Premium Passear o cão negro

Não tenho um cão, nunca tive, mas tenho um cão, sempre tive.

A metáfora do cão negro para designar a depressão foi popularizada por Winston Churchill que afirmava que o animal o acompanhava para todo o lado e chegava mesmo a adormecer no seu colo, numa espécie de angústia íntima e familiar. Antes dele já Samuel Johnson usara a mesma expressão numa carta a um amigo e há até quem tenha encontrado a imagem na poesia de Horácio. O cão negro é antigo, assim como a depressão.

Nunca me foi diagnosticada, mas desconfio que já me emaranhei nas suas patas. Foi há muito tempo, no rescaldo atrasado de um luto precoce. O meu cão negro não ladrava nem mordia, mas deitava-se e acordava comigo, pousava o corpo pesado no meu peito e alimentava-se vorazmente de sonhos e vontades.

Com o tempo fui-lhe conhecendo os hábitos e as manhas, aprendi a domesticá-lo. O meu cão negro (cada um terá o seu) só se distrai se lhe conto histórias ou se o levo a passear. Foi assim que comecei a escrever, a inventar histórias para o cão, tramas e personagens que o possam divertir ou emocionar. Muitas delas são chamarizes, homens obscuros e mulheres conturbadas, vítimas sacrificiais para o meu cão. Enquanto ele vai e não volta eu vou vivendo a minha vida, sorrindo às vezes, mas sempre espreitando por cima do ombro, à cata da sombra vagarosa, temendo o pôr do Sol. Porque à noite todas as sombras são cão.

Quando me falta a imaginação ou me vejo vencido pelo cansaço, resigno-me e levo-o a passear pelo bairro dos Anjos.

Dirá o cão negro que é ele que me leva a mim.

Damos voltas lentas pelas ruas e travessas e vamos saudando os outros bichos e os respetivos donos. Mesmo sem eu ter trela ou o saco de plástico na mão, os meus vizinhos sabem bem ao que vou, há certamente um olhar que me denuncia, pequenas pausas, algum gesto, talvez a cadência do passo. Eles sabem e reconhecem-me, a pouco e pouco talvez me vão aceitando.

"Olha, Rajá, é mais um que veio passear o cão."

Escritor, diariamente online

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...