Os olhos de Isaac Woodard

Foi através dos olhos de Orson Welles que os meus viram os dele - ou a sua ausência.

Na manhã de 12 de Outubro de 1946, por volta das 08.00 ou 08.30, um rapaz de 26 anos chamado Isaac Woodard Jr. entrou num autocarro prateado da companhia Greyhound Lines. O rapaz saíra de Camp Gordon, em Augusta, na Geórgia, e regressava ao lar, na Carolina do Norte. Estivera quatro anos longe de casa, ao serviço do exército dos Estados Unidos.

Nascera em Fairfield County, na Carolina do Sul, a terra do algodão, mas a família mudara-se, era ele muito novo, para Goldsboro, na Carolina do Norte, uma cidadezinha que, anos depois, em 1961, ficará famosa por lá terem caído acidentalmente duas bombas poderosas, cada qual com 3,8 megatoneladas de hidrogénio, em resultado do despenhamento do B-52 que as transportava. Por milagre, as duas bombas não explodiram, o que, se tivesse acontecido, teria tornado Goldsboro uma cidade mais famosa ainda; e o curso da História da Humanidade também teria sido diferente, muito diferente.

Isaac cresceu ali, em Goldsboro, e ali fez os estudos, em escolas segregadas só para negros, naturalmente. Em Outubro de 1942, quando fez 23 anos, decidiu alistar-se no exército do seu país, para combater o inimigo longínquo. Foi destacado para o Pacífico, serviu como estivador da marinha de guerra e ascendeu ao posto de sargento. Mostrou bravura em combate, foi medalhado por isso. Uma vez, na Papua Nova Guiné, continuou a descarregar os navios no porto enquanto este era flagelado por intensos bombardeamentos da força aérea japonesa. Por esse gesto de coragem, recebeu a Asiatic-Pacific Theater Campaign Medal. Receberia ainda a Good Conduct Medal, uma das mais antigas distinções militares dos Estados Unidos, por ter cumprido três anos nas forças armadas com uma folha de serviços impecável, e a World War II Victory Medal, atribuída a todos os soldados norte-americanos que entraram na II Guerra. Tinha ainda a American Campaign Medal. Quatro condecorações de guerra, portanto.

Foi este jovem de 26 anos, herói de guerra, que, na manhã de 12 de Fevereiro de 1946, subiu a bordo de um autocarro prateado da Greyhound Lines. Embarcou perto de Camp Gordon, uma unidade militar construída em 1941, que, anos depois, durante a guerra do Vietname, serviria de campo de formação e treino às tropas especiais da força aérea.

Envergando o uniforme, com as medalhas ao peito, orgulhoso, o rapaz dirigia-se para casa, onde a família o aguardava, ao fim de anos de espera e angústia. Quando o autocarro fez uma paragem pouco depois de partir, o rapaz perguntou ao motorista se havia tempo para ele ir à casa de banho. O motorista disse que não, mas lá acedeu ao pedido, após uma troca de palavras com o rapaz em que os ânimos se acenderam por instantes, de parte a parte. Quando regressou à camioneta, Isaac agradeceu, sentou-se no seu lugar, e a viagem prosseguiu sem história até Batesburg uma cidade minúscula da Carolina do Sul, que se tornou conhecida na História apenas pelo que de seguida se irá contar.

Ainda que, como atestaram depois várias testemunhas, durante o trajecto o rapaz nada tenha feito ou dito ao motorista, este decidiu chamar a polícia local, que retirou o rapaz à força do autocarro. Depois de lhe pedirem para ver os papéis do exército, que comprovavam que tinha sido desmobilizado, e depois de o rapaz lhos ter mostrado, sem qualquer incidente ou afronta, levaram-no para um beco nas proximidades, onde o espancaram repetidamente com os seus cassetetes. Umas seis ou sete vezes, recordaria mais tarde o rapaz. De seguida, conduziram-no à prisão local, sob a acusação de ter causado distúrbios no autocarro, enquanto bebia no banco das traseiras com outros soldados - o que era uma manifesta mentira, mas enfim.

Durante a noite, Isaac Woodard Jr. foi barbaramente espancado pelo chefe da polícia e por alguns dos seus subordinados. Na manhã seguinte, quando o Sol se ergueu, Isaac já não lhe viu o brilho - estava cego para sempre.

A polícia conduziu-o ao juiz local, que ao fim de poucos minutos o declarou culpado, claro, e lhe aplicou uma multa de 50 dólares em alternativa a 30 dias de prisão.

