Hitler. Uma entrevista abortada mas histórica

Irene Flunser Pimentel escreve sobre a entrevista histórica de António Ferro a Adolfo Hitler.

No dia 23 de novembro de 1930, o Diário de Notícias publicou na primeira página, com o título chamativo "Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler, chefe dos nacionais-socialistas". O autor era o jornalista António Ferro, apreciador de ditadores, que havia publicado, três anos antes, o livro Viagem à Volta das Ditaduras, para o qual entrevistara Primo de Rivera (Espanha), Benito Mussolini (Itália) e Mustafa Kemal Atatürk (Turquia). Ferro teve a iniciativa de se deslocar nesse mês de novembro a Munique para entrevistar o então chefe do Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, NSDAP), na oposição, mas um populista racista e antissemita já muito popular.

Apesar da sua visão prospetiva do que iria ser o futuro ditador da Alemanha nazi, a entrevista foi quase um fiasco, pois reduziu-se apenas a breves respostas a três "perguntas rápidas e expressivas" previamente apresentados por António Ferro, após várias atribulações e negas. Hoje, a entrevista faz parte do património jornalístico português e não só, além de ser uma fonte histórica, precisamente devido às respostas lacónicas do futuro chanceler da Alemanha (em 1933), contextualizadas em 1930. Hitler caracterizou então o seu partido como popular(ista) e nacionalista ("a Alemanha aos alemães"), cujo principal argumento propagandístico à época era o combate às reparações contra a Alemanha decididas pelo Tratado de Versalhes.

Após descrever como lhe surgiu Hitler, de "fato azul, simples, de qualquer alfaiate, colarinho mole, olhos azuis, alucinados, um bigode curto à Charlot, um nariz que arremete", Ferro não deixou de o comparar a "um boneco de loiça, de uma faiança de Copenhaga ou de Viena". À primeira pergunta de Ferro, Hitler responde: "É o partido da paz, mas não da paz de Versalhes!" Lembre-se que, um ano antes, em 1929, os alemães tinham votado por grande maioria, num referendo para repudiar o pagamento de reparações de guerra estipulados no Tratado de Versalhes.

A segunda pergunta, sugerida a Ferro por Hanfstaengl, assessor de imprensa internacional de Hitler, que lhe possibilitou a entrevista, foi relativa ao facto de muitos comunistas terem ingressado, após as eleições de setembro de 1930, no Partido Nazi. Este conquistara 18,3% dos votos e 107 assentos no Reichstag, tornando -se na segunda maior bancada parlamentar, depois do Partido Zentrum, de Heinrich Brüning . Com as mãos no bolso, de pé, Hitler nega, esclarecendo que os "nacionais-socialistas são os maiores inimigos de Moscovo". Finalmente à derradeira pergunta, o chefe caracteriza o seu partido como o de "alemães apenas" que desejavam "a Alemanha para os alemães!".

Mas, a entrevista de Ferro é sobretudo sobre o seu intermediário para chegar a Hitler, o bávaro Ernst Sedgwick Hanfstaengl ("Putzi"), apresentando-se como historiador, mas que é na realidade o assessor de imprensa internacional do chefe. Descrito como "um (bom) gigante loiro", Hanfstaengl começou por sujeitar o jornalista português a um interrogatório, insistindo em visitar o seu quarto no Hotel Regina. Ao pedir a Ferro para autografar um exemplar do seu livro Viagem à Volta das Ditaduras, sugerindo a Ferro que escrevesse "A Adolfo Hitler, com a máxima admiração", afirmou que o chefe não dava entrevistas, e muito menos em francês. Autorizou, porém, Ferro a formular três "perguntas fundamentais para a sua reportagem", uma das quais sugerida pelo próprio Hanfstaengl.

Ambos se dirigiram depois ao Café Heck, dos "camisas castanhas", onde Ferro foi surpreendido com a entrada repentina do chefe, pois era "a hora das anedotas, uma hora que Hitler não dispensa por gostar dos boatos que correm". À pergunta de Ferro sobre se este Hitler era casado, Hanfstaengl responde "Il n"aime pas les femmes", esclarecendo que ele "admira e respeita as mulheres, mas renuncia a todas as ligações, ligações sentimentais ou de qualquer ordem, por amor da Alemanha". Terá António Ferro sugerido mais tarde a Salazar, como seu homem da propaganda, para que este desse a entender o mesmo e que estaria casado com Portugal?

Após uma passagem pelo fotógrafo oficial de Hitler, Hoffmann, estúdio onde trabalhou Eva Braun, que viria a ser a mulher de Hitler por um dia, antes de ambos se suicidarem, em maio de 1945, Ferro e Hanfstaengl deslocaram-se à sede provisória do Partido Nazi, onde ocorreu o breve encontro com Hitler. Após quatro horas, vividas "em boa camaradagem", os dois despediram-se, não sem que Hanfstaengl pedisse a Ferro que não o deixasse ficar mal, pois "o chefe confia em mim e eu tenho muitos inimigos no partido". Era um facto, pois Hanfstaengl viria a ser afastado, em 1934, devido à rivalidade do ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, e, após várias vicissitudes, fugiria da Alemanha, onde só regressaria em 1946. Com o remorso de não poder escrever uma "coisa entusiástica" para o chefe, António Ferro questiona, no entanto: "Que maior homenagem posso eu prestar, afinal, a Hanfstaengl, ao "historiador" (...)? Não é assim que se faz história? Talvez não. Mas é assim, pelo menos, que se faz jornalismo".

Para a história, Hitler concorreria, em 1932, nas eleições presidenciais contra Paul von Hindenburg, terminando em segundo lugar, com cerca de 36% dos votos, no mesmo ano em que António Ferro, que acompanhava o ar do tempo das ditaduras europeias, seria também o primeiro, tal como o fora a entrevistar Hitler, a recolher o testemunho do novo chefe do governo português, António Oliveira Salazar. Este terá certamente gostado das entrevistas de Ferro, publicadas também no DN e depois em livro, a ponto de nomear o entrevistador para chefiar o Secretariado de Propaganda Nacional.

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