Egito. Aqueles segundos na pirâmide

Mala de viagem (53). Um retrato muito pessoal do Egito.

Durante os dias em que permaneci no Egito, com um grupo de portugueses que a agência reuniu, a maior parte dos elementos que me acompanharam fez a viagem da sua vida. Por isso, admiraram-se pelo facto de eu poder visitar, ainda tão jovem, este destino icástico. Não lhes contei como foi possível. O que me interessou foi sentir os odores e os sons, da cidade do Cairo às Pirâmides, do Nilo aos templos sagrados de Luxor e Karnak, mais os Vales dos Reis e das Rainhas. O Egito é uma terra de contrastes e de prodígios. Apenas a 20 quilómetros do Cairo, a Esfinge e as Pirâmides de Gizé são o ícone deste país e, diferentemente do que se possa pensar, não foram escravos que as construíram, mas camponeses recrutados para trabalhar nas obras públicas. Além da fé na divindade do faraó, o que motivava essas criaturas eram pequenas recompensas, como comida e bebida. Por certo, não souberam o nome do génio do Antigo Egito que projetou a primeira pirâmide e foi conselheiro de Djoser, faraó que inaugurou a III Dinastia. O seu nome era Imhotep. Para além de arquiteto, foi médico e o "pai das ciências médicas", deixando-nos, também, os primeiros mapas das constelações e a ideia de uma energia vital como caminho para a cura holística. Ele também foi escritor, usando os hieróglifos, que deixaram de ser simples desenhos de objetos para começarem a ser utilizados para expressar abstrações e toda a extensão do pensamento humano. Como arquiteto e mestre-de-obras, foi de facto o primeiro a projetar uma pirâmide escalonada (Pirâmide de Djoser), para o sepultamento do faraó. Esta não faz parte do trio de pirâmides que visitei. Destas, a menor é a de Miquerinos, depois a de Quéfren, e a maior é a de Quéops, os nomes dos faraós para os quais elas foram construídas. Entrei, já não sei em qual delas. Dava para visitar o interior de duas, Queóps ou Miquerinos, mas a agência já tinha escolhido por mim. Curiosamente, não estavam muitos visitantes na fila, esta era espaçada entre nós, o que não é habitual. Cada qual respeitava a cadência de entrada. O que pudemos visitar foram dois corredores (curtos e estreitos) e uma sala. Ao virar-me, onde só eu me encontrava naqueles últimos instantes, entrou o próximo visitante que, curiosamente, não foi exatamente quem me seguiu na fila exterior ao monumento. Desta vez foi uma jovem que, por certo, avançara de posição. Por instantes, fomos os únicos na sala, parados, como se apenas tivéssemos alguns segundos na vida para nos olharmos, privilegiados por aquele espaço. Ela tinha um ar local, quiçá egípcia, afinal podia ir jovem àquele destino sem que lhe perguntassem o porquê da visita com tão pouca idade. Talvez fizesse parte de uma minoria da sociedade e estivesse numa visita de estudo, a caminho da faculdade ou já cursando. Se a mulher egípcia deposita as suas maiores expetativas no casamento e em ter filhos, mas sem grandes deslumbramentos em relação ao futuro, muitas delas passam a adolescência a vislumbrar um casamento perfeito, como um dos únicos grandes acontecimentos que viverão ao longo da vida. No Egito, os pais mais abastados investem muito para garantir que as filhas encontrem um bom pretendente, pois raramente as classes sociais se misturam quando o assunto é o casamento. Para o garantir, ela precisa de passar uma boa impressão ao outro. E, voltando à história, enquanto regressávamos ao exterior e eu estava indiferente aos restantes elementos do meu grupo, a jovem nada expressou mas, já fora do monumento, sorriu e disse, em inglês - "I met you in an unlikely place, but it was the most perfect improbable of my life". E sumiu-se naquele imenso terreiro desértico de gente e camelos, onde a esperava um pequeno grupo com a mesma tez. Por algum tempo, fiquei cismando que, seguramente, eu não seria um candidato a pretendente daquela suposta egípcia, por diversas impossibilidades, embora a minha "t-shirt" tivesse naquele dia a legenda "New Yorker". Terá sido o "sonho americano"? Porém, talvez fosse um final mais feliz termos encontrado, na volta, uma daquelas entradas secretas do monumento, para que o encontro demorasse. Certa foi a minha concordância absoluta com o que ela me disse nesses segundos: "Conheci-te num lugar improvável, mas foi o improvável mais perfeito da minha vida." - "Ah, verdadeiramente a deusa!", tal como escreveu Fernando Pessoa, que não era dado a deuses, mas cujas "deusas" o inspiraram na escrita. Como o compreendo!

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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