O prédio de Alfama e da contradição

Ou o Bloco de Esquerda deixa de fazer discursos contra o funcionamento do mercado capitalista ou critica a hipocrisia imobiliária (discurso dito versus negócio feito) de Ricardo Robles.

O banzé que vai p'raí! E o banzé que não há! Ambos extraordinários estes efeitos contrários, quando a causa onde eles bebem - seja as indignações seja o encolher de ombros como se nada houvesse - é a mesma: o famoso prédio de Ricardo Robles, vereador do Bloco na Câmara de Lisboa. E, ainda mais extraordinário, as reações são as opostas às que seriam de esperar em cada caso. À direita do BE, os adeptos do capitalismo indignam-se por um eleito esquerdista ter tentado um negócio digno do investidor Soros. Já a esquerda radical vê um dos seus enfeitiçado pelo milagre da multiplicação de mais-valias e encolhe os ombros com a costumeira desculpa na política: "Ah, não, isso é o inimigo a especular..."

Os primeiros, os velhos apóstolos do lucro que veem Ricardo Robles a querer em quatro anos quintuplicar o investido, do milhão (entre compra do prédio e obras de reabilitação) para 5,7 milhões de ganho, deviam abrir os braços ao neófito. Afinal, Jeff Bezos, que é o homem mais rico do mundo, só fez um pouco melhor em 2017, triplicando a fortuna num ano. É verdade que os valores, de Bezos e de Robles, têm zeros diferentes, mas o que interessa aqui é o incomensurável salto dado pelo português: o patrão da Amazon continua no sítio onde sempre esteve, e o nosso Ricardo Robles militou até agora no anticapitalismo primário. Estúpida conduta, pois, a da direita que não sabe fazer proselitismo. Acolhessem o ex-adversário com simpatia e haveria talvez mais bloquistas a saírem do cofre-forte onde escondem as suas recalcadas tendências pelo lucro excessivo.

Os segundos, os dirigentes e porta-vozes do BE que acusam os adversários políticos de especular, erram ao negarem um problema: neste caso, quem especula (e no sentido financeiro do termo, que é o que mais causa horror naquela organização) é um dos seus. Recapitulem-se os factos apurados: alguém comprou um prédio lisboeta num leilão, remodelou-o e pôs à venda com a intenção de lucro, em menos de quatro anos, quase quatro vezes maior do que o investido. Ora, esse alguém é um eleito do BE e o seu principal representante na câmara a discursar contra a especulação imobiliária. E, no BE... no pasa nada!

Desculpem-me o espanholismo, mas ele surgiu-me porque nos correligionários do BE em Espanha, o Podemos, houve uma recente e acesa discussão sobre casas de dirigentes. O debate fez vacilar a liderança de Pablo Iglesias e da porta-voz Irene Montero, que são casal, porque eles compraram uma vivenda. Por acaso o valor da compra dos espanhóis era similar, 600 mil euros, ao gasto nas melhorias do prédio de Robles - mas a casa de Iglesias e de Montero era para eles lá viverem, e a do prédio de Alfama era para fazer um desmedido lucro.

Robles pôs o prédio para venda na Christie's, com a indicação, nos anúncios, de os apartamentos estarem prontos para ser "utilizados em arrendamento de curta duração." Isto é, na Christie's, quando o vereador do BE por várias vezes acusou as imobiliárias de inflacionarem os preços da cidade. E em arrendamento para turistas, quando ele várias vezes alertou para o perigo de essa prática expulsar os moradores dos bairros populares. Populares como Alfama, onde está o prédio de Robles.

O anúncio da Christie's acabou por ser retirado. Não porque ao proprietário desdenhasse vender o prédio ao preço especulativo mas porque, como acontece tantas vezes aos iniciados, a especulação do neoproprietário ser demasiada. Pediu 5,7 milhões e não conseguiu, por 5,6 milhões talvez aparecesse um comprador... Como não baixou, o negócio não se fez, e agora soube-se que um dos campeões da luta contra a especulação imobiliária lisboeta, nomeadamente em Alfama, caíra na tentação. Deveria ser suficiente para o BE admitir que tem um problema interno: ou o partido deixa de fazer discursos contra o funcionamento do mercado capitalista ou critica a hipocrisia imobiliária (discurso dito versus negócio feito) daquele seu dirigente.

Se querem que vos diga, eu preferia uma solução de compromisso. O BE, que até já tem um leal conselheiro de Estado, tem bons deputados nos parlamentos burgueses, nacional e europeu, e apoia, dia sim dia não, um governo burguês, deveria assumir-se menos revolucionário do que faz crer nos seus acampamentos anuais. Moderando um pouco na ideologia, ele poderia compensar com um radicalismo um pouco maior na prática.

Por exemplo, o que é de salientar mais no caso do prédio de Alfama, comprado por 347 mil euros e com venda tentada a 5,7 milhões, é que foi leiloado pela Segurança Social. Ora, com mediano radicalismo, com um socialismo suavezinho, com um pequenino respeito pelos que não têm, o que qualquer dirigente do Bloco deveria ter lutado era para que aqueles leilões dos prédios da SS fossem convertidos em investimento camarário para aumentar a oferta de casas com rendas acessíveis.

Experiências dessas já há na câmara, como Ricardo Robles sabe. Espero vê-lo em breve como um capitalista moderado, o que fará dele mais útil do que na sua antiga experiência anticapitalista de boca e na recente de capitalista selvagem de investimento.

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