Exclusivo Da prevenção de suicídio a um simples boa-noite. Chamadas para a SOS Voz Amiga batem recorde

Do senhor que passou o seu 40.º aniversário sem ninguém lhe dar os parabéns à jovem que se quis atirar da ponte. Em 2019, a SOS Voz Amiga recebeu mais de seis mil telefonemas e destes só quatro foram registados como "brincadeiras".

"Boa-noite. Eu só estou a ligar porque decidi que vou partir hoje. Já tenho tudo preparado e só queria ter alguém a quem dizer o que vou fazer." Do outro lado da linha telefónica estava Francisco Paulino, o presidente da direção da SOS Voz Amiga, a linha de apoio psicológico mais antiga do país (funciona desde 1978), que, em 2019, quase duplicou o número de chamadas atendidas. "Cá deste lado, ficamos com a vida daquela pessoa nas mãos", diz Francisco. A chamada é anónima. Quem atende não sabe de onde lhe telefonam e só tem uma única missão: ​​​​​​​ouvir a pessoa e tentar confortá-la.

"Tentamos criar um momento de empatia para que a pessoa se sinta à vontade e nos conte, sem pressões, o que a levou até ali", explica Francisco Paulino, de 66 anos. Já pertence à equipa da linha há 22 anos, mas de todas as vezes em que levantou o auscultador nunca soube o que iria encontrar. E se às vezes ainda lhe concedem tempo, como na chamada anterior, outras vezes é procurado com urgência, até pelas autoridades, para evitar o pior. Já respondeu ao 112 em situações críticas. Numa dessas alturas, colocaram-no ao telefone com uma senhora, dentro de um carro, à beira de um precipício. Tinha lidado com sucessivas rejeições e naquele dia atingira o limite. "Pedi-lhes meia hora. Não era boa ideia a pessoa ouvir as sirenes, naquele momento. Fui falando com a senhora, ela foi acalmando e pouco tempo depois dizia-me: vem aí a policia, o que é que eu faço? Não faz nada. A polícia é nossa amiga. Eles vão parar aí e como já é tarde vão perguntar se precisa de ajuda. Nessa noite não aconteceu o pior", recorda. Nem todas as conversas tiveram um final feliz. Das que não tiveram ainda não consegue falar, apesar do apoio que todos os 30 voluntários recebem de psicólogos e em reuniões de equipa regulares.

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