A mulher comum que combateu o vírus esquisito

Como já devem ter reparado, à História decidimos escondê-la: não há museu dos Descobrimentos nem caravela atracada no Tejo. Já foram intenções públicas, mas hoje receia-se que o museu e o barco, do passado glorioso e também menos glorioso, é melhor não falar. Intenso ativismo em jornais e redes sociais fez desse passado toda uma vergonha e uma exclusiva vergonha. Então, varre-se o passado para debaixo do tapete, apesar de as visitas, que hoje se chamam turistas, e ainda alguns locais continuarem curiosos daquilo que se passou. Mas não, Portugal inventou o pastel de nata, e só. O resto foi racismo, escravidão e espadeirada pelos matos dentro.

Os açorianos Machado tinham uma filha branca, e os escravos Assis, um filho pardo, e nesse conjunto há uma palavra enorme e má: escravatura. Certo. Acontece que os dois grupos de alguma forma se uniram e dessa improbabilidade nasceu um neto, Machado de Assis, o maior escritor brasileiro - além de escravatura, de algumas palavras mais temos de usar para explicar o milagre... De Vasco da Gama repetem-se as vezes que ele desembainhou a espada mas a rota aberta por ele levou também à curiosidade de Garcia de Orta. A lavadeira branca Leopoldina Machado parir o fundador da Academia Brasileira de Letras merece mais atenção. E tendo Orta ido para Goa como alto funcionário, médico do governador, a sua estada transformou-se numa vida a aprender com o saber de outros povos - eis o que merece mais estudo. Ambos, a lavadeira e o sábio, são História de Portugal a fazer-se. Mas, hoje, a tendência é só para desfazer. Uma antiga publicidade de bolachas, "O que é Nacional é bom", foi distorcida em filosofia da moda: o que é nacional é mau. E se foi no passado, então foi péssimo.

O que em povos populosos e de muita História pode ser só um desperdício, em povos de muita História e com a população de cidade média chinesa é um suicídio a curto prazo. Com a História tratada a pontapé resvalamos para um povo sem História. Compreende-se, a ter de ser, antes ignorado que insultado. E, aliás, diz-se até que os povos sem História são mais felizes. Seja, fiquemos sem História, mas deem-nos uma moratória. É que nesta semana morreu um aventureiro americano que embarcou num foguetão para tentar provar que a Terra não era redonda. Logo agora, quando se comemora também a viagem de Fernão de Magalhães, que há 500 anos provou literalmente que a Terra era mesmo redonda... Ele há dias em que é mais difícil convencerem-nos de que nunca tivemos importância.

Mas com ou sem, com História insultada ou sem História porque adiada, surge outro problema: agora querem que Portugal não tenha nem histórias. Nesta semana, para os ingleses que queiram "escapar do caos", o popular Daily Express propôs em título: "Portugal: pouco crime, nada de coronavírus & voos baratos". Depois de má História e da fuga para sem História, eis-nos também país sem histórias, o país que até escapa à emoção do momento: zero infetados com covid-19! Fala-se da crise mundial do jornalismo mas por cá a crise da indústria das novidades é ainda mais funda: não há novidades! Não há infetados, há casos suspeitos; casos suspeitos que nunca desembocam em casos, mas só em novos casos suspeitos... No fim, o surto, a epidemia, a pandemia, o que for, ainda vai acabar, por cá, só com mais novos casos suspeitos, que vão envelhecer suspeitos. Nem povo feliz conseguimos ser, só um bocejo.

Entretanto, Adriano Maranhão, tripulante de um navio de cruzeiro em quarentena no Japão, foi o primeiro português contaminado. E, então, os portugueses assistiram a uma lição de Emmanuelle Maranhão. Protagonista de um facto histórico cheio, como todos, de imperfeições e injustiças (porque não receberam os tripulantes o mesmo tratamento que os passageiros?), a mulher do português contaminado agiu. Morando na Nazaré, do outro lado do mundo, ela exigiu ação das autoridades de cá e de lá, manobrou jornalistas (dando baile a abutres sem pudor), pressionou com advogados a empresa de cruzeiros, deu a cara, emocionou e nunca pediu piedade. Pôs do seu lado generosos e oportunistas, porque o que interessava a Emmanuelle era salvar o seu homem. Uma lição - o que nos remete para o tema desta crónica: o mais importante da História é o que se faz com ela. Como com o vírus, a vacina para as modas fúteis é a ação.

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