O comboio regional do PS para a maioria absoluta

Para o PS de António Costa, a história pode muito bem repetir-se. Em 2014, quando chegou a secretário-geral do Partido Socialista, Costa parecia ter tudo para ganhar as eleições de 2015 com maioria absoluta. Não só não o conseguiu como fez o mais difícil: perdeu-as.

Em 2019, António Costa corre, novamente, o risco de morrer na praia. Desta vez, dificilmente perderá as eleições - Rui Rio está a fazer tudo para assegurar que isso não acontece -, mas a maioria absoluta parece cada vez mais difícil de alcançar.

Em 2015, como em 2014 (quando afastou António José Seguro), Costa fez o mais difícil. Criou condições para governar sem ter vencido as eleições, acabou com o mito de que a esquerda nunca se uniria em torno de um projeto de poder, cumpriu todas as metas orçamentais - e ainda foi para lá do que estava acordado -, fez quase tudo o que tinha prometido e, mesmo assim, a maioria absoluta parece continuar longe. Nem com a ajuda da oposição (sobretudo do PSD), que parece ter desistido de regressar ao poder, António Costa consegue descolar nas sondagens. Nada disto será por acaso.

O primeiro fator tem que ver com a atual solução governativa, que - como todas - tem as suas condicionantes. PS, Bloco, PCP e PEV, que sempre concordaram em discordar, desta vez concordaram também que valores mais altos se levantavam: afastar a direita do poder e ficar na história como os partidos que devolveram aos portugueses os rendimentos perdidos durante a troika. Sendo esta a base da geringonça - legítima e com o melhor dos propósitos -, ela foi sempre curta. Muito curta.

Os últimos anos e as condições económicas favoráveis podiam e deviam ter servido para o país lançar um conjunto de reformas estruturais, há muito adiadas, que o preparassem para as próximas crises. Na saúde, na educação, na justiça, na função pública, em tantos setores onde continuamos a marcar passo e onde não se vislumbra até hoje uma solução. E não digo que o PS não tenha essa visão, ideias e projetos, mas com a atual solução governativa eles são impossíveis de concretizar. Precisamente porque, no fim do dia, aquilo que divide a geringonça é sempre muito mais forte do que aquilo que a une.

"Há um erro que António Costa não parece disposto a repetir, mas que também lhe pode custar muitos votos no próximo ano: aumentar os funcionários públicos em ano de eleições"

É por isso que os últimos anos - e o próximo promete ser igual - foram marcados por medidas casuísticas e não tiveram uma única reforma digna desse nome. E aquilo a que os socialistas chamam reforma não tem sido mais do que a eterna tese de que os problemas se resolvem atirando dinheiro para cima deles.

O segundo fator, que pode tornar muito difícil a conquista de uma maioria absoluta por parte do PS, tem que ver com a guerra - mais uma - que o partido abriu com os professores. E mesmo concordando com a posição de Mário Centeno e de António Costa (se é que ambos estão de acordo), de que não há condições para repor, na íntegra, os anos de carreira dos professores que estiveram congelados, a verdade é que a última vez que o PS se meteu com os professores, no governo de José Sócrates, perdeu a maioria absoluta.

Há, no entanto, um erro que António Costa não parece disposto a repetir, mas que também lhe pode custar muitos votos no próximo ano: aumentar os funcionários públicos em ano de eleições. Em abono da verdade, Sócrates fê-lo em 2009 e nem por isso conseguiu manter a maioria absoluta. Mas aí entram outros fatores que agora não vêm ao caso.

"Mais do que roubar eleitorado à esquerda ou à direita, António Costa dificilmente chegará à maioria absoluta se não conseguir ir buscar os votos que perdeu em 2015 para os abstencionistas"

Uma terceira razão que é preciso não desvalorizar tem que ver com o papel do PCP e do Bloco de Esquerda. Fragilizados, por motivos diferentes - o Bloco por causa do caso Robles e o PCP depois da derrota estrondosa nas autárquicas -, com o aproximar das eleições, ambos os partidos serão uma oposição cada vez mais visível ao PS. Bloquistas e comunistas vão continuar esta espécie de coleção de bandeiras que possam hastear durante as eleições, tentando provar, cada um à sua maneira, que muitas das conquistas alcançadas nesta legislatura se deveram a eles e não ao PS.

O desafio do Partido Socialista para chegar à maioria absoluta está, por isso, na abstenção. Mais do que roubar eleitorado à esquerda ou à direita, António Costa dificilmente chegará à maioria absoluta se não conseguir ir buscar os votos que perdeu em 2015 para os abstencionistas. E essa parece, neste momento, uma tarefa longe de estar a ser cumprida.

Não são apenas as sondagens que o indicam. É o próprio discurso de António Costa que parece pouco ambicioso. E a rentrée deste fim de semana foi apenas mais uma prova disso mesmo. Costa pede a maioria sem a pedir explicitamente e continua a usar a velha estratégia - gasta - de anunciar medidas às pinguinhas nos jornais (para as testar, evidentemente), que depois "cavalga" nos comícios. Zero reformas. Zero ideias sobre os problemas estruturais do país. Zero risco.

Se