Sopa de letras

PATRI, NOVO, PPL, DC e PSTU concorrem à presidência e à vice-presidência sem coligação. REDE e PV estão juntos. Do casamento entre PSL e PRTB decidiu-se que o primeiro fornece o presidenciável e o segundo o candidato a vice. O PDT e o PSOL avançam com pretendentes aos palácios do Planalto e do Jaburu da mesma sigla, embora o primeiro esteja coligado com o AVANTE e o segundo com o PCB. Os concorrentes pelo MDB são apoiados pelo PHS. Com o candidato do PT, alinharam-se o PCdoB, que fornece vice, e o PROS. Da coligação a quatro entre PODE, PSC, PRP e PTC resultaram postulantes a presidente e a vice dos dois primeiros. O candidato do PSDB, depois de se unir a PTB, PSD, PRB, PR, DEM, SD e PPS, escolheu para número dois um membro do PP.

Se não decorou aquela sopa de letras, ótimo. Mesmo no Brasil ninguém as conhece ou quer saber delas - a não ser quem é obrigado por dever jornalístico a memorizá-las.

Aliás, segundo sondagem do Instituto Datafolha, 62% dos eleitores não têm preferência por nenhum partido - dos outros, 20% dizem-se do PT, um oásis de militância, 4% do MDB, 3% do PSDB, e 1% do PDT e do PSOL. As demais siglas nem sequer pontuam porque, popular e ideologicamente falando, não valem nada - ainda para mais pós-Lava-Jato.

Os exemplos da sua insignificância surgem de todos os lados. Determina o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que cada candidato pertença a um partido e que, por isso, nos "santinhos" - a expressão brasileira para folhetos eleitorais - fique bem expressa a sigla do candidato. O jornal O Estado de S. Paulo, porém, localizou peças publicitárias sem referência aos partidos em quatro dos presidenciáveis.

Até Romero Jucá, que é candidato a senador pelo MDB, omite a força da qual é presidente nacional. Renan Calheiros, outro cacique do mesmo partido, não só omite como aparece nos "santinhos" abraçado a Lula, o eventual candidato do rival PT. Concorrente por Alagoas, estado no coração do nordeste, quer usar o prestígio do antigo presidente na região e ignorar a ligação ao partido do impopular Michel Temer.

Ciro Nogueira, que é presidente do PP, o recordista de implicados na Lava-Jato e que oferece a vice-presidente na lista de Geraldo Alckmin, já disse que tem dois amores na eleição. "Apoio Alckmin e Lula porque tenho o coração grande." Ele quer reeleger-se no Piauí, uma outra praça nordestina onde estar ao lado do PT rende votos.

"Jair Bolsonaro, que já foi do PPR, do PPB, do PTB, do PFL, do PP, do PSC e quase militou no PRONA e no PEN, andou nos últimos tempos a ouvir a melhor oferta partidária - decidiu-se pela do PSL"

E o PT, que às segundas, quartas e sextas chama essa gente de "golpistas", às terças e quintas parte em campanha a seu lado - está coligado em 15 das 27 unidades federativas brasileiras com partidos que derrubaram Dilma Rousseff.

O mesmo PT que, apesar de ser o único partido a beneficiar da fidelidade de 20% dos eleitores, nem por isso conseguiu (ainda) transformar os votos em Lula (perto dos 40% nas sondagens) em votos no seu provável substituto Fernando Haddad (cerca de 5%), a prova definitiva de que no Brasil, acima de tudo, se vota em pessoas, não em siglas.

Por isso, Jair Bolsonaro, que já foi do PPR, do PPB, do PTB, do PFL, do PP, do PSC e quase militou no PRONA e no PEN, andou nos últimos tempos a ouvir a melhor oferta partidária - decidiu-se pela do PSL, que lhe garantiu mais autonomia e poder numa campanha em que surge como recordista de votos sem Lula no jogo.

Temer, cuja história se confunde com o MDB, não tem a certeza se apoia o candidato do seu partido e seu ex-ministro das Finanças Henrique Meirelles. "O candidato do nosso governo é o Alckmin, não é?", perguntou há semanas. Para, paradoxalmente, alívio de Meirelles e pavor de Alckmin porque Temer está para a política como o mosquito da dengue para a saúde pública: todos querem distância deles.

O TSE, entretanto, recebeu nos últimos meses registos de 20 candidatos sem partido - mais do que os 13 concorrentes aninhados nas barrigas de aluguer das siglas. A procuradora-geral da República, por sua vez, já se pronunciou a favor das candidaturas avulsas. E o Supremo Tribunal Federal promete discutir o tema logo após as eleições.

Em 2022, portanto, nem quem, por dever profissional, é obrigado a decorar aquela inconsequente sopa de letras vai precisar de memorizá-las. Ufa.

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