Na altura, ainda não se sabia ao certo o que se tinha passado na esquadra da polícia. Só mais tarde, por testemunho do rapaz, veio a saber-se que os polícias o tinham espancado por, quando ele lhes respondia, ter dito apenas "Yes", em vez de um mais respeitoso e servil "Yes, sir". Bateram-lhe nos olhos, por diversas vezes. Aos murros, com as mãos, e com um bastão, ou com vários bastões. O rapaz não soube ao certo, na altura já estava inconsciente. Relatos subsequentes vieram mostrar que os olhos tinham sido literalmente arrancados das órbitas, sob pressão de dedos ou de um qualquer instrumento, possivelmente um bastão da polícia

No tribunal que o condenou, Isaac pediu assistência médica. Só ao fim de três dias foi enviado um médico para o examinar. Como sofria de amnésia, em resultado do espancamento de que fora alvo, não soube dizer quem era, onde moravam os pais, quem deviam contactar, informações que, por certo, deveriam constar dos documentos de desmobilização do exército, que na altura ninguém soube ou quis consultar. Mandaram-no então para um hospital de Aiken, a cidade mais próxima, onde recebeu poucos ou nenhuns cuidados. Sangrava dos dois globos oculares, tinha uma ruptura da córnea no olho direito.

Ao fim de três dias sem notícias de Isaac, a família deu o alarme. Acabaram por encontrá-lo no hospital de Aiken, tratado como um indigente. Foi transportado de imediato para um hospital militar, em Spartanburg, onde recuperou aos poucos da amnésia. Os olhos nunca mais voltariam a abrir-se.

Foi através dos olhos de Orson Welles que os meus viram os dele - ou a sua ausência. Em Os Olhos de Orson Welles, um magnífico documentário de 2018, da autoria de Mark Cousins, conta-se a história de Isaac Woodard e da batalha que Welles travou para que lhe fosse feita justiça. A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), a principal organização de defesa dos direitos dos negros norte-americanos, tentou publicitar o caso mal soube da sua ocorrência, mas os seus esforços enfrentaram uma barreira de silêncio por parte das autoridades e dos mass media.

Tudo mudou quando o realizador de Citizen Kane decidiu falar da tragédia nos Orson Welles Commentaries, o seu programa semanal de rádio que, todos os domingos, aos microfones da ABC, levava aos lares americanos trechos de literatura, notícias da actualidade, temas variados. Na emissão de 28 de Julho de 1946 (o incidente passara-se em Fevereiro), Welles falou do caso pela primeira vez, lendo um testemunho assinado pelo próprio Isaac e criticando a vergonhosa passividade das autoridades da Carolina do Sul.

Welles não foi o primeiro a interessar-se pela sorte do jovem veterano de guerra: logo um mês depois da barbárie, Lord Invader, um artista de calipso (um estilo de música afro-caribenho, originário de Trindade e Tobago) dedicou-lhe uma música do seu álbum Calypso at Midnight. Melhor dizendo, acrescentou à música God Made Us All, composta em 1942 por outra estrela do calipso, Lord Pretender, uns versos finais, que dizem:

One of the worst atrocities it ever had,
I must state is that of Isaac Woodard,
A Negro soldier who served four years in the army,
He was beaten so mercilessly,
[...] to tell you -
He was beaten by a cop, who dug out his eye,
But God made us all and in Him we trust,
Nobody in this world is better than us.

Também o lendário Woody Guthrie escreveria uma canção sobre o incidente, The Blinding of Isaac Woodard, gravada em finais de 1946 para o álbum The Great Dust Storm. Apesar de erroneamente situar o caso em Atlanta, na Geórgia, e não na Carolina do Sul, a música foi um extraordinário sucesso. Guthrie afirmou que, quando a tocou em palco, no Lewisohn Stadium, de Nova Iorque, numa gala de beneficência a favor de Woodard, organizada pelo pugilista Joe Louis, uma plateia de 36 mil pessoas deu-lhe a maior ovação da sua vida.

Ainda assim, e segundo o testemunho da NAACP, foram os quatro programas que Orson Welles dedicou ao episódio, mais do que qualquer outra coisa, que obrigaram o Departamento de Justiça a interessar-se pelo caso e a actuar.

Outra figura lendária, ainda que pouco conhecida entre nós, Walter White, que durante quase 25 anos dirigiu os destinos da NAACP, levou o caso directamente à Casa Branca. Numa audiência que lhe concedeu, o presidente Truman teve um acesso de fúria quando se inteirou da inconcebível passividade das autoridades da Carolina do Sul, que, apesar dos protestos crescentes, nada tinham feito ao longo de sete meses para apurar responsabilidades sobre a atrocidade cometida. Logo no dia seguinte, Truman escreveu ao procurador-geral, instando-o a actuar, e, seis dias depois, ordenou que o Departamento de Justiça abrisse uma investigação sobre o caso.

O julgamento foi uma anedota, ou perto disso. O principal arguido, o chefe de polícia Lynwood Shull, afirmou que Isaac o ameaçara com uma arma e que, por isso, tivera de agir em legítima defesa, usando o seu bastão. Acabou, todavia, por admitir que, com as suas próprias mãos, cegara o jovem veterano negro. O júri, composto apenas por brancos, não demorou mais de 15 ou 20 minutos a considerar Shull inocente de todas as acusações que sobre ele impendiam. Um pedido de indemnização civil, apresentado meses depois, foi igualmente julgado improcedente.

