"Felipe VI atreveu-se a dizer o que nenhum jornalista disse durante muitos anos"

Há uma semana, em plena crise do coronavírus, o rei Felipe VI emitiu um comunicado: renuncia a qualquer futura herança a que tenha direito do pai, o rei emérito Juan Carlos. Isto depois de serem reveladas supostas irregularidades financeiras envolvendo o ex-monarca. A jornalista Pilar Eyre, autora de várias publicações sobre a família real, explica ao DN a importância desta decisão, as consequências e fala do futuro de Juan Carlos e da monarquia.

Aqueles que acompanham mais de perto os movimentos da família real estavam à espera desta notícia de Felipe VI desistir da herança do pai?
Existiam rumores sobre os negócios do rei emérito, mas provas são sempre difíceis de conseguir e durante todos estes anos existiu uma proteção ao que acontecia à família real. Durante os meus 40 anos como jornalista dediquei uma grande parte a informar sobre a Casa Real. Em vários livros que publiquei já falava da relação de Juan Carlos com os países árabes. O seu estilo de vida não correspondia ao seu cargo. Mas foram os meios estrangeiros quem revelou esta notícia e o seu filho foi mais além. Felipe VI atreveu-se a dizer o que nenhum jornalista disse durante muitos anos, que a origem da fortuna do pai era turva e que não quer ficar implicado nisso.

Que significado tem esta renúncia à herança que só pode ser efetiva quando Juan Carlos morrer?
A renúncia à herança não é importante, tem um valor simbólico. O que é dramático na família real é o rei reconhecer que o pai teve negócios sujos. É uma forma de matá-lo metaforicamente. Isto deve ter causado uma profunda dor ao rei Felipe VI. Para mim é o mais importante, o que me sobressaltou. Realmente esta forma de o filho repudiar o pai nunca a tinha visto em nenhuma outra monarquia.

Porque tomou o rei Felipe VI esta decisão?
Segundo explicou no comunicado, ele sabia disto há um ano. Se calhar não disse nada então porque havia o problema catalão, não quis desviar as atenções dessa situação. Pensou que ir ao notário era uma forma de se proteger legalmente face a possíveis investigações. Penso que agora foi forçado a falar pelo facto de terem saído as últimas informações e as redes sociais também pressionarem muito. Se calhar teve a remota esperança de a notícia passar despercebida em plena crise do coronavírus. Mas não aconteceu, foi totalmente o contrário.

Voltemos um pouco atrás. Quando é que Corinna apareceu na vida de Juan Carlos e que importância teve?
No meu livro A Solidão da Rainha, que escrevi em 2009, já falo da presença de uma princesa alemã que está ao lado dele. Juan Carlos tem tido sempre amantes. Quando Franco era vivo, estavam ocultas, porque devia levar uma vida matrimonial imaculada para poder ser o sucessor ao título de rei. Mas depois da morte de Franco, eram elas que andavam atrás dele. Teve inúmeras aventuras que todos conhecemos mas que eram aceites pela sociedade enquanto ele cumpria bem o seu papel como rei. O que não se perdoa é quando há dinheiro pelo meio, corrupção. Ele teve muitas amigas especiais e depois ficavam bem na vida. Quando Corinna chegou, estrangeira, tirou as outras de cena. Era inteligente, bonita, divertida e o então rei apaixonou-se loucamente por ela como nunca tinha acontecido com as outras. Era um amor absoluto e total. Isto foi muito mal recebido por quem o rodeava, porque começou a comandar tudo. Gabriela de Saboia avisou-o que estava a prejudicá-lo muito na Europa toda. Mas ele estava realmente apaixonado e até consultou os filhos sobre a possibilidade de se divorciar da rainha Sofia e casar-se com Corinna. Felipe disse-lhe que isso seria a forma mais rápida de acabar com a monarquia e nenhum deles lhe deu o seu apoio. Com o episódio no Botswana [o rei caiu durante uma caçada, partiu a anca e soube-se que estava de viagem com a amante], Corinna foi obrigada a sair do país. Imagino que depois, em agradecimento, Juan Carlos lhe terá entregado essa grande quantia de dinheiro - 65 milhões de euros.

Corinna usou Juan Carlos ou houve uma verdadeira história de amor?
Penso que ele a amava realmente porque colocou em jogo muitas coisas por ela. E imagino que pelo lado de Corinna houve uma mistura de amor e outras coisas. Moraram muito tempo juntos no [palácio de] El Pardo, o filho dela chamava papá ao rei, estavam sempre juntos... Existirá sempre a suspeita de que Corinna estivesse com ele por interesse mas houve uma forte relação.

Porque é que surgiram agora estas notícias?
Os amigos de Juan Carlos dizem que Corinna lhe quer extorquir mais dinheiro, mas não faz muito sentido, já recebeu muito. Ela diz que está a denunciar tudo para se proteger porque membros dos serviços secretos espanhóis estão a ameaçá-la, que tem muitos segredos e tem medo. Também é estranho que aconteçam essas coisas, mas não sei.

Como é que esta relação prejudicou a vida familiar de Juan Carlos?
A relação com Sofia estava desfeita há muito. Com as filhas mantêm a relação com o pai porque o adoram. Tem sido um bom pai. Mas com Felipe a relação está totalmente desfeita. Juan Carlos nunca vai perdoar o filho e vice-versa.

Como fica a imagem de Juan Carlos?
De rastos... Eu resisti a acreditar na notícia mas uma vez confirmada pelo filho... é quem está a romper com o pai porque a origem da fortuna é obscura. Imagino que se irá embora, para o exílio. Vai ser muito duro continuar em Espanha a viver com os mesmos privilégios que tinha até agora.

O que vai acontecer com a monarquia? Vai superar esta crise?
Por muito que existam protestos, não estou a ver um debate profundo sobre o papel da monarquia. Para fazer um referendo é preciso modificar a Constituição. Também não vejo que seja o problema prioritário do país e os partidos de esquerda também não estão a fazer um trabalho profundo para anular ou eliminar o rei. Há outros problemas.

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