Para combater os populistas temos de banir a superioridade moral na política

A afirmação de um populista começa pela afirmação de uma superioridade moral, da sua condição de representante do povo contra as elites ou sistema. Mas esta superioridade não é apenas uma característica que populistas xenófobos, nacionalistas, homofóbicos, justicialistas, estalinistas ou anticapitalistas têm em comum, como se fosse uma consequência. Pelo contrário, o populismo é que é a consequência da moralização do debate político nas últimas décadas.

Falo dos tempos em que uma privatização, uma redução do défice ou uma reforma da segurança social deixaram de valer pelos seus méritos para passar a desempenhar um papel instrumental numa narrativa em que se digladiam os bons e os maus. Falo dos tempos em que a austeridade foi tida como opção ideológica, propositada, maléfica, imposta por elites ou sistemas. Falo destes tempos em que, da direita à esquerda, a caminho da crise ou procurando sair dela, se voltou a ouvir falar do dinheiro fácil, soluções rápidas, simples, vagas, que só não são adotadas por maldade. Tudo isto andou a ser dito pelos partidos ditos do sistema, moderados.

Falo dos tempos em que os partidos à esquerda equipararam as fronteiras do aceitável às fronteiras do seu próprio pensamento, e desataram a chamar extrema-direita a tudo o que lhes soasse divergente, como se todas as pessoas de bem tivessem a obrigação de concordar com eles. Não se trata só das questões fraturantes, como se as objeções às barrigas de aluguer fossem automaticamente gritos cavernosos de homofobia, mas também de questões políticas, como se defender um SNS combinando público e privado fosse para favorecer ricos ou como se reformas do arrendamento fossem para ajudar fundos imobiliários.

Falo dos tempos em que os partidos à direita equipararam as fronteiras da economia de mercado às fronteiras do politicamente aceitável e desataram a chamar extrema-esquerda a tudo o que propusesse uma reforma da economia de mercado. Não se trata só das questões económicas, como se as objeções ao capitalismo tivessem de visar uma ordem altermundista, mas também de questões políticas, como se uma crítica à União Europeia, uma preocupação quanto à imigração, uma revolta contra o seu intervencionismo, fosse um ataque próprio de xenófobos ou comunistas.

E não vale dizer que o outro lado começou primeiro. É absurdo legitimar os intoleráveis Trump ou Bolsonaro porque procuram reagir ao discurso de segmentação identitária da esquerda descrita por Tony Judt em Edge People. A essa moralização não se reage com contramoralização.


Têm sido estes os tempos no debate político ocidental. E não há inocentes. Sendo de direita, sou mais sensível à moralização imposta pela esquerda, mas leitores de esquerda conseguirão lembrar-se de exemplos vindos da direita. Há décadas que os republicanos americanos são equiparados a Hitler, assim como Passos Coelho foi chamado de salazarista. Tem isto sentido? Posso aceitar que a admiração por Thatcher seja tida como nazismo por gente de Che Guevara estampado na T-shirt? Que sistema político se cria com partidos a imputar intenções maléficas aos media ou a reguladores independentes? E como pudemos achar normal que um ministro dissesse que gostava de malhar na direita e falasse em jornalismo de sarjeta, enquanto o primeiro-ministro confundia oposição com cabalas?

E não vale dizer que o outro lado começou primeiro. É absurdo legitimar os intoleráveis Trump ou Bolsonaro porque procuram reagir ao discurso de segmentação identitária da esquerda descrita por Tony Judt em Edge People. A essa moralização não se reage com contramoralização, como se ao feminismo tivesse de contrapor-se o machismo. Mas se acho absurda essa legitimação, porque é a pessoa que em si mesma encerra toda a legitimidade, só por milagre se podia esperar que a uma moralização se não seguisse a contramoralização.

Mas o que importa registar é que estes tempos de moralização política são prévios aos populismos. Quando Pablo Iglesias se afirmou "de la gente" contra os partidos "de la casta", estava a expressar aquilo que muita esquerda já dizia sobre a direita. Quando Le Pen se apresentou como a "patriote" contra os "mondialismes", estava a expressar o que muita direita já dizia sobre a esquerda. Kaczyński diz representar os verdadeiros polacos, mas é isso diferente de acusar um primeiro-ministro de ser mais alemão do que português? "Guys at Goldman Sachs (...) have total control over Hillary", dizia Trump. E não é isso que alguma esquerda anda há anos a dizer sobre a direita? Salvini diz que não muda o Orçamento nem que Bruxelas mande, mas será isso diferente de dizer que não pagamos e que os alemães até tremem?

Os populistas limitaram-se a aproveitar uma brecha moral que foi aberta antes deles, e que eu classifico de protopopulismo. Sim, há muito que o panorama político ocidental está cheio de protopopulismo, vindo dos partidos tidos como moderados. Ora, como recorda Anne Aplebaum em The Dangerous Promise of Populism: Free Money, o populismo fracassado leva ao populismo radical. E foi isso mesmo: o protopopulismo abriu as portas aos populistas radicais. Quando eles apareceram, com ideias velhas e que haviam sido minoritárias durante décadas, o que é que encontraram?

