As sondagens que colocam PS e PSD muito próximos nas intenções de voto, e muito distantes de conseguirem ver a maioria absoluta ao fundo do Excel, conferem elevado grau de imprevisibilidade às legislativas de 10 de março. No entanto, o cenário de Portugal entrar num ciclo de eleições inconclusivas e de ingovernabilidade, como aconteceu em Espanha em 2019, e tem sucedido em Israel desde então, é afastado pelos politólogos ouvidos pelo DN..Para André Freire, professor catedrático de Ciência Política no ISCTE, que acaba de lançar o livro Da Geringonça à Maioria Absoluta, "é bastante improvável" que Portugal venha a ter duas eleições legislativas num só ano, bastando que o programa de governo apresentado pelo primeiro-ministro indigitado pelo Presidente da República conte com abstenções suficientes no Parlamento para passar, ao contrário da investidura necessária em Espanha..Numa "situação que é difícil, pois há grande incerteza", André Freire antecipa que "o que vai contar não é tanto o partido que fica à frente, mas sim se existe maioria de esquerda ou de direita". Mas mesmo isso não será totalmente claro a partir do momento em que o PSD (coligado com o CDS-PP) e a Iniciativa Liberal repetem que não estão dispostos a fazer acordos de governo com o Chega, ao mesmo tempo que Pedro Nuno Santos se afirma indisponível para que o PS faça mais do que entendimentos pontuais com o PSD..Claramente nada crente na retórica desses líderes partidários, o professor catedrático jubilado de Ciência Política do ISCSP José Adelino Maltez contrapõe que "qualquer político formado nas escolas das "jotas" está mais do que preparado para fazer negociação". E antevê que haja em 2024 "um governo de contratualismo, convenção ou consenso" após Portugal "ter saído de uma maioria absoluta que implodiu"..Apesar dos "fantasmas" do Bloco Central que juntou PS e PSD há 40 anos, durante dois anos marcados pela intervenção do Fundo Monetário Internacional, José Adelino Maltez realça que qualquer acordo entre os principais partidos portugueses poderá não ir além do estabelecimento de regras. E defende que, mesmo com um peso historicamente baixo no eleitorado português, caso as sondagens se confirmem nas urnas, esses dois partidos serão "um fator de estabilidade que ainda maior será se um virar à esquerda e o outro resolver o seu problema com o Chega"..As "linhas vermelhas" que o líder social-democrata traça incessantemente em relação ao partido de André Ventura, que por sua vez admite que o Chega possa votar contra um eventual programa de governo que Luís Montenegro apresente, é reduzida por Adelino Maltez a "conversa para ganhar votos"..Mais do que ingovernabilidade, André Freire prefere falar em "risco de problemas de governabilidade". E diz ser necessário "desmistificar" a valorização da estabilidade política que existe em Portugal, na medida em que "muitas democracias consolidadas estão marcadas por instabilidade governativa e mandatos que não cumpridos até ao fim"..Quanto ao papel que Marcelo Rebelo de Sousa desempenhará na nova solução governativa, os politólogos ouvidos pelo DN diferem na análise. Para João Adelino Maltez, "o sistema não exige intervencionismo do Presidente da República", nomeadamente "puxando o Chega para a área da governação" no caso de isso contribuir para a existência de uma maioria parlamentar..Pelo contrário, André Freire recupera o exemplo de Cavaco Silva, que foi "artífice da estabilidade da geringonça" ao exigir os acordos escritos com os partidos que viabilizaram o governo socialista minoritário em 2015. Em sua opinião, Marcelo "tem de exigir soluções de estabilidade qualquer que seja a aliança" resultante das legislativas de 10 de março de 2024. "Terá que ter um papel mais ativo num cenário parlamentar que se prevê fragmentado", antecipa o professor do ISCTE..Sem a mesma atenção mediática, as eleições regionais dos Açores, também antecipadas, nesse caso devido ao chumbo do Orçamento apresentado pelo executivo liderado por José Manuel Bolieiro, realizam-se a 4 de fevereiro. A pouco mais de um mês das legislativas, o ato eleitoral nas nove ilhas no meio do Atlântico deixará indicadores relevantes..Desde logo, tanto o PS, que foi o partido mais votado nas regionais de 2020 e procura recuperar o governo regional que manteve durante mais de duas décadas ininterruptas, como o PSD, que desta vez se apresenta em listas conjuntas com os seus parceiros de governação CDS e PPM, procurarão garantir a maior bipolarização possível. E, no caso da coligação de centro-direita, será inevitável que se repita aos eleitores o argumento de que o Chega e a Iniciativa Liberal foram um obstáculo à governabilidade na região autónoma.."O que se passou nos Açores devia acender luzes vermelhas no PSD", adverte André Freire, sublinhando que a falta de disponibilidade dos deputados eleitos pelo Chega e pela Iniciativa Liberal para analisarem um novo Orçamento do executivo de José Manuel Bolieiro "é um sinal preocupante" que põe em causa a fiabilidade desses partidos enquanto parceiros de governação a nível nacional..Quanto ao confronto entre Luís Montenegro, que tentará pôr termo ao maior período de "jejum de poder" na história do PSD, e Pedro Nuno Santos, a quem cabe manter o ciclo de governação socialista que dura há mais de oito anos, José Adelino Maltez refere, recorrendo à experiência de professor universitário, que "nem todos os líderes podem ter média de 18", o que não impede que possa haver "lideranças duradouras com líderes de 14 valores". Apontando ao presidente do PSD e ao novo secretário-geral do PS "dificuldades na área da conversa" que se tornam evidentes quando comunicam com os portugueses, o catedrático jubilado vê no "fortíssimo na dialética e soundbite" André Ventura alguém que "ganharia por larga distância" um debate com os prováveis sucessores de António Costa..André Freire defende que o líder do Chega será um elemento importante no quadro político pós-legislativas, mas aponta-lhe um erro de estratégia. "Em vez de centrar a campanha na ida para o Governo, faria melhor em fazer parte da solução política no Parlamento, aproximando-se do PSD sem que Luís Montenegro perdesse a face". Até porque acredita que "a direita não vai perder a oportunidade de chegar ao poder e fazer a alternância"..Ainda assim, o professor catedrático do ISCTE diz ser ainda muito cedo para afirmar se é mais provável que o próximo primeiro-ministro será Pedro Nuno Santos ou Luís Montenegro, pois a campanha eleitoral vai contar bastante, com a "clarificação de posições e de alianças"..Quanto ao efeito da chegada do antigo articulador da geringonça à liderança dos socialistas, José Adelino Maltez recorre aos exemplos de Jorge Sampaio e de Ferro Rodrigues para dizer que "Pedros Nunos já o PS teve dois e ninguém reparou que tenha mudado assim tanto de personalidade"..Recém-eleito secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos talvez seja o sucessor que António Costa menos queria, mas consegue manter o partido crente de que pode continuar no poder, apesar do lastro de instabilidade governativa (ele próprio deixou de ser ministro devido à indemnização que foi paga à ex-administradora da TAP e secretária de Estado Alexandra Reis) e do escândalo da Operação Influencer, que ditou a demissão do primeiro-ministro. Muito forte junto do eleitorado de esquerda, tem a capacidade de fazer pontes com as forças partidárias da geringonça de 2015, podendo alargá-la aos mais recentes parceiros Livre e PAN..Com as duas dissoluções da Assembleia da República a marcarem o segundo mandato presidencial tanto quanto as selfies e os afetos marcaram o primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa enfrenta o momento mais definidor da sua passagem pelo Palácio de Belém. Como as hipóteses de maioria absoluta de qualquer partido ou coligação são ínfimas, os entendimentos necessários para a tomada de posse do XXIV Governo Constitucional, liderado por Pedro Nuno Santos, Luís Montenegro ou outra pessoa qualquer, implicarão que o Presidente promova uma solução que dê estabilidade e evite nova ida às urnas poucos meses mais tarde..A oportunidade de governar Portugal veio mais cedo do que Luís Montenegro esperava ao suceder a Rui Rio, mas o antigo líder parlamentar durante o Executivo de Passos Coelho sabe que joga tudo nestas legislativas. Tanto assim que elevou a fasquia no Congresso do PSD, garantindo que não será primeiro-ministro se não for o mais votado, ao invés do que António Costa fez em 2015, iniciando o longo ciclo de governação socialista. Tratou de aumentar as probabilidades de atingir esse objetivo ao fazer uma coligação pré-eleitoral com o CDS. Mas mesmo que o consiga terá de negociar com a Iniciativa Liberal e garantir o aval do Chega. Ou do PS..