Falta de auxiliares. "Dizemos aos meninos para não falarem com estranhos, e de repente os estranhos estão na escola"

A falta de auxiliares é apenas um dos muitos problemas com que se depara o agrupamento Marinha Grande Nascente. Mas é o que mais preocupa o presidente da comissão administrativa provisória: "Passamos a vida a dizer aos meninos para não falarem com estranhos, e de repente os estranhos estão na escola."

Pedro Lopes vive a coberto de uma autêntica manta de retalhos, resultado do drama da falta de assistentes operacionais na escola que dirige. Dos 30 funcionários que estão atribuídos ao agrupamento Marinha Grande Nascente, um terço chega a estar de baixa. "Só nesta escola, dos 14 do quadro, quatro estão de baixa", conta o diretor, que desde o último verão foi designado presidente da CAP (comissão administrativa provisória), na sequência do impasse que tomou conta da decisão do conselho geral, que não se entendeu quanto à nomeação mais votada.

Estamos na Escola Secundária Pinhal do Rei, que alberga alunos de nacionalidades e contextos sociais bem diversos, embora não seja aquela a escola que mais preocupa Pedro Lopes. O professor de Economia está habituado a fazer muitas contas no exercício da função, sobretudo no que toca às assistentes operacionais disponíveis, particularmente nos jardins-de-infância e nas escolas do primeiro ciclo, em que a maioria desses quadros é da responsabilidade da câmara municipal.

"O problema é que as pessoas são requisitadas ao IEFP. Não têm formação (nem vocação, a maioria das vezes), e além disso muitas recusam o emprego, porque é-lhes mais vantajoso estar no desemprego", admite o responsável, a braços com 16 escolas, a maioria infantários e de primeiro ciclo. Às tantas, o diretor já não sabe se a emenda não é pior do que o soneto: "Isto é quase um paradoxo, porque passamos a vida a dizer aos mais pequeninos para não falarem com estranhos, e de repente a pessoa que lhes dá a sopa é um desses estranhos", adverte Pedro Lopes, que se mostra sobretudo preocupado com essa franja de alunos, dos 3 aos 6 anos de idade.

Quando o desemprego compensa

"É muito complicado para uma criança dessa idade ter hoje uma pessoa, amanhã outra e para a semana outra. Sem contar aquelas vagas que demoram uma eternidade a ser ocupadas, porque a câmara chega a abrir concursos em que não concorre ninguém." É o caso dos lugares para onde se pede "uma pessoa que faça duas horas de manhã e duas à tarde. Imagine que a pessoa tem de se deslocar, pagar combustível, ter outras despesas, é claro que não lhe compensa", considera o responsável do agrupamento.

À falta de funcionários junta-se um problema adicional: muitos estão a atingir a idade de reforma, com todos os problemas de saúde inerentes ao peso dos anos. Na secretaria, Pedro Lopes faz uma paragem para saber como está uma dessas funcionárias, que voltou recentemente ao trabalho, depois de uma intervenção cirúrgica. "É um caso de quem está aqui por amor à escola, se calhar ainda devia ficar mais tempo de baixa, mas ela sabe bem como é precisa. Sim, porque ainda há disso", sustenta o diretor em exercício. E assim se percebe que, no meio de tanta dificuldade elencada - o rol vai muito para além da falta de auxiliares -, alunos, professores e funcionários encontrem força anímica para desenhar clubes e outras iniciativas, num total de 11 projetos paralelos e extracurriculares, muitos deles em ligação à comunidade. Foi assim que o agrupamento conseguiu ser o grande vencedor, a nível nacional, do concurso Livres e Iguais: Escolas pelos Direitos Humanos. O resultado desse primeiro prémio será uma viagem, para todos os alunos envolvidos, a Paris, para visitar a sede da UNESCO.

O concurso - lançado em setembro, no âmbito das comemorações dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos 40 anos da adesão de Portugal à Convenção Europeia dos Direitos Humanos - procurou distinguir e reconhecer projetos de escolas que, através das suas práticas, promovam o respeito pelos direitos e liberdades constantes da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A verdade é que o agrupamento da Marinha Grande tem nas suas escolas toda a matéria-prima necessária para trabalhar a temática, o que justificará o (bom) trabalho e o primeiro prémio. São muitas nacionalidades misturadas. Nos últimos anos chegaram alunos da Índia e do Paquistão, o que foi mais um desafio para a direção, num universo já de si carregado de casos sociais. "Até para ir a Lisboa, foi um problema, por causa da autorização à menina indiana", conta Pedro Lopes. E esse é apenas um exemplo. O presidente da CAP aponta as dificuldades sentidas por alunos assim, que de repente se veem numa sala, com colegas estranhos, sem perceber a língua. "Um aluno desses, se não for indisciplinado é uma sorte", conclui.

Um call center na escola

Na verdade, é essa sorte que tem estado ao lado desta comissão provisória, que optou por arregaçar as mangas em vez de ficar a lamentar-se do imbróglio criado. Pedro Lopes estava de férias, quando a diretora regional de Educação o indigitou para liderar a CAP, na sequência do impasse criado no agrupamento: candidataram-se três professores ao lugar de diretor, mas nenhum deles conseguiu reunir um terço dos votos necessários para ser considerado legítimo vencedor. O professor - que começou por ser contabilista - já fazia parte da anterior direção, e por isso conhecia "os cantos à casa". Aquele foi o verdadeiro verão quente: "Tive de chamar os professores e funcionários, que estavam de férias, e instalámos aqui um call center na escola. Havia a plataforma MEGA e todo o processo logístico dos manuais escolares, quem tinha tido formação já cá não estava; o coordenador do primeiro ciclo foi-se embora e o responsável do software também. A verdade é que tudo se fez e o ano letivo começou, a tempo e horas, sem sobressaltos para os alunos. Mas passámos aqui dias e noites seguidos", recorda Pedro Lopes.

Três décadas no ensino permitem-lhe concluir que "o paradigma das escolas mudou, sobretudo nos anos recentes, com a escola inclusiva e com a flexibilidade". Pedro Lopes foi apanhado no olho do furacão, de modo que ainda não decidiu se vai ser candidato ao lugar de diretor, nas eleições que o presidente do conselho geral há de marcar, em breve. Até lá, apoia-se nos 180 professores que lecionam para o universo de 2000 alunos, que frequentam as 16 escolas do agrupamento. Entre os diversos clubes, há um que tem sido por demais importante: o do voluntariado; que tanto angaria bens para as famílias carenciadas como latas de tinta para pintar as salas, substituindo-se aos serviços do Ministério da Educação.