O mundo precisa da Europa

A opinião de Jean-Claude Juncker.

Com a chegada de um novo ano, o rumo futuro da União Europeia nunca foi tão importante, tanto para a Europa quanto para o resto do mundo. Nestes tempos cada vez mais tumultuosos, a União Europeia (UE) pode proporcionar a estabilidade e a esperança de que o mundo necessita tão desesperadamente.

Durante décadas, a Europa tem sido o exemplo de integração e cooperação num mundo fragmentado. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o continente tem sido a prova viva de que o multilateralismo funciona. O passado conturbado da Europa deu lugar a uma paz que durou sete décadas e a uma União de quinhentos milhões de cidadãos que vivem em liberdade e prosperidade. A todos os títulos, a Europa é agora o lugar mais tolerante, livre e igualitário para se viver em qualquer parte do mundo.

Mas a UE não é um dado adquirido. A paz não é inevitável e a guerra não é implausível. O ano de 2018 marcou o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, cujas lições ainda devem ser escutadas. Os europeus de 1913 pensavam que a guerra era impossível, que estavam muito interligados para se voltarem uns contra os outros. Nós, europeus, temos uma grande tradição de ignorar premonições de ruína, para nossa desgraça.

Dada esta história, o atual ressurgimento de um tipo perigoso de nacionalismo deve fazer soar alarmes por todo o nosso continente. Acredito que devemos às gerações passadas, presentes e futuras lutar contra o nacionalismo descontrolado com todas as nossas forças.

Isso significa pôr a nossa própria casa em ordem, particularmente na frente económica, aumentando o investimento através de novas formas de parcerias públicas e privadas. Além disso, para reduzir o risco em toda a UE, precisamos de corrigir o nosso setor bancário. Isso significa reforçar uma zona euro forte e estável e aprofundar a União Económica e Monetária. Significa também não esperar pela próxima crise, mas sim trabalhar proativamente para tornar a UE mais unida e democrática do que nunca.

Além disso, combater o nacionalismo em casa significa tomar as rédeas do nosso próprio destino. E, no entanto, num mundo globalizado, a Europa não pode garantir os seus interesses e valores sozinha. Da migração e segurança às novas tecnologias e pressões ecológicas, os desafios coletivos que enfrentamos multiplicam-se todos os dias. À medida que as divisões dentro das sociedades e entre os países se aprofundam, torna-se cada vez mais forte o imperativo de trabalharmos em conjunto.

Ao cooperar com amigos de todo o mundo, os Estados membros da Europa podem tornar-se mais resilientes, tanto individual como coletivamente. É chegada a hora de oferecer uma liderança global responsável. É chegada a hora de renovar e redefinir os laços que ligam os países em todo o mundo, como estamos a fazer dentro da nossa União. A nossa marca de liderança não é sobre pôr a Europa Primeiro. Ao contrário, trata-se de sermos os primeiros a responder ao apelo por uma liderança quando isso é importante.

A Europa continua a dar um exemplo global como uma região que defende o valor da solidariedade global. Em 2016, a Europa ofereceu asilo a três vezes mais refugiados do que os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália juntos. E durante anos, a Europa proporcionou mais de metade do desenvolvimento e da ajuda humanitária mundiais.

Para a Europa, a liderança global responsável também significa estabelecer padrões justos. Somente colocando as pessoas e os seus direitos no coração do admirável mundo novo digital podemos garantir que o progresso tecnológico sirva o nosso povo, assim como o nosso planeta. Seja negociando o acordo climático de Paris, um acordo com o Irão para suspender o seu programa nuclear, livrando os nossos oceanos do plástico nocivo ou definindo padrões de proteção de dados, a UE está a liderar a abordagem aos problemas mais urgentes do mundo.

Afinal, a cooperação está no nosso ADN. Os países europeus simplesmente não têm o poder de moldar os assuntos globais a nível individual, e isso não vai mudar. Até 2060, nenhum país europeu terá mais de 1% da população mundial. Os europeus devem, portanto, continuar a unir e partilhar a sua soberania nacional, com o objetivo de estabelecer uma soberania comum mais forte para todos. Como membros do maior mercado único do mundo, que representa um quinto da economia global, cada país da UE está em melhor posição para defender os seus interesses nacionais e para moldar os acontecimentos globais do que estaria sozinho.

Olhando para o futuro, a nossa tarefa é fortalecer ainda mais essa soberania europeia. Isso significa falar com uma só voz, manter os nossos valores e cumprir com os nossos cidadãos para lá das eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019.

A história não se repete, mas muitas vezes rima. O mundo já esteve dividido antes e vimos como isso pode levar à pobreza, à discórdia e à guerra. Os europeus conhecem muito bem este padrão, ou deveriam conhecer. Portanto, devemos lutar contra os populistas deste mundo, aqueles que vendem a falsa esperança de novos amanheceres e aqueles que substituem factos por ficção e evocam antigos e novos "inimigos".

A Europa deve fornecer o contrapeso a estas tendências, demonstrando que ainda podemos defender o compromisso e o consenso superando a política dos homens fortes. O que o mundo precisa agora é de justiça e progresso. O mundo precisa da Europa.

Presidente da Comissão Europeia

© Project Syndicate, 2018

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