. Não era preciso um grande brilhantismo político para rebater tudo isto em campanha, mas tanto os conservadores de Cameron como os trabalhistas de Corbyn acabaram por ajudar à festa, por omissão e, implicitamente, por cumplicidade.

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