O caso foi considerado um enorme revés para o presidente Truman, que, no mês seguinte à absolvição de Shull, criou a Civil Rights Commission, uma comissão inter-racial de personalidades eminentes e académicos que se debruçou exaustivamente sobre o problema do racismo nos Estados Unidos, naquilo que constituiu o primeiro grande esforço para enfrentar esse problema histórico da América. Mais tarde, em Julho de 1948, Truman emitiu a Ordem Executiva 9981, que baniu toda e qualquer forma de discriminação racial nas forças armadas dos Estados Unidos.

Orson Welles voltaria a falar do drama de Isaac Woodard numa série da BBC de 1955, Orson Welles' Sketch Book, e a história daquela tragédia é hoje bastante conhecida, como o comprova a entrada da Wikipédia sobre o assunto.

Nela se informa que, em 2018 - apenas em 2018 - foi retirada a acusação de "conduta desordeira" que levara à prisão de Woodard numa manhã fatídica de 1946. E só em 2019 - apenas em 2019 - foi afixada em Batesburg uma placa alusiva ao caso, cujos dizeres em inglês foram simbolicamente transcritos em Braille. Na inauguração desse memorial, esteve presente o sobrinho de Isaac, que cuidou dele até à morte, e que veio expressamente de Nova Iorque até à Carolina do Sul para comparecer à homenagem ao tio. Confessou-se espantado por tanta gente estar presente.

Lynwood Shull, o agressor, o polícia bárbaro que arrancou os olhos das órbitas de Isaac Woodard - e que admitiu tê-lo feito, no julgamento que o absolveu! - nunca foi incomodado e morreu sem sobressaltos em Batesburg, em Dezembro de 1997, com 95 anos. Isaac, a vítima desafortunada, foi viver para Nova Iorque, onde morreu num hospital para veteranos do Bronx em Setembro de 1992, aos 73 anos.

Além do horror de pensarmos como é possível alguém arrancar os olhos de alguém, o que a história de Isaac Woodard tem de mais horrível é sabermos que não foi um caso isolado e, menos ainda, um caso passado.

Existiram muitos como Isaac Woodard Jr., gente que sofreu até bem mais do que ele, que foi assassinada brutalmente, como Emmett Till, morto no Mississípi aos 14 anos, que foi linchada em espectáculos públicos. E, de todos os lados e a toda a hora, continuamos a ter notícia de actos de abominável violência contra seres humanos, apenas por causa da cor da sua pele, da etnia a que pertencem, da cultura de que se alimentam, do credo que professam. Nas instalações do SEF no aeroporto de Lisboa, num supermercado Carrefour de Porto Alegre, no Brasil, nas chacinas jihadistas de Cabo Delgado, o espírito da intolerância assassina é o mesmo, sempre o mesmo. E, ao contrário do que julga o radicalismo acéfalo do activista Mamadou Ba, que cita e aplaude uma tirada assassina de Frantz Fanon ("é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista"), ou ao contrário do que proclama o recente panfleto provocatório de Pauline Harmange (Moi, les Hommes, Je les Déteste, traduzido em Espanha como Hombres, los Odio), não é com o ódio que se combate o ódio nem com a violência que se põe termo à violência.

Nos últimos tempos, tem andado tudo assaz assanhado por causa do manifesto "A clareza que defendemos", subscrito por um conjunto de personalidades ditas "liberais" ou de "centro-direita", as quais, e muito bem, não gostam de ser confundidas com radicalismos xenófobos nem com nada que, mesmo remotamente, os faça parecer-se com os polícias que espancaram e que cegaram Isaac Woodard.

Levantaram-se vozes críticas desse manifesto, clamando contra a ingenuidade política dos seus signatários, dizendo que, sem pragmatismo, jamais será possível alcançar o poder e chegar a ser governo. Pragmatismo ou realismo que justificará, por conseguinte, transigir com a mentira descarada, com o populismo sem-vergonha, com o racismo oportunista.

Julgam que a questão é política, ou sobretudo política. Não, não é. Antes de ser política, é uma questão moral, de decência ética. E pode vir a ser mortal, moralmente mortal, para os "pragmáticos" que não lhe perceberem o alcance. Há dias, os socialistas do País Basco, ainda lembrados dos crimes de sangue do terrorismo, disseram que entre eles e os herdeiros da ETA havia um "abismo ético". É isso mesmo, as palavras são exactamente essas, um abismo ético. O abismo da repugnância - política, mas sobretudo moral - perante os que, das mais diversas formas, se alimentam do ódio aos outros, dos que fazem do ódio aos outros a sua arma de combate político e de crescimento eleitoral. Haverá coisa mais desprezível do que essa?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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