Encontraram as classificações radicais banalizadas. Quando tudo é fascismo, nada é fascismo. Mas não só. Encontraram uma sociedade aclimatada à discussão moral, a olhar para problemas complexos de forma binária, a achar que duas leis resolveriam a miséria, a ver o sistema político como uma divisão entre bons e maus, países aliados como inimigos. Querem caldo melhor para o populismo do que uma sociedade polarizada moralmente, que encara como possível que gente normal esteja ao serviço de um mal obscuro e que a imprensa esteja alinhada? E a polarização moral atinge a sociedade, dividindo-a, obrigando as pessoas a tomar partido, radicalizando-se. Inès Arrimadas, na Catalunha, refere que o independentismo larvar "ha generado un conflicto entre catalanes, entre vecinos, entre amigos, entre familiares". Há lá pretexto melhor para um populismo mentiroso e simplista do que uma sociedade pulverizada, desconfiada de si mesma?

E o que fizeram os populistas neste cenário? Tomaram posição moral, radical, reforçando a polarização que encontraram, utilizando-a como instrumento de destruição da democracia. Porquê? Porque esta superioridade moral deslegitima o adversário: este deixa de ser um opositor, alguém com propostas diferentes, para passar a ser um inimigo, um traidor. Se um partido está ao serviço de la casta, ou não é "patriote", podemos reconhecer-lhe legitimidade?

É preciso que a esquerda e direita moderadas saibam converter os seus discursos em projetos aspiracionais, motivadores, que valham por si.


Se qualquer sinal de discordância ou resistência, mesmo vindo de tribunais ou comunicação social, é visto como traição, um ataque à pátria, então torna-se legítima a sua supressão ou o seu ataque público. Por isso, Jan-Werner Müller usa a expressão "antipluralistas" para definir os populistas, porque o propósito da sua afirmação como porta-vozes "de la gente" é enfraquecer as instituições sociais ou políticas que lhes façam frente. Foi o que fez Maduro, ao criar a Assembleia Nacional Constituinte para anular a Assembleia Nacional. Ou o que fez Orbán ao fechar o jornal Népszabadság. Ou o que fez o PT falando de golpe a propósito do funcionamento da justiça. E não é preciso estar no poder. A Front National e a AfD alemã não estão no poder, mas o desdém com que tratam a comunicação social é paradigmático.

Dir-se-ia que a sociedade, que deveria estar atenta, poderia impedir estas movimentações. Poderia, se não tivesse, entretanto, sido intoxicada com propaganda e teorias de conspiração próprias de uma sociedade que foi levada a pensar que o adversário, mesmo quando moderado, é um traidor, ou que a imprensa é jornalismo de sarjeta. Aquilo que estamos a construir é uma sociedade que não respeita os adversários nem a comunicação social nem as instituições do sistema democrático e pouco sensível à verdade. Não é animador.

Se queremos combater o populismo, temos de começar por banir a superioridade moral do debate, e é um erro pensar que o populismo está indelevelmente associado a desigualdades, a pobreza, e que a empreitada que temos pela frente é meramente económica. Há populismo de classes mesmo onde não há pobreza, assim como há populismo nacionalista onde não há imigração. Isto não significa que as condições económicas sejam irrelevantes. Significa que não são determinantes. Significa que, se quisermos ir por aí, teremos sempre justificação para o populismo porque nunca deixaremos de ter razões de queixa económicas. O problema do populismo é moral, não é económico.

E como é que se faz este combate?
Desde logo, repito, banindo a polarização moral do nosso discurso político, e sendo implacáveis com quem procura pô-la em prática, desmascarando os seus autores, expondo a mentira da sua presunção. Também a imprensa, nos seus vários meios, deve interessar-se por este moralismo, sindicando-o, confrontando-o, expondo as suas mentiras. Não é fácil, porque a superioridade moral anda há anos a pairar no discurso e já nos habituámos a ela. Mas se não a travarmos, mesmo quando vem de gente que consideramos e que não achamos populista, rapidamente aparecerá quem lhe vai fazer pior uso. E é preciso chegar aos populistas, sim, artilhados, expor as mentiras uma a uma, e isso não se faz com líderes cheios de adversativas na hora de defender o sistema democrático ou o mundo global em que vivemos. Se não há quem assuma este mundo global sem medos, por que razão irão as pessoas acreditar nele?

É preciso que a esquerda e a direita moderadas saibam converter os seus discursos em projetos aspiracionais, motivadores, que valham por si. Ao medo, à nostalgia e ao identitarismo deve responder-se com liderança, confiança, vigor e a noção de que representamos algo por que vale a pena lutar, que não meros gestores do que existe. Não deixando que os nacionalistas se apropriem da noção de povo, de pátria, de gente, é preciso estabelecer uma ligação próxima com as pessoas. Se houve quem votou em Obama e depois em Trump, ou se houve quem votou em Lula e depois em Bolsonaro, projetos tão díspares, então é porque o essencial não está tanto nas ideias, mas antes na liderança, na convicção, na inspiração.

É também essencial que os partidos moderados se empenhem no reforço das instituições do sistema democrático, mesmo quando em desacordo.

Se um sistema se torna fraco, e os moderados se entretiverem em polarização moral, ganharão os populistas.



Advogado e vice-presidente do CDS

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