Bush revisitado

Que Europa está a emergir com a saída do Reino Unido? Há quase 20 anos, George W. Bush cunhou as "coligações
de vontades" como o novo normal na política internacional e muitos europeus escandalizaram-se. Hoje parecem adotar essa receita na política comunitária. Portugal não escapará à tendência.

A Europa já está a moldar-se ao ambiente pós-Brexit, ainda antes da saída plena do Reino Unido. A principal evidência resulta da disfuncionalidade na relação entre Paris e Berlim, o natural eixo de poder numa União agora mais continentalizada. O caminho da saída do maior Estado membro não pertencente à zona euro iria sempre ditar uma concentração de poder nessa mesma área, com uma redundante preponderância das suas duas maiores economias, aliás a parelha que está na origem do acordo político para a moeda única. Redundante, porque França e Alemanha sempre primaram pela liderança dos vários processos de integração da Europa do pós-Guerra, o que agora lhes pesa, com o Brexit em rota de não-inversão, é uma nova expectativa sobre a gestão da coisa comunitária.

Ora, a resposta desde o referendo britânico não tem sido boa. Onde Macron diz avança, Merkel pede paciência; quando Macron e Merkel acertam o passo, constrangimentos internos congelam o ritmo; e quando boas ideias ficam lavradas a escrito, há sempre mais um alçapão que se abre para travar a ambição. Diga-se, em abono da verdade, que Macron tem sido mais voluntarista na sua política europeia por dispor de maioria absoluta no parlamento e uma legitimidade presidencial salvífica da União. Ao invés, Merkel tem vindo a definir a política europeia da Alemanha sob sucessivas coligações federais de alcance ritmado por equilíbrios constitucionais, ideológicos e históricos. Enquanto Macron desespera, Merkel espera. O eixo, em boa verdade, não existe.

Uma outra dinâmica emergente são as alianças dentro da UE determinadas pela missão, aquilo a que em tempos George W. Bush chamou "coligações de vontades". Quem diria que, quase duas décadas depois desse ponto baixo da relação transatlântica chamado Guerra do Iraque, fossem agora os europeus a adotar esse registo para se posicionarem no complexo jogo da política comunitária. Espanha, por exemplo, integrou logo na fase imediata ao referendo britânico a cimeira de Versalhes, com as três principais economias do euro (Alemanha, França e Itália). Mas esse passo rumo ao centro não a fez recuar na participação das cimeiras do sul da Europa (ou Club Med, como alguns lhes chamam), indo já em seis encontros desde 2017. Ou ainda quando entendeu reforçar a posição conjunta dos Amigos da Coesão, bloco de 15 Estados membros do sul, centro e leste europeus contrários aos cortes propostos para o quadro financeiro da União entre 2021-2027, também eles em resultado do fim do contributo orçamental britânico, o que equivalia a 11% do total, sendo o terceiro maior logo a seguir a alemães (21%) e franceses (16%). No fundo, a geometria variável das alianças europeias de Espanha são já reflexo do Brexit e amplamente definidas pela missão, sendo por isso mais instrumentais para o alcance de um interesse nacional (reforço do euro, gestão migratória, mais orçamento para a coesão) e menos alicerçadas numa lógica diplomática exclusivamente ancestral, movida por proximidades históricas ou vizinhanças geográficas. Será este o novo normal na UE pós-Brexit: a missão definirá a coligação, fragmentando desta forma a construção de políticas comuns.

Enquanto Macron desespera, Merkel espera. O eixo, em boa verdade, não existe.

Outra dinâmica que entronca nas alianças de geometria variável está diretamente relacionada com o fim do efeito biombo que o Reino Unido criava em vários debates europeus. Assumindo muitas vezes o papel de polícia mau, a sua saída vai obrigar aqueles que se escondiam atrás das suas posições a assumir os seus argumentos com outra consistência, nem sempre necessariamente convergentes. É o caso dos países nórdicos, como a Dinamarca e a Suécia, ambos fora da zona euro mas que podem ter de se expor mais no quadro da inflexibilidade às reformas da moeda única apoiando, por exemplo, a Holanda nessa frente, indo a jogo numa matéria à qual não davam habitualmente prioridade. O mesmo se passa com os bálticos. Aliás, o modelo NB6 em curso e que os junta aos escandinavos é mais uma aliança nesta Europa multinodal, que tenderá a acertar o passo quando os interesses do grupo convergirem e a desacelerar quando tal não acontecer. Outra peça a juntar ao puzzle, neste caso ligando também a Irlanda a nórdicos e bálticos, é a Liga Hanseática, desta vez sob forte impulso holandês e que desde 2018 tem apontado para uma terceira via entre as propostas de Paris e Berlim para a zona euro.

O mesmo tipo de fórmulas está também em marcha na Europa central e de leste, juntando nalguns casos, como a Iniciativa dos Três Mares nascida em 2016, 12 países com interesses convergentes (infraestruturas energéticas) entre o Adriático, o mar Negro e o Báltico. Já Visegrado tem procurado a afirmação identitária da "Europa de Nações", definida contra a imigração muçulmana, a burocracia de Bruxelas e o bafo do federalismo. Com governos mais à esquerda ou à direita e que se articulam de forma mais instrumental do que convicta, forjam uma aliança nacionalista aparentemente articulada e inquebrantável. Sabemos, porém, que os presidentes das câmaras das quatro capitais divergem profundamente dessa linha e que, por exemplo, o facto de a Eslováquia ser o único país do grupo no euro a tem levado a amenizar o confronto, como aliás se vê pela emergência do Triângulo de Slavkov e que junta eslovacos e checos à Áustria, vista como um mediador entre aqueles e as posições de Berlim e Paris. A própria Polónia, que olha sempre com mais interesse para o equilíbrio com a França e a Alemanha do que com a Hungria, tem recuperado a importância do Triângulo de Weimar. Não é à toa que a primeira deslocação de Macron ao estrangeiro depois de encerrado o primeiro capítulo do Brexit, a 31 de janeiro, foi a Varsóvia.

No meio disto, Portugal não escapará à tendência. Está nos Amigos da Coesão e nas cimeiras do sul da Europa, mesmo não sendo um país mediterrânico. Tem articulações bilaterais regulares que mereciam reforço político (Alemanha e Espanha, por exemplo), mas a variável que o Brexit nos abre é a atlântica, geografia de interesses em nada variáveis e em tudo permanentes. Para colmatar esse flanco, Lisboa precisa de influenciar um fórum regular de articulação dentro da União, por exemplo, com holandeses e dinamarqueses, mantendo os britânicos perto. Isto não implica desnatar a autonomia estratégica da defesa europeia mas dotar a nossa política europeia de um arco de ação coincidente com o nosso potencial geográfico, político e comercial. Seria um erro enorme afunilarmos a política europeia portuguesa.

Para ter sucesso, Portugal tem de preparar a sua escola diplomática e o seu establishment político para um conhecimento muito mais aprofundando sobre a complexidade de interesses dos Estados membros habitualmente fora do nosso raio de relações naturais, dentro desta tendência europeia em que a missão dita a coligação e onde as alianças são forjadas com formatos mais instrumentais do que tradicionais, mais variados do que estáticos.

Não há nenhum mal em aproveitar toda esta flexibilidade numa Europa multinodal, desde que saibamos perfeitamente que interesses permanentes defendemos.

Investigador universitário

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