O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe espera que a União Europeia dê sinais de maior flexibilidade com o Reino Unido para facilitar a saída, embora veja "muito boas chances" de esta voltar a ser adiada..Espera que o governo irlandês seja pragmático e não crie entraves ao Brexit. Não acredita numa saída "sem acordo nenhum", pois no final "haverá sempre algum acordo"..Entrevistado em Bruxelas pelo DN, Pieter Cleppe, ex-assessor do governo belga, licenciado pela Universidade Católica de Lovaina, admite que a relação entre Londres e a União Europeia ganhará uma nova dinâmica com a liderança do eurocético Boris Johnson..Uma nova liderança no Reino Unido trará uma nova dinâmica às discussões sobre o Brexit? Penso que sim. A União Europeia diz que não quer renegociar. Mas ao mesmo tempo também quer. Admite redigir a declaração política. Há, pelo menos, algo para falar. Não estão a dizer: "Desculpem, têm de aceitar tudo e ir embora." Na UE estão dispostos a discutir alguma coisa desde que não seja mudar o acordo de retirada. Mas, pelo menos, estão abertos a conversar. E isso é sempre bom..Admite que a posição da UE possa mudar em relação à renegociação de retirada? Quando a União Europeia diz que não quer reabrir o acordo de retirada, isso também é um sinal para a reabertura, e há muitos exemplos na UE de mudanças de posição depois de terem apresentado todos os tipos de dogmas. Claro que não vejo que eles façam isso agora. Mas há muitos precedentes em que as palavras dos líderes na UE não deveriam ter sido levadas a sério..Como vão lidar com Boris Johnson? Penso que a estratégia da UE será dar a Boris algumas migalhas e ver se isso é suficiente para resolver o problema. E se Boris disser muito obrigado e conseguir convencer a maioria em Westminster, com mudanças modestas, será feito assim. E a UE estará, naturalmente, muito feliz porque eles - com razão - também têm medo de um Brexit sem acordo..Boris Johnson vai deixar-se convencer com migalhas? Penso que isso não será suficiente. A UE terá de estar disponível para dar mais do que apenas mudanças de cosmética. E a Irlanda também terá de ser flexível. A razão por que não há acordo tem que ver com algo que foi inserido para a Irlanda: o backstop. Se olhar para aquilo em que o Parlamento britânico votou contra, é muito pouco. Apenas duas coisas. Primeiro, a maioria é contra um não acordo, apesar de ter caído o número de deputados que travam a saída sem acordo; segundo, há também uma maioria no Parlamento britânico - pelo menos houve em janeiro - para as emendas de Brady, pelas quais o Parlamento diz que concorda com o acordo negociado por Theresa May. Mas querem substituir o chamado backstop por "disposições alternativas", não por quererem uma fronteira física mas sim uma alternativa ao backstop, para evitar essa fronteira na Irlanda do Norte. Não é muito difícil olhar para o que pode ser mudado. Pode ver-se o que é preciso mudar para obter uma maioria na Grã-Bretanha. Aí já tem a resposta..A UE diz que pode fazer alguma coisa, através da declaração política, mas nada em relação ao backstop... Já tentaram com uma declaração, em março, em Estrasburgo. E clarificaram que o Reino Unido pode sair unilateralmente do backstop se a UE agir de má-fé..Mas isso continuou a não ser suficiente. O que poderia então ser feito agora? Há várias opções. Em primeiro lugar, a União Europeia poderia concordar em ter um controlo limitado. Penso que isso não seria o fim do mundo para a Irlanda. Seria o teto aduaneiro comum e as regras aduaneiras comuns, sob as quais o Reino Unido residirá após a transição. E isso seria limitado no tempo. Os irlandeses dirão que isso é inaceitável por não ser um verdadeiro "seguro". Mas muitos contratos de seguro também são apenas temporários. Portanto, este não é um bom argumento para os irlandeses. Basicamente, colocaria um prazo e uma espécie de incentivo a todas as partes, para que trabalhassem em acordos alternativos. O governo irlandês diz aceitar o backstop como temporário mas ao mesmo tempo diz que não é possível. Eles dizem que não veem como as disposições alternativas podem funcionar. E isso é um pouco contraditório. Ou seja, se são honestos, talvez devessem dizer: não acreditamos que haja uma alternativa ao backstop e por isso pensamos que deve ser permanente - mas eles também não assumem isso..Dizem que procuram alternativas e que elas não existem? É um unicórnio. É um suborno. Penso que isso é um elemento de radicalismo que os irlandeses deveriam suavizar, porque o que estão realmente a dizer é que o Reino Unido terá, para todo o sempre, de subcontratar a Bruxelas a sua política comercial. De momento, Bruxelas é muito liberal e foi muito bem-sucedida, e isso é um crédito para Juncker, que também negociou com o Japão, com o Canadá e com o Mercosul. E mesmo com Donald Trump acho que Juncker e o seu comissário de comércio fizeram um trabalho razoavelmente bom. Mas o Reino Unido é a quinta maior economia do mundo. Mas dizer que devem estar sempre sob o mesmo teto [aduaneiro] e a subcontratar permanentemente a sua política comercial a Bruxelas não é realista. Considero muito irresponsável dizer que não há alternativas. Deveria ser possível encontrar um meio-termo..Como poderiam ser as disposições alternativas? Com alguma flexibilidade de todos os lados, com alguma boa vontade, podemos chegar lá. Acho possível que o Reino Unido também tenha algum alinhamento regulatório entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda e a UE. Isso já se faz quando se trata de animais vivos. Portanto, há controlos dentro do Reino Unido entre a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte. Então, há um precedente. Porque não podem estendê-lo um pouco? É verdade que seria uma enorme concessão do Reino Unido, e só pode pensar-se em conseguir isso se o outro lado for um pouco pragmático..O acordo pode ser alcançado com pragmatismo em Dublin? Os irlandeses têm de ser práticos. O governo irlandês não tem maioria no Parlamento. Suspeito que essa seja uma das razões, além da frustração, que o Brexit lhes impõe. Entendo porque não o pediram, sei disso, mas às vezes as coisas acontecem e é preciso lidar com elas. A Irlanda tem escolhas a fazer. O governo irlandês pode optar por um Brexit muito difícil ou optar por compromissos imperfeitos..As disposições alternativas? Talvez a alternativa seja dizer que ambos os lados concordam ou fingem concordar que não querem que o backstop dure para sempre. Então, porque não começar imediatamente com a negociação de acordos alternativos e o Reino Unido sair no momento em que isso for negociado? Se o fizesse, isso significaria que a UE concordava em falar já sobre a relação futura, mesmo que o Reino Unido ainda seja um membro da UE. E isso é algo que a Comissão Europeia alegou ser ilegal, apesar de ser uma interpretação controversa e muito estranha do tratado..A UE poderia fazer negociar um acordo de comércio com um Estado membro? Acho perfeitamente possível - se se ler o tratado - que o Reino Unido e a UE negoceiem os aspetos comerciais já - de qualquer maneira, eles fizeram isso, porque, claro, o backstop, a possibilidade de ele ser permanente, e sobre um potencial acordo comercial. A ideia de que não se pode negociar antes de o Reino Unido sair formalmente não é muito útil para uma solução. Se a UE avançasse com isso e depois mudassem de ideias, acho que Boris Johnson poderia dizer: eu prometi tirar o Reino Unido, não vou fazer isso. Sim, levamos mais seis meses para negociar acordos alternativos, mas obtive uma grande concessão de Bruxelas, para começar a falar sobre o acordo de comércio, mesmo que eles não quisessem. Isso poderia ajudá-lo a aprovar o acordo em Londres..Desse ponto de vista, podemos assistir a novo adiamento em outubro. Acho que há uma boa chance, para ser honesto. Penso que é possível negociar acordos alternativos. Boris pode dizer: sim, vocês sabem que tenho o acordo político, isto é apenas uma extensão técnica. E se vamos supor que o Reino Unido sai no dia 1 de abril