Não vai correr tudo bem

Terminada a convenção trumpiana, são vários os sinais que antecipam uma campanha suja, uma eleição disputada e um período pós-eleitoral caótico. Tudo feridas abertas numa América a ferro e fogo. Se Trump foi um sintoma de algumas delas, hoje é a causa de outras tantas.

Na convenção republicana de 2016, Donald Trump usou o medo das ameaças externas como instrumento eleitoral preferencial numa América, segundo ele, desprotegida, insegura e derrotada. Os alvos eram então as vagas de imigrantes ilegais e o ISIS, os primeiros acusados de disseminar crime e narcotráfico, os segundos de aterrorizar a sociedade americana. Depois juntou-lhe a soberba de Hillary Clinton, as divisões entre os democratas na cintura industrial do Midwest, o fator russo e mais um par de ambições hiperbólicas em redor do excecionalismo americano e foi por ali fora até à vitória final. Na altura, esse nós versus eles criou a corrente indispensável numa falange em crescendo de raiva, capaz de transformar a ira em votos decisivos no colégio eleitoral.

Hoje, terminada a convenção de um partido transformado num culto cego ao trumpismo, essa receita passou a nós versus nós. A tese é simples: Joe Biden e a plataforma democrata são agora a grande ameaça à América, entretanto barricada na trincheira trumpiana, aproveitando-se da pandemia e de uma agenda marxista para forçarem a desintegração da pura e excecional identidade americana, confundida exclusivamente com os valores do conservadorismo radical. Não foi à toa que Mike Pompeo, em violação aberta da lei das incompatibilidades entre cargos executivos e ações de campanha partidária, fez a sua intervenção à convenção a partir de Jerusalém, para gáudio da plateia evangélica, base essencial de Trump e de Mike Pence em 2016 e seguramente no próximo mês de novembro.

A impunidade é, aliás, uma das características principais desta convenção, com a Casa Branca a servir de pátio a comícios partidários como nunca se vira anteriormente. A mistura entre a função presidencial e a de candidato a presidente é propositada, dando a ideia de que Trump é novamente alguém que desafia o cânone, as instituições e as regras. Tudo do agrado de quem nunca se afastou dele nestes quatro anos e que vive na dinâmica apocalíptica permanente, fomentada pelo presidente. A fórmula encontrada no meio de uma pandemia - que mata mais de mil americanos por dia, levou 50 milhões ao desemprego e pôs o país no topo das mortes e infeções acumuladas - é a de reavivar a estratégia do homem providencial antissistémico, que está na política para proteger os seus e não os outros, estes reféns de uma elite corrompida, alimentada por uma comunicação social mentirosa, convictamente globalista e, dessa forma, antiamericana. Regressar a esta tese é espicaçar a memória dos que exultaram em 2016, é mobilizar medo e raiva na altura do voto, é fugir à responsabilidade política pela gestão danosa da pandemia, atribuindo culpas a tudo e todos, dentro e fora de portas. É criar o cerco indispensável à propagação das teorias conspirativas, sejam elas sobre o vírus, o marxismo, a imigração, os antifa ou outro tema que circunstancialmente dê jeito. Milhões de americanos (e não só) estão viciados nesta corrente ideológica e daqui não vão sair.

A convenção espalhou fanatismos vários, nepotismo endémico e uma bolha administrativa propositada. A covid continua a ser um vírus chinês para destruir a economia e a saúde dos americanos, embora o dramatismo dos números não tenha merecido qualquer comoção pelos principais oradores. Bastou ver a plateia no discurso de encerramento de Trump para percebermos que ninguém cumpre regras de distanciamento mínimo ou uso da máscara. 180 mil mortos e milhões de desempregados não são suficientes para merecerem prioridade discursiva ou medidas práticas sérias, num partido que controla o executivo e o Senado, e que tem o vice-presidente à frente da task force responsável pela resposta à maior crise do pós-guerra. Nada disto parece tirar-lhes o sono: a ameaça é unicamente Joe Biden.

No meio desta distopia em curso, dois pontos merecem ainda relevância. O primeiro é a importância que teimamos em dar às sondagens nacionais a dois meses das eleições. Elas devem ser colocadas no devido lugar. Biden tem, à saída da convenção democrata, oito pontos percentuais de vantagem, tal como Hillary Clinton em 2016. Em 1988, Michael Dukakis tinha 17 em relação a Bush pai. Como sabemos, nem Clinton nem Dukakis venceram. E, mesmo nalguns estados decisivos (Wisconsin, Pensilvânia, Michigan, Florida, Ohio) em que a vantagem de Biden parece estável e assinalável, isso não deve levar-nos a tirar conclusões apressadas. Basta lembrar que Clinton tinha ainda melhores registos por esta altura há quatro anos, tendo isso sido revertido por Trump, que fez o pleno naqueles cinco estados. O importante é que Biden não cometa os erros da sua antecessora, não desvalorize a campanha local, os eleitores e a construção de uma mensagem assertiva. É que Trump tem a vantagem de desprezar as regras básicas da pandemia, o que lhe permite ir para o terreno sem limitações.

O segundo ponto remete igualmente para a falta de travões na espiral irracional em que esta campanha já mergulhou, antevendo uma derrota republicana. Ponto central no discurso de Trump foi o de estarmos na presença de uma eleição manipulada pelos democratas e dificilmente reconhecida se Biden vencer. Este clima totalitário de apego ao poder e de anarquia até novembro é um tiro na saúde democrática e na credibilidade institucional dos EUA, cujo principal defensor deveria ser o presidente em exercício. Mais uma vez, Trump não quer saber desse estatuto, substituindo-o pelo de desafiador a um cargo que ocupa.

A antevisão de uma campanha só de casos, sem discussão de políticas públicas para enfrentar a crise, com um presidente de fação sem um pingo de vontade em fazer pontes, que prefere proteger a arbitrariedade da violência policial a manifestar qualquer solidariedade com as vítimas mortais da crescente ameaça supremacista branca, é tão-só a antecâmara do que aí virá: derrotado, Trump mergulhará a América no caos judicial, em cima de feridas sociais profundas; se vencer, Trump agravará a agressividade e a arrogância contra todos os que lhe fizeram frente, enterrando definitivamente o país neste fosso que o alimenta.

Não vai correr tudo bem.

Investigador universitário

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG