"Pensamos que temos de salvar São Tomé e Príncipe"

Líder do maior partido da oposição são-tomense, MLSTP/PSD, Jorge Bom Jesus falou ao DN a propósito das eleições de 7 de outubro. "Temos de sentir vergonha de em 43 anos não termos conseguido mudar o rosto da miséria nesse país."

Jorge Bom Jesus, 56 anos, é o líder do maior partido da oposição em São Tomé e Príncipe, o MLSTP/PSD. Ex-ministro da Educação e da Cultura no executivo que antecedeu o do atual primeiro-ministro Patrice Trovoada, Bom Jesus assumiu a liderança do partido no final de junho, decidido a reformar esta força política e o país.

O facto de em apenas dois meses ter havido dois alegados atentados contra Trovoada e outros órgãos de soberania suscita questões que ainda não foram respondidas pelo governo, segundo o líder da oposição, nomeadamente quanto ao envolvimento de mercenários espanhóis no segundo golpe.

Bom Jesus promete reforçar as parcerias ao nível da segurança marítima com Portugal e Angola e retificar a decisão que permite a permanência no país de estrangeiros sem vistos por seis meses. E sonha alto: com 200 mil são-tomenses a receberem formação superior no futuro e com uma Secretaria de Estado da Cultura.

Qual a importância para si, que já esteve no governo, de nesta fase do país concorrer às eleições?

Primeiro, eu entrei na corrida para a presidência do MLSPT para tentar mudar o próprio MLSTP, numa perspetiva de dizer: vamos ganhar a presidência do MLSTP para depois ganhar o país. E ganhar o país é vencer as eleições de 7 de outubro. Pensamos que temos de salvar São Tomé e Príncipe.

Salvar São Tomé e Príncipe de quê?

Da crise ética, económica, financeira. Vou fazer amanhã [hoje] dois meses à frente do partido. O MLSTP tem responsabilidades. É o partido que garantiu a independência ao país. O objetivo mínimo era a independência mas o objetivo máximo é garantir a dignidade, a respeitabilidade ao povo são-tomense. E hoje sentimos que isso não está a ser assegurado.

Nos últimos dois meses São Tomé foi notícia em todo o mundo por duas alegadas tentativas de golpe de Estado e atentado aos órgãos de soberania, numa delas com o suposto envolvimento de mercenários espanhóis. Como avalia estes casos que denunciam um aparente problema de segurança no país?

Nós continuamos a pedir explicações ao governo. Naturalmente é sempre condenável qualquer ato dessa natureza. Mas a dois meses das eleições, o governo ainda não veio explicar à oposição, com toda a transparência possível, o que se está a passar. É a imagem de São Tomé e Príncipe que nós precisamos de credibilizar. Isto não pode ser uma narrativa qualquer. Estamos a promover o turismo. A nossa imagem de marca é a paz. O são-tomense é pacato e hospitaleiro, nunca houve derramamento de sangue aqui.

Então foi com estranheza que viu na primeira tentativa de golpe de Estado estar envolvido um membro do seu partido [o deputado e membro da comissão política do MLSTP/PSD Gaudêncio Costa)?

Ele foi acusado, depois foi libertado, estando neste momento sob termo de identidade e residência. Depois não se consegue explicar muito bem todo esse processo. Este militante do partido o que nos disse é que não está implicado em coisa nenhuma e que tudo isto é uma efabulação. Mas são questões que têm que ver com a justiça e eu quero deixar que a justiça resolva. O que queremos é que esse período intempestivo, que toda essa novela, passe rapidamente. Nós pensamos ser poder e queremos que a comunidade internacional nos olhe com outros olhos.

Melhorar a segurança interna e o controlo de fronteiras do país é importante para si?

Nós não compreendemos a própria política do poder atual de alargar o período de estada no país de 15 dias para seis meses de pessoas que vêm sem vistos para São Tomé e Príncipe, sem razão aparente. Nós perguntamos: se o governo fala destas tentativas todas de haver cidadãos estrangeiros a atentar contra a ordem constitucional nós perguntamos então porque é que se decide precisamente agora abrir as fronteiras, gente que possa vir ao invés de 15 dias, alargar esse prazo para 180 dias? Há coisas que parecem paradoxais, em termos de segurança e controlo. Teremos de retificar todas essas decisões, se formos eleitos.

A China é um dos principais credores de São Tomé. Vai querer manter essa relação com a China e com outros parceiros?

Naturalmente, com a China, com outros parceiros da CPLP, sobretudo Portugal e Angola. Queremos que o esforço externo seja um complemento ao nosso investimento. E temos de usar esses recursos que os parceiros colocam à nossa disposição da forma mais eficiente possível. E sobretudo mudar a distribuição das riquezas. Uns vão querer ficar com tudo e a maioria do povo continua mergulhada na pobreza. Temos de sentir vergonha de em 43 anos não termos conseguido mudar o rosto da miséria nesse país.

Tem esperança na exploração petrolífera em São Tomé e Príncipe?

Eu estou esperançado porque São Tomé precisa de recursos. Mas há 18 anos que falamos no petróleo. E este povo já se tornou um pouco incrédulo em relação a isto.

Mas agora já há contratos de exploração com a britânica BP e com a norte-americana Kosmos Energy...

Os dados indicam estarmos mais perto de resultados tangíveis mas queremos focar este povo noutras áreas onde também existem potencialidades, na agricultura, na agroindústria, nos serviços. É preciso explorar mais o potencial ao nível das novas tecnologias de informação. Também precisamos produzir uma energia mais sustentável porque neste momento produzimos energia através das térmicas. E temos de necessariamente diversificar as fontes de energia.

Preocupa-o ainda haver analfabetismo no país?

Diminuímos significativamente essas taxas, mas já começamos a ter o regresso ao analfabetismo. E é preciso erradicar completamente essas taxas. Ao nível da educação há progressos. Há uma reforma em curso que se iniciou há algum tempo. No ensino básico estamos acima dos 95%, nas taxas do ensino secundário estamos acima de 80% Mas precisamos de continuar a apostar na qualidade e na qualificação.

Quem vive em São Tomé e Príncipe conhece a realidade dos apagões. Nunca tivemos tantos como agora.

Se for eleito, vai querer investir mais no ensino superior?

Precisamos de um investimento maior do governo no ensino superior. Nos últimos anos, quando saí do governo há quatro, criei a universidade pública. Porque durante muito tempo fomos enviando estudantes para o exterior. Em Portugal tínhamos de enviar mensalmente 250 euros para manter esses estudantes no exterior. É um investimento que faz falta aqui. Criámos a universidade para fazerem a licenciatura aqui e depois os mestrados e doutoramentos fariam no exterior. A minha utopia era dar formação a todos os são-tomenses, transformar este país numa grande universidade aberta ao ar livre.

A cultura também precisa de ser mais apoiada?

Falta investimento na cultura, não podemos continuar a folclorizar a cultura. Temos de investir nas artes, na música, na arquitetura e na pintura. No meu governo temos de criar uma Secretaria de Estado da Cultura pela importância transversal e de desenvolvimento. Pode ganhar-se dinheiro com uma indústria cultural forte aliada ao turismo.

Qual vai ser o setor económico a que vai dar prioridade, para criar mais emprego em São Tomé?

A agricultura tem de continuar. Já não será essa agricultura em termos de matéria-prima. Compreendemos que temos de apostar na agroindústria, fazer a ligação entre o turismo e a agricultura, apostar nos nichos de mercado, sobretudo o cacau biológico, a baunilha, a pimenta, enfim, produtos que têm valor acrescentado. A minha aposta seria muito mais na agroindústria mas também na produção agrícola que possa sustentar o turismo. A nossa indústria é muito incipiente, há uma cervejeira, a Rosema, que é das poucas indústrias que podemos citar. Mas há outras potencialidades que temos: continuamos a importar água num país que tem tanta água, continuamos a encher os barcos com reservatórios de água.

Os índices de pobreza e miséria ainda são grandes?

Queremos que o próximo governo que seja do MLSTP toque esse país para a frente porque de facto há um retrocesso muito grande, há uma deceção dos eleitores, desespero, os índices de miséria subiram exponencialmente, o desemprego grassa por tudo quanto é canto. Mesmo a energia de que se fala e que o poder propalou bastante, a bandeira da energia e da água, mas quem vive em São Tomé e Príncipe conhece a realidade dos apagões. Nunca tivemos tantos apagões como agora.

Houve incapacidade do país em manter empresas internacionais a operar no território?

Inúmeras empresas tiveram de fechar as suas portas. Ultimamente dois bancos, o Banco do Equador e o Banco Privado, fecharam. Dezenas de empresas de construção civil, e das grandes, como a portuguesa Soares da Costa, que tinha uma filial aqui, a Mota-Engil, foram embora. E a juventude está sem norte porque quando há desemprego numa família cai-se no limiar da pobreza e no desespero total.

Os são-tomenses que estão fora são a nossa bandeira, a nossa embaixada.

O que acha de a diáspora são-tomense não poder votar nas próximas eleições?

Tenho tido encontros há 15 dias com a diáspora em Angola e lamentaram bastante essa questão. O governo atual teve várias iniciativas legislativas e este assunto devia constituir prioridade. Temos uma diáspora que cresceu muito, em Angola, no Gabão, serão acima de 50 mil são-tomenses. A comunidade em Angola e em Portugal tem crescido muito, em Londres também. É uma diáspora esclarecida, são estudantes que enviamos para o exterior e não regressaram e ocupam lugares de topo nos países onde residem. Comigo a diáspora poderia votar nas eleições, sempre na perspetiva de inclusão. Os são-tomenses que estão fora são a nossa bandeira, a nossa embaixada.

As próximas eleições serão observadas pela ONU. Vai aceitar os resultados, sejam eles quais forem?

O que queremos pedir à ONU e aos países amigos é que nos ajudem através dos observadores e em todos os aspetos que possam concorrer para que as eleições sejam justas, transparentes e credíveis. Mas há ainda muito trabalho a ser feito e toda a vigilância é pouca. Há uma tradição de alternância de poder e não queríamos que fugisse à regra.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.