Angola: os momentaneamente anticorrupção

Os angolanos exultam quando sai uma notícia sobre alguém poderoso que esteja a ser investigado. Se for detido, é quase uma festa nacional. Vive-se por aqui uma época de vingança pública da pobreza, se pensarmos que são os pobres que se sentem felizes por verem acossados pela justiça quem os colocou como pobres. Ou seja, quem tem mais do que eu é culpado da minha pobreza. Se o país foi empobrecido também pela corrupção, e quanto a isso não há dúvidas, não é menos verdade que a "justiça popular" comete sempre as suas injustiças, não apenas ao castigar quem não merece, mas também por deixar sem castigo quem merece.

Apesar de continuar a discursar sobre a luta contra a corrupção, e de reafirmar sempre que pode a sua determinação, João Lourenço parece agora ter adoptado um discurso que atira esta responsabilidade mais para o plano judicial do que para o plano político, porque há gente a dizer que a sua cruzada parece pessoal, selectiva, de perseguição a um grupo bem definido de pessoas. O pior que pode acontecer a João Lourenço é esta ideia ganhar terreno e consolidar-se, sobretudo porque são citados nomes de pessoas da sua equipa que ao menos uma vez foram também ao pote. E não são poucos.

Contudo, o que pode efectivamente causar estragos ao projecto presidencial de luta contra a corrupção em Angola é o empenho (algo suspeito) de alguns dos seus soldados. Por exemplo, temos juízes a tomar posse das suas novas comarcas e nos seus discursos a dizer que têm como prioridade o combate à corrupção. Isto acende um sinal amarelo, porque não os ouço falar da boa administração da justiça, da qualidade dos julgamentos. Temo que quem chegar rotulado de corrupto a um tribunal esteja à partida condenado. Aliás, os próprios juízes não estão isentos de culpa nos níveis a que chegou a corrupção. E alguns, se calhar, nem de participação nela.

Quando vi o procurador-geral da República na rua a distribuir panfletos a apelar à denúncia dos cidadãos sobre casos de corrupção, temi que o sistema judiciário estivesse a calçar a luva da política, na boleia descarada do discurso presidencial.
Ante a seriedade e pertinência do assunto, ante o empenho presidencial, tudo começa a parecer um baile de máscaras em que corruptos acusam outros de corrupção.

Parece que se safa quem primeiro acusar e condenar. O assunto e o propósito são bem mais sérios do que isso, são vitais para o crescimento da democracia e para o início da caminhada em busca do desenvolvimento, é o que diz João Lourenço, é o que move o povo.

Quem queira investir em Angola deve saber o que se passa efectivamente, não pode ser posto entre discursos e práticas diferentes. É essencial que haja transparência, uma boa justiça, e que as causas da corrupção sejam efectivamente atacadas, não apenas os corruptos.

Achar-se que prendendo os corruptos se resolve tudo, mesmo sem uma agenda social clara e efectiva, é o mesmo que tentar esvaziar o mar com um balde - surgirão sempre novos corruptos numa sociedade pobre, mal instruída e sem justiça social.

Falta um discurso social em Angola, que consolidaria a imagem interna e externa de João Lourenço e que manteria o povo mobilizado na sua causa por mais tempo. O presidente precisa de desenvolver este discurso e de ter cuidado com os "combatentes" de ocasião. Estes estão apenas por momentos. E, pelo menos alguns deles, já estão a atropelar a lei.

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