e há eleições no Reino Unido em junho de 2020... Não acho que alguém no Reino Unido diga: "Oh, você é um traidor, Boris, porque levou mais seis meses para concretizar o Brexit." Ele dirá: "Bem, eu tirei o Reino Unido da UE." É uma grande vitória..Boris Johnson tem ameaçado sair sem acordo. Acha possível? Não acho que seja muito provável. Algumas pessoas com quem falei, incluindo um número de parlamentares, acham que se houver um pouco de caos o governo do Reino Unido irá ceder. Não tenho tanta certeza disso. Penso que o presidente [Emmanuel] Macron não seria muito flexível se o Reino Unido cortasse o acesso aos pescadores franceses. Então as pessoas dizem que sim, não há acordo. Não é o fim do mundo. Ambos os lados podem trabalhar para mitigar o efeito de um não acordo..Acha possível que o Brexit ainda seja travado? Penso que a hipótese de haver Brexit aumentou, porque o Partido Brexit saiu-se muito bem nas eleições para o Parlamento Europeu. Além disso, no Partido Conservador houve alguma radicalização. Posso estar errado, claro, posso estar errado aqui, mas acharia muito inconcebível que o Reino Unido permanecesse. Não quero ser mal interpretado. Sou defensor do comércio livre. Adoro o Reino Unido. Mas no meu think tank sempre fomos a favor de reformar a UE, para manter os britânicos felizes cá dentro. Mas infelizmente isso não foi bem-sucedido..Agora que há uma nova configuração política no Parlamento Europeu, espera mudanças? A maioria recusa-se a mudar. Mantém-se o statu quo, com uma maioria para os federalistas europeus. Basicamente, tornaram-se menores, mas estão a consolidar-se, sendo menos tolerantes. Penso que não mudará. Talvez em cinco anos, quem sabe. Na UE 27 existe uma dinâmica no sentido de haver cada vez mais críticas à UE, tal como acontece hoje. Mas acho perfeitamente possível lidar com essa crítica sem destruir a UE. Porque isso seria muito trágico. Penso que os europeus não gostam de coisas como a troika, não gostam das cotas de migração, não querem que a UE decida sobre políticas sensíveis. Penso que seria absolutamente errado dizer que apenas o nível supranacional pode decidir quantos migrantes devem entrar na Bélgica, por exemplo, ou quanto dinheiro Portugal ou a Finlândia devem poder gastar. UE tem vindo a tornar-se impopular ao tentar pôr a mão nessas coisas sensíveis. E não há razão para isso. Não é esse o trabalho da UE. A ideia original era derrubar barreiras ao comércio. Se a UE investir o seu capital político para facilitar a compra de um carro noutro país europeu, por exemplo, sem harmonizar tudo, concentrando-se apenas no ritmo do protecionismo nacional, penso que a UE tem um mandato para isso. E devem concentrar-se nisso. Em algum momento, se o equilíbrio mudar e virmos algumas reformas reais, vejo o Reino Unido a encaixar-se novamente. Mas nós ainda não chegámos a esse ponto. É por isso que o melhor que podemos fazer agora é limitar os danos do Brexit, facilitando-o o mais possível, conscientes dos riscos para as empresas e para os cidadãos..Está a dizer que a solução é menos Europa? Menos Europa, mais Europa, pró-europeus, eurocéticos, são rótulos. Todos estes rótulos estão certos. Quando digo abrir os mercados de serviços, quero dizer que é o mais acertado para a Europa. E isso é algo que definitivamente deveria acontecer especialmente na era do e-commerce. Sou muito a favor disso. O foco da Europa deve ser o seu core business. E talvez eu devesse chamar-lhe a Europa Ryanair. Essa é a verdadeira Europa. Não a das cotas de migração ou a Europa da troika. Mesmo que muitas pessoas não gostem da Ryanair, ainda pensam que é a maior companhia aérea do mundo, pela abertura de todos os mercados de companhias aéreas da Europa. Portanto, é tão simples quanto isso. A UE tem um mandato para facilitar o comércio. Não tem o mandato de tentar tornar-se algum tipo de superestado. Mas está sempre a tentar tornar-se isso. Penso que isso falhará. Em última análise, quando a legitimidade não está lá, eles não vão conseguir fazer isso.