Carola e Sophia

Na semana passada, a justiça deu razão a Carola Rackete, a comandante do Sea Watch 3, que desobedeceu a Salvini em junho de 2019 ao levar 40 pessoas salvas no Mediterrâneo para porto seguro. Numa entrevista que concedeu ao La Vanguardia nesta semana, ficamos a saber que Carola está agora a bordo de um barco da Greenpeace que procura defender ecossistemas ameaçados e que o seu tempo é dividido entra a defesa do meio ambiente e o salvamento de refugiados.

Do seu lado, Carola teve o direito internacional que contém a obrigação de levar as pessoas resgatadas a um lugar seguro, e um barco não é um lugar seguro. A prisão e a expressão mediática que teve foram importantes para chamar a atenção para o inferno que se vive no Mediterrâneo, a criminalização das organizações não governamentais de resgate e as vidas que continuam a perder-se. Se a sua absolvição pode influenciar decisões futuras, impedindo a detenção de quem procura impor humanidade no maior cemitério a céu aberto dos nossos tempos, a verdade é que são cada vez menos os meios disponíveis para salvar as pessoas que arriscam a vida e é cada vez maior a vontade da União Europeia de lhes virar as costas.

Depois do cancelamento do programa italiano Mare Nostrum, que resgatava refugiados, a União Europeia tem avançado com meias soluções, nunca assumindo o salvamento de vidas como uma prioridade. Com muitas limitações, a Operação Eunavfor Med, que na prática é a Força Naval da União Europeia no Mediterrâneo, foi criada em 2015 e depois rebatizada de Operação Sophia. Na sequência de sucessivos naufrágios na costa da Líbia, o objetivo era desmantelar as redes de tráfico de seres humanos. Nestes anos de funcionamento permitiu trazer cerca de 49 mil pessoas até porto seguro, o que sendo claramente insuficiente impediu que os dados sobre as mortes fossem ainda mais horrendos.

Recentemente, os governos europeus decidiram decretar-lhe a morte para a substituírem por uma missão de controlo do embargo de armas imposto à Líbia. A decisão dos ministros faz que a partir de 20 de março a Operação Sophia deixe de estar em funções. É certo que o mandato da Sophia já vinha sendo alterado desde 2016 diluindo o objetivo principal, mas nem por isso o anúncio do seu fim deixou de causar surpresa. A perversidade é tão grande que os barcos que irão operar no Mediterrâneo vão desviar a rota, evitando a zona onde se verificam mais atravessamentos.

Diz o novo alto-representante, Josep Borrel, que se forem encontrados refugiados ou migrantes serão igualmente obrigados a prestar auxílio. É tudo muito pouco e é tudo muito mau. Se a ilibação de Carola foi uma boa notícia para as ONG, nos últimos anos o círculo foi apertando e há cada vez menos com condições para operar no Mediterrâneo. Com a retirada das entidades oficiais e das autoridades europeias restam cada vez menos opções. Diz o ditado que "longe da vista, longe do coração" e é por isso também que já não restam dúvidas que as decisões europeias não têm feito outra coisa senão alimentar os crimes atrozes que continuam a ser cometidos no Mediterrâneo.

Eurodeputada do BE

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