A verdade da mentira

Com a eleição de Bolsonaro, com o brexit em autoflagelação, e Trump nos EUA, os três principais aliados atlânticos de Portugal estão numa perigosa deriva etnocêntrica, onde a mentira passou a definir o roteiro do sucesso eleitoral. Estamos preparados para lutar pela verdade?

Em 2012, estava Donald Trump a brincar aos reality shows na televisão, quando lhe apeteceu relançar no Twitter a suspeita, agora vinda de uma "fonte extremamente credível", sobre a veracidade do certificado de nascimento de Obama, insistindo na ideia de que ele não tinha nascido nos EUA, logo não passava de uma fraude na Casa Branca.

Em 2014, novamente no Twitter, chegou mesmo a pedir a "todosos hackers" que encontrassem os registos universitários para confrontar os seus dados com o certificado de nascimento do então presidente americano. Durante cerca de quatro anos essa suspeição descabida fez o seu caminho, desgastou a imprensa e a administração em volta de uma argumentação fantasiosa, mas foi o suficiente para alimentar uma multidão ávida de mais uma teoria da conspiração que orientasse o seu espírito numa irredutível grelha de ódio contra Obama. Lançada a mentira, satisfeito o espírito, aguçado o ódio, tornou-se impossível reconhecer coletivamente o erro e assumir a verdade. A mentira já os tinha cegado.

Claro que Trump nunca se retratou, nem procurou alguma vez polir o seu argumentário político, muito menos quando se tornou possível ganhar as presidenciais atraindo eleitores dispostos a acolher, de forma totalmente acrítica, atoardas, mentiras e teses conspirativas.

O resto da história já sabemos: a receita teve sucesso - como já sucedera no referendo do brexit - e tornou-se inspiradora. Pior, tornou-se a grelha do exercício de poder presidencial, agravada nestes dois anos pela nomeação sem tréguas de um conjunto de inimigos figadais. Quem? Os chamados "globalistas", rostos e instituições que protagonizaram, nas últimas duas décadas, políticas públicas progressistas, um cosmopolitismo ideológico e uma política externa internacionalista. Ou seja, e à cabeça, os Clinton, Obama e a grande imprensa da costa leste.

Nesta semana, Trump esteve numa ação de campanha no Texas, dois dias antes da descoberta dos engenhos explosivos destinados a dois ex-presidentes democratas, uma candidata à Casa Branca pelo partido democrata, um antigo diretor da CIA nomeado por um presidente democrata, e à maior cadeia de televisão do mundo, apelidada de "inimigo do povo" pelo atual presidente.

Em Houston, num discurso de apoio à disputada reeleição do senador Ted Cruz, Trump disse: "um globalista quer que o mundo esteja bem, sem se preocupar com o nosso país. Eu sou um nacionalista. Usem essa palavra, nacionalista", colando aos seus adversários (ou inimigos, melhor dizendo) expressões como "corrupção" e "sede de poder".

Todos nós podemos passar um, dois, quatro ou até oito anos a "tentar perceber" o que está na génese do trumpismo ou do bolsonarismo para "irmos às raízes" do problema e sermos capazes de o reverter, mas enquanto estamos obcecados com o ângulo sociológico, perdemos a batalha política: a da luta incessante pela verdade.

O ponto aqui não é se existem ou não corruptos e gananciosos entre os democratas (claro que os há), mas expurgar de qualquer vício o lado afeto a Trump. Melhor dizendo: moralizar até ao limite da hipocrisia a pureza discursiva, fazendo um policiamento ético ao outro lado da trincheira sem um pingo de vergonha na cara.

Qualquer investigação ou acusação de evasão fiscal, tráfico de influências, nepotismo ou abuso de poder que recaia sobre Trump não tem adesão à realidade para os seus eleitores indefetíveis: juntamente com o presidente foram capazes de redefinir uma realidade paralela em que acreditam ferozmente, devorando sem apelo nem agravo todas as críticas que justamente merecem.

Todos nós podemos passar um, dois, quatro ou até oito anos a "tentar perceber" o que está na génese do trumpismo ou do bolsonarismo para "irmos às raízes" do problema e sermos capazes de o reverter, mas enquanto estamos obcecados com o ângulo sociológico, perdemos a batalha política: a da luta incessante pela verdade. Como diz a Michiko Kakutani em The Death of Truth, "sem verdade, a democracia é coxa".

A verdade dos factos que são avassaladoramente manipulados e postos maciçamente a circular pelas redes sociais sem qualquer filtro, formando e formatando opções de voto decisivas. Para isso precisamos de recentrar a credibilidade da imprensa tradicional no espaço público. A verdade na conduta dos políticos e titulares de cargos públicos que estão contra o nacionalismo, sem telhados de vidro ou esqueletos no armário. Para isso precisamos de um código deontológico da ação política.

E a verdade por um civismo mediático que ponha de lado o tribalismo e a futebolização do prime time televisivo, corresponsáveis por um clima tóxico e intolerante de contágio social. Ao contrário do que muitos pensam, as palavras e os mensageiros contam e muito.

A verdade das propostas eleitorais, analisadas na sua exequibilidade quantitativa por uma entidade fiscalizadora, como existe na Holanda, filtrando a intrujice, o eleitoralismo barato e pugnando a relação entre partidos e cidadãos pela responsabilidade e seriedade. A verdade de assumir a coragem indispensável entre aqueles que não aceitam reverter os princípios estruturais das democracias liberais, nem serem ultrapassados por demagogos que prometem o regresso ao medievalismo identitário.

A verdade entre líderes de opinião, analistas e académicos, para que abdiquem das suas mesquinhas agendas privadas e façam do debate público um campo de seriedade intelectual. E a verdade por um civismo mediático que ponha de lado o tribalismo e a futebolização do prime time televisivo, corresponsáveis por um clima tóxico e intolerante de contágio social. Ao contrário do que muitos pensam, as palavras e os mensageiros contam e muito.

A argumentação de Trump, incendiária e propositadamente divisionista, legitima desde o topo das instituições americanas uma grelha à mercê de qualquer destravado que se veja representado e motivado a dar o corpo às balas. No fundo, ser o herói incógnito da república contra os inimigos da pátria, sair do anonimato para o estrelato, idolatrado pela turba que o desculpará em nome de um bem maior: o da sua própria versão da realidade.

Depois do que aconteceu nesta semana nos EUA, parece evidente que nem a responsabilidade política conquistou terreno nem o nível da comunicação presidencial sofreu qualquer alteração. Não há, muito menos numa campanha eleitoral decisiva para a segunda metade do mandato presidencial, qualquer sinal de retração na agressividade da mensagem política, na identificação dos inimigos e no rumo comunicacional a seguir.

O Brasil não tem o mesmo impacto na política internacional do que os EUA, mas é fundamental nas dinâmicas da América Latina e, para Portugal, um aliado sanguíneo, o que não quer dizer necessariamente indefetível. Só por isso, o protagonismo que damos a estas eleições brasileiras já teria justificação. Porém, há muito mais em jogo: a reversibilidade democrática e o ressabiamento criminoso sistémico. Centrei propositadamente este artigo no ambiente político e social americano, para chegar a uma conclusão impiedosa: comparado com Bolsonaro, Trump não passa de um menino de coro. Preparemo-nos.

Investigador universitário

Texto escrito para a edição em papel de 28 de Outubro

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