Igreja Católica

E agora, jovens? E agora, católicos? E agora, Lisboa?

A Jornada Mundial da Juventude vai estar em Lisboa em 2022. O anúncio foi feito neste domingo no Panamá pelo cardeal Kevin Farrell. O anúncio era esperado, mas, mesmo assim, os jovens presentes na paróquia do Parque das Nações, onde assistiram em direto, saltaram, cantaram, dançaram. Agora, "é pôr mãos à obra".

Carina, Ana, Ciro, Beatriz, Marta, Catarina, Patrícia, Joana, Álvaro, Daniela saltaram, cantaram, dançaram, abraçaram-se ao ouvir o nome de Portugal no Panamá. São jovens, entre os 18 e os 28 anos. Viveram esta JMJ a muitos quilómetros de distância. Agora, querem viver de perto a que aí vem em 2022. O que esperam? "Tanta coisa", dizem. Mas todos são unânimes num ponto. "Que as jornadas em Lisboa sirvam para os jovens assumirem outro compromisso com Deus e com a sua fé."

Um pensamento que vem ao encontro do apelo feito em direto pelo Papa Francisco, na celebração de encerramento da JMJ 2019, no Campo João Paulo II, na cidade do Panamá. "Sigam vivendo a fé." Agora, nesta hora, "caminhem". E é isso que Carina, Ana, Ciro, Beatriz e tantos outros esperam que aconteça com a vinda da JMJ para Lisboa.

Ciro é um escuteiro de São João da Talha. Faz parte de um grupo de 15 que esteve em vigília desde sábado até à tarde de domingo, no salão da paróquia do Parque das Nações, num encontro organizado por uma das vigararias do patriarcado. Tem 20 anos. Ele assume-se como católico. Ele e os companheiros não têm medo de o fazer, dizem. Não têm medo de julgamentos, reforçam. E o que mais esperam é que as próximas jornadas "ajudem os jovens a viver a fé que têm e a assumi-la num compromisso".

Ciro deseja mesmo que a mensagem que se espera para Lisboa faça "os jovens deixarem o sofá, deixarem de estar fechados em si mesmos ou nas redes sociais, para estarem mais ligados à sociedade, para manifestarem os seus pontos de vista, porque cada um tem uma visão de Deus e da fé".

Ao seu lado, Beatriz, de 18, interrompe-o para dizer que a JMJ "deve ser um momento de partilha entre culturas". Deve ser "o momento em que o povo português, que já foi recebido em tanto lado, poderá mostrar como sabe acolher todos". E muitos com visões diferentes. Ana, de sorriso nos lábios, cabelo longo entrançado, aproveita para deixar um alerta: "Mostrar a verdadeira mentalidade dos jovens católicos. Espero que os jovens que sentem fé não tenham medo de julgamentos e que sejam capazes de mostrar quem são e no que acreditam."

"Esperamos que a igreja consiga passar a mensagem de que este encontro é uma coisa boa, que pode ser uma oportunidade para a conversão, para termos mais jovens cristãos."

Ana justifica-se: "Já houve um período em que a Igreja Católica não esteve tão bem. Há pessoas que ainda têm essa imagem. Por isso, espero que os jovens portugueses sejam capazes de mostrar o que é ser cristão agora." Carina, também nos 18 anos, ainda a estudar, explica porque está de olhar desgastado: está ali desde a noite anterior, mas "quis vir para saber como era viver um ambiente de jornada, mesmo à distância. Foi já um treino para 2022".

Na sala, os cânticos continuavam. Era a euforia. Ali se tinham conhecido jovens de várias paróquias, de Benfica a Cascais, de São João da Talha ao Estoril, de diferentes movimentos da Igreja. Ana Costa, 24 anos, de Cascais, já viveu as JMJ de 2016, na Polónia, e espera acima de tudo que a JMJ de 2022 "possa unir todos os movimentos da Igreja que já existem. As jornadas têm esse espírito, juntar numa grande massa os vários pedacinhos da Igreja".

Joana e Álvaro representam os salesianos, um de Lisboa, outro do Estoril, ambos com 17 anos. É com alegria que dizem esperar que a "Igreja consiga passar a mensagem de que este encontro é uma coisa boa, que pode ser uma oportunidade para a conversão, para termos mais jovens cristãos".

Daniela Calças, 24 anos, era uma anfitriã. Ela estava na própria paróquia. Com ela, outros jovens a receber os mais de 200 que decidiram marcar presença naquele encontro, precisamente na paróquia que vai ser central na receção às JMJ 2022, já que estas vão realizar-se no Parque Tejo, entre Lisboa e o Trancão. De bandeira portuguesa às costas, no momento em que se canta na sala o hino nacional, Daniela lança um dos temas que é hoje um desafio para a Igreja Católica: "Espero que esta jornada traga mais vocações, que os jovens portugueses ajudem a mostrar a Igreja de outra forma e a comprometerem-se com a fé e com Deus." Para ela, a organização do evento pode ser uma forma para "aproximar mais os jovens da Igreja".

Este vai ser um dos desafios, entre muitos outros. Que mensagem quer a Igreja Católica passar? Que mensagem querem os próprios jovens? Para já, da Igreja aos políticos e ao governo português, já todos reagiram ao anúncio feito no Panamá.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, o português falado em todo o mundo foi um dos fatores que ajudaram na candidatura da diocese de Lisboa. O primeiro-ministro António Costa afirma no vídeo promocional da autarquia de Lisboa que todos os que quiserem participar serão bem-vindos, até porque "Portugal há séculos que constrói polos de culturas diferentes". Fernando Medina, ainda no Panamá, lançou um apelo: "Vamos fazer da Jornada uma grande mobilização."

O patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, sublinhou que Portugal nunca recebeu um evento com esta dimensão. "São esperados um a dois milhões de pessoas." Tem sido assim sempre que uma cidade europeia recebe as JMJ. No Panamá, na celebração de hoje, estiveram 600 mil peregrinos, mas durante a semana foram quase 200 mil, de mais de 130 países. O facto de ser em janeiro, a primeira vez que acontece na história das JMJ, um evento religioso e cultural criado pelo Papa João Paulo II, afastou alguns jovens. Na Europa, é tempo de aulas. Mas, em 2022, espera-se que o timing para as jornadas volte ao normal, ou seja, durante as férias de verão.

Portugal é o segundo país lusófono a conseguir organizar este encontro - o primeiro foi o Brasil. A concorrer com o país estavam também a República Checa e a Suécia. Agora, o desafio é para Portugal e não só para a capital, disse ao DN um dos participantes no encontro no salão do Parque das Nações. Os peregrinos começam a chegar uma semana antes da JMJ para a pré-jornada e podem percorrer todo o país. Por isso, e como muitos o afirmavam hoje, "é pôr mãos à obra".

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