Transformar derrotas em vitórias?

O Orçamento chumbou. Costa perdeu ou Costa ganhou? Costa continuou a falar para a esquerda até ao último segundo, durante o debate que antecedeu a votação na generalidade do Orçamento do Estado 2022, ontem no parlamento. "Basta que a esquerda do PS não some os seus votos aos votos da direita para que o Orçamento possa ser viabilizado", lançou António Costa em jeito provocador. De nada valeu. O chumbo estava anunciado e confirmou-se. Ninguém cedeu. Como num duelo automóvel, em que dois carros correm a alta velocidade um contra o outro, nenhum cedeu, nenhum se desviou do caminho.

O primeiro-ministro disse que o chumbo do Orçamento não será só uma frustração pessoal, como admitiu ser uma "derrota pessoal". Será? Ou tratar-se-á antes de uma derrota que Costa quer transformar numa vitória? "A direita fechou para obras e manifestamente não é ainda uma alternativa à governação do país", atirou, e já em jeito de campanha eleitoral, o líder do PS acrescentando: "Confio que esta vitória da direita seja de Pirro e que isso se possa converter numa maioria reforçada, estável e duradoura." No governo e no PS são muitos os que acreditam que poderão sair reforçados de tudo isto. Será? Com o desgaste que a crise política e pandémica provocou, com a forma como o executivo se colou à esquerda e com a crise dos combustíveis a penalizar as famílias e as empresas, vai o governo socialista dar a volta por cima e ganhar popularidade? António Costa parece ter sete vidas e muita tática política, mas tal como o partido também o país está dividido.

O chefe do governo aceitará a decisão do Presidente da República, como sublinhou, mas não perdeu tempo a fazer passar mais uma mensagem eleitoral: "Somos e seremos o referencial de estabilidade, que garante condições de governabilidade, por mais adversas que elas sejam."

Para já, a adversidade chama-se chumbo do OE 2022, pela conjugação dos votos contra de PSD, BE, PCP, CDS, PEV, IL e Chega (117 votos). O PS (108 votos) votou a favor, sozinho. O PAN absteve-se, bem como as deputadas não inscritas Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues, num total de cinco abstenções. Após o chumbo, o primeiro-ministro, ladeado de todos os membros do governo que com ele participaram no debate parlamentar, disse sentir-se de "consciência tranquila e cabeça erguida". Tranquilidade é característica que não tem predominado nas últimas semanas nesta democracia e ninguém fica bem nesta fotografia da família desavinda.

A dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições antecipadas estão à vista, segundo o Presidente da República. Resta governar em duodécimos até que cheguem as eleições. Depois? Bom, depois "dança-se com quem está na roda", disse o Presidente da República, que pretende "devolver a palavra aos portugueses", ou seja, ir para eleições. Neste entretanto, o país perde tempo, fica a gerir contas do dia-a-dia e não aproveita em plenitude o Plano de Recuperação e Resiliência nos primeiros meses do ano que vem. Mau calendário para uma crise política.

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