O outro populismo

Há um populismo que promete acabar com os males do mundo, acabando com a imigração, com as importações a baixo preço e, de um modo geral, com o capitalismo como o conhecemos (global e aberto). Pela Europa fora, tem tido resultados impressionantes (ou assustadores, conforme a perspetiva) de França à Polónia, do Reino Unido à Itália, e por aí fora. Dele muito se fala e muito se teme a caminho das próximas eleições europeias, em maio. Mas há outro.

Há um populismo que promete acabar com os males do mundo acabando com o capitalismo, com a procura do lucro (chamam-lhe especulação), com o mercado global. Dele pouco se fala, mas pode fazer a mesma mossa na economia, nas relações entre e dentro dos países e nas eleições europeias. Só que, como não parece ameaçar ninguém, não assusta. Acontece que ameaça e devia assustar.

O populismo anti-imigrantes e a globalização não explicam como é que as sociedades ocidentais vão prosperar sem poderem exportar o que produzem, no dia em que importar for quase impossível. Nem como é que se faz para impedir toda e qualquer emigração, sem violar as regras de mínima decência humana. De resto, como se viu em Itália, a mínima decência humana não é, necessariamente, um critério. Ou como é que sociedades menos plurais e mais fechadas são mais livres e prósperas.

O outro populismo parece menos melífluo, porque jura amar os pobres e apenas desprezar os ricos. O problema é que não explica como é que se pagam os direitos que se promete a todos em economias que não se deixam crescer, onde o lucro é considerado pecado e a criação de riqueza, uma obscenidade. Parecendo, aos ingénuos, bem-intencionado o discurso antimercado, não explicando como financia o Estado, esconde o que não pode mostrar: não há sociedades ricas sem gente que crie riqueza. O problema é que no meio fica o centro da política (do centro-esquerda ao centro-direita) que tem feito um enorme silêncio sobre o que quer, o que acha que consegue e, mais seriamente, o que sabe que não é capaz de oferecer. E é aqui que vão estar os próximos desafios quando houver eleições, europeias ou na Europa.

Se o populismo à direita tem vindo a crescer e a ganhar votos, o de esquerda também se tem tornado mais influente. Em Espanha, França, Grécia, Itália e Portugal, para citar os casos mais óbvios. Em todos os casos fala aos mesmos eleitores: aos que temem o mercado e as sociedades livres, abertas e concorrenciais (pormenor essencial).

O caso de Ricardo Robles tem tudo que ver com isto. Mais grave do que a incoerência manifesta, é a mensagem política que no fundo se mantém: os negócios são sujos, o lucro é mau, enriquecer é pecado.

Contra os imigrantes ou contra os ricos, contra as importações ou a globalização, a promessa é sempre a mesma: a prosperidade contra quem nos rouba. Não há sociedades liberais onde quem fala seja é maioritário.

Consultor em assuntos europeus

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João Gobern

País com poetas

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