É provável que a percentagem vá diminuindo à medida que se aproximam as legislativas, mas cerca de dois em cada dez eleitores ainda não sabem em que partido irão votar. É para estes e estas que se irão dirigir todas as máquinas de propaganda, com ênfase na campanha do PS e do PSD. Além de terem o poder de definir qual dos dois partidos será o mais votado a 10 de março, os indecisos têm um papel decisivo para estabelecer se o bloco dos partidos de direita irá suplantar o bloco dos partidos de esquerda. E até onde chegará a progressão do Chega, Iniciativa Liberal e Livre, ou a recuperação do Bloco de Esquerda, PCP e PAN..Todos os que se queixam da habitual lentidão da justiça esperam que daqui até 10 de março não haja nenhuma reviravolta eleitoral devido às investigações do Ministério Público. Com ou sem parágrafo final do comunicado sobre a Operação Influencer, as eleições legislativas antecipadas foram provocadas pela demissão de António Costa. Qualquer desenvolvimento com impacto no ainda primeiro-ministro, ou qualquer outra investigação que incida sobre líderes partidários, tornará absolutamente decisiva a procuradora-geral Lucília Gago..Mais do que fazer vingar a ideia de que pode ser o próximo primeiro-ministro de Portugal, o que não se afigura possível à frente de um partido que as sondagens mantêm distante dos dois principais, André Ventura enfrenta o desafio de garantir que o reforço do Chega terá consequências práticas. Algo que tanto pode passar por ter números capazes de ser a borracha que apaga "linhas vermelhas" do PSD, viabilizando a sua governação, como em tirar aos sociais-democratas o protagonismo na oposição a um novo Governo socialista..Poucas semelhanças com o que sucedeu em Lisboa, nas autárquicas de 2021, é o que Rui Rocha deseja. Quando a Iniciativa Liberal se excluiu da coligação de centro-direita era improvável que Carlos Moedas conquistasse a maior autarquia portuguesa. Mas assim foi, sem os liberais elegerem sequer um vereador. Agora, se o PSD vencer as legislativas, é para os liberais que olhará primeiro, sobretudo se mantiverem ou alargarem a bancada, num sinal de que as medidas do programa eleitoral foram mais fortes do que as divisões internas..Ainda mais penalizados do que o ex-parceiro de "geringonça" PCP - não em votos, mas em mandatos - por chumbarem o Orçamento do Estado para 2022, os bloquistas esperam por um déjà vu da quebra sofrida em 2011. Nessa altura, Catarina Martins e João Semedo foram para o lugar de Francisco Louçã, e Mariana Mortágua conta agora ter um efeito idêntico na revitalização de um partido que precisa de recuperar o tempo perdido. Ainda que o novo líder do PS e a alternativa do Livre possam travar o crescimento do Bloco de Esquerda..Estará a chegar a hora de o Livre multiplicar o número de deputados, ainda que falte à esquerda europeísta e ecológica convencer os potenciais eleitores a não ouvirem o apelo ao voto útil no PS de Pedro Nuno Santos. Caso exista maioria à esquerda, o partido de Rui Tavares apresenta-se com a nova peça para qualquer eventual geringonça, sendo que o previsível reforço do que deverá passar a ser um grupo parlamentar não deve, desta vez, traduzir-se na repetição de um fenómeno desalinhado como Joacine Katar Moreira..Reduzido a apenas um mandato, o PAN quer capitalizar votos entre quem dá prioridade aos direitos dos animais. Para a porta-voz Inês de Sousa Real, que sofre contestação interna, joga-se o futuro à frente de um partido que tenta fugir da imagem de não ter propostas para lá do que mais anima o seu eleitorado. A seu favor, o trunfo de o centrismo do PAN ter permitido o acordo que sustenta o Governo Regional da Madeira e tornar plausível que viabilize tanto um Executivo de Pedro Nuno Santos quanto um de Luís Montenegro..A existência da Aliança Democrática, na qual o CDS se junta ao PSD, garante o regresso dos centristas à Assembleia da República, após o descalabro nas legislativas de 2022. Mas a recuperação do grupo parlamentar, ainda que reduzido ao ponto de ficar abaixo da fasquia do "partido do táxi" das maiorias absolutas do cavaquismo, não vem isenta de problemas. Nomeadamente o elevado risco de um partido que em 2011 estava acima dos 10% de votos ser visto como o "PEV do PSD", sem qualquer capacidade de eleger por si só..As notícias do desaparecimento do PCP na Madeira foram manifestamente exageradas, e o secretário-geral comunista quer voltar a contrariar as sondagens no dia 10 de março. Apesar da erosão do eleitorado tradicional, do efeito das posições do antecessor sobre a invasão da Ucrânia e da transferência de votos para outras paragens, a recuperação eleitoral do partido centenário é a prova de fogo que Paulo Raimundo pretende superar. Sobretudo se esses eleitos forem essenciais para viabilizar um futuro Governo socialista.