Caderno de encargos para o próximo governo

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Não precisamos de uma bola de cristal ou de um animal de estimação visionário para antecipar o que se espera do próximo governo. O que aí vem vai mexer com o bolso das famílias e das empresas.

Aumento forte da inflação, em Portugal e no estrangeiro. Preços da energia em alta com reflexo nos custos de produção da indústria mas também dos serviços, já que os combustíveis tendem a ficar muito caros - ainda ontem o petróleo voltou a escalar, com o barril de Brent a atingir um novo máximo. Há que contar ainda com a alteração de política do Banco Central Europeu (BCE) que, tal como a Fed nos Estados Unidos, seguirá o trilho da subida das taxas de juros e é claro que essa decisão terá reflexos quer no bolso das famílias quer no bolso das empresas.

A nível macro, é impossível fingir que não temos um problema com o peso da dívida pública acima dos quase insustentáveis 130% do PIB e respetivos encargos. Há ainda uma pesada máquina do Estado, que toca desde a administração central ao poder local.

A lista de preocupações não fica por aqui. Em 2022 aprofundam-se as inquietações relativas à capacidade das empresas para continuarem a sobreviver e a pagar impostos em mais um ano de incerteza acrescida. É preciso contemplar os efeitos de uma seca prolongada com impacto no preço final dos alimentos, misturada com fretes e transportes caríssimos e ainda com a escassez de matérias-primas, o que está a provocar a subida dos preços. Estaremos então diante de uma poção negra (que não a todo-poderosa e mágica de Panoramix, de que aqui falei ontem).

Esta lista não é pessimista, mas realista. É verdade que já se vai falando na passagem de pandemia a endemia, mas nem todos os médicos estão de acordo quanto a isso - Fernando Maltez, diretor do serviço de doenças infecciosas do Hospital Curry Cabral, considerou ontem ser "um bocadinho perigoso falar de endemia" e disse que a imunidade de grupo "é uma miragem". Se é igualmente verdade que contaremos com a almofada da bazuca (Plano de Recuperação e Resiliência) e da Agenda 2030, é igualmente importante lembrar ao próximo governo que é necessária uma estratégia clara e um modelo diferente para conseguir alcançar uma melhor gestão do dinheiro dos contribuintes e uma otimização dos fundos que vêm de Bruxelas.

Se o próximo executivo conseguir transmitir essa transparência, eficácia e confiança terá, certamente, também uma resposta e a confiança por parte de investidores e consumidores. Essa confiança será o sangue fresco que correrá nas veias do novo ano e poderá, de algum modo, compensar - como se fosse um estabilizador automático - alguma hipotética instabilidade parlamentar e governativa.

Todo este caderno de encargos mexe com o bolso dos portugueses, de forma individual e coletiva. Tal como escrevei ontem, neste mesmo espaço, os eleitores precisam de saber que modelo de governance aí vem. Mesmo com altos níveis de abstenção como se antevê, em parte devido ao isolamento por covid-19, o número de 230 deputados é um dado intocável e que não se pondera sequer alterar? A quem interessa não mudar o sistema eleitoral? A quem serve não estar a ser implementado o voto eletrónico? O mesmo país que inovou a nível mundial com tecnologia de ponta segura como, por exemplo, o Multibanco, da SIBS, ou a Via Verde, da Brisa, ou onde é possível pagar impostos e manter uma relação com o Estado online e de banda larga, é aquele em cuja votação online levanta tantos "impossíveis"?

O voto eletrónico seria, provavelmente, a melhor forma de combater a abstenção, se os decisores tivessem verdadeiro interesse e empenho nessa missão de serviço público.

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