Uma presença épica". Assim lhe chama o ciclo que arranca em setembro na Cinemateca, reunindo mais de uma dezena de títulos que vão além de Os Dez Mandamentos. O filme de Cecil B. DeMille é com certeza o mais épico dos épicos que definiram a figura de Charlton Heston (1923-2008) na grande tela, lançando-o para o estrelato na pele de uma personagem bíblica, Moisés. Mas a sua ausência do programa só mostra que há outras vias essenciais para revisitar a gravitas de um ator americano que encarnou o ideal de uma Hollywood clássica, sempre com seriedade sublinhada. No dicionário biográfico do cinema, o crítico David Thomson lembra essa espécie de atributo "monolítico" de Heston, o tipo de homem que "contribui para um filme através da sua presença e esplendor inato de músculos honestos e virtude de maxilar forte". E talvez este reflexo físico de uma simbólica força moral seja mesmo a melhor síntese daquele que a 4 de outubro faria 100 anos. A assinalar antecipadamente o centenário, o presente ciclo exibe logo no dia 1, na esplanada (21h30; repete no dia 20), outro dos títulos fundamentais da carreira de Heston: O Homem que Veio do Futuro (1968), de Franklin J. Schaffner, primeiríssima adaptação do romance O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle. É o filme em que o ator já consagrado interpreta um astronauta que aterra por acidente num planeta desconhecido, aí deparando-se com uma avançada sociedade de macacos, onde os humanos são escravos. Para além da extravagância de ficção científica, o ponto desta obra passa muito pela sensibilidade da época, que é como quem diz, o medo de uma guerra nuclear -- o plano da Estátua da Liberdade enterrada na areia num cenário pós-apocalíptico é um desfecho de assombro..A partir de O Homem que Veio do Futuro, a carreira de Charlton Heston integrou particularmente este registo de aventura e sci-fi. É posterior a ele, por exemplo, À Beira do Fim (dia 5, na esplanada), a fantasia futurista de Richard Fleischer, ambientada no ano de 2022, em que Heston é um polícia numa Nova Iorque com população a mais e recursos a menos. O Príncipe e o Pobre (dias 21 e 26), também de Fleischer, que parte de um conto de Mark Twain sobre dois homens de aparência semelhante que trocam as identidades. E A Maldição do Vale dos Faraós (dias 7 e 21), de Mike Newell, um pezinho no terror com inspiração em Bram Stoker..Para trás desta fase ficam os clássicos "nobres" da década de 1950 e início dos anos 60. Desde a atribulada obra-prima noir de Orson Welles A Sede do Mal (dia 6, esplanada) aos não menos atribulados 55 Dias em Pequim (dia 19), de Nicholas Ray, e Major Dundee (dias 22 e 29), de Sam Peckinpah, passando pela dimensão espetacular de A Agonia e o Êxtase (dia 25), de Carol Reed, onde Heston interpreta Miguel Ângelo, contracenando com o Papa Júlio II de Rex Harrison, e, claro, Ben-Hur (dia 18), o auge da sua verve heroica, com a lendária corrida de quadrigas. Uma epopeia Scope que lhe deu o Óscar..Esses foram os tempos das superproduções que tiraram partido da sua postura atlética e expressão granítica, de olhos azuis e pele bronzeada, a fixar no ecrã um modelo de protagonista irrepetível nos dias de hoje. Algo que se pode testemunhar ainda nos raros O Mistério do Navio Abandonado (dias 18 e 21), de Michael Anderson -- aventura no alto-mar com o contrapeso Gary Cooper, símbolo da geração anterior da mesma Hollywood clássica --, e em O Senhor da Guerra (dia 27), do realizador de O Homem que Veio do Futuro, Schaffner, que aqui veste Heston de cavaleiro..Importa não esquecer também dois títulos do início da carreira, anteriores à rampa de lançamento que foi The Ten Commandments: A Cidade Tenebrosa (dias 15 e 22) e A Fúria do Desejo (dias 20 e 28). O primeiro, de William Dieterle, marca a entrada de Charlton Heston no circuito de Hollywood, pela linguagem do film noir. O segundo, com assinatura de King Vidor, é um melodrama protagonizado pela maravilhosa Jennifer Jones, na forma de um longo flashback que narra a tensão erótica entre a personagem dela e a de Heston. Apropriadamente, um erotismo de carga quase bíblica..Em Heston, o ímpeto de grandiosidade manifestou-se de maneiras diferentes, por vezes contraditórias. Por um lado, nos bastidores das produções, soube valer-se do seu star power para defender realizadores, sendo os casos emblemáticos aqueles que envolveram os nomes de Orson Welles e Sam Peckinpah. A saber: foi ele quem exigiu aos produtores de A Sede do Mal que fosse Welles a realizar o filme (tinha sido contratado apenas como ator), numa altura em que este era persona non grata em Hollywood. E travou também o despedimento de Peckinpah (com um histórico de alcoolismo que mete respeito) a meio da rodagem de Major Dundee, embora isso não tenha impedido que andassem às turras durante o processo de trabalho....E por outro lado, há a polémica em torno da sua personalidade política. O homem democrata que em tempos declarou o seu apoio ao presidente Lyndon Johnson, com base na tentativa deste de controlar a venda de armas nos EUA, um par de décadas depois tornou-se republicano e presidente da National Rifle Association, um dos mais poderosos lóbis para a liberalização de armas de fogo no país. Uma posição pública que feriu a sua popularidade nos últimos anos de vida, mas que não deve apagar aquela outra imagem do antirracista, apoiante de Martin Luther King, que se bateu pelos direitos civis dos negros. As fotos da sua presença na Marcha sobre Washington, em 1963, ao lado do escritor James Baldwin e dos colegas Marlon Brando, Sidney Poitier, Burt Lancaster e Harry Belafonte, são a correspondência mais justa com o heroísmo que representou no grande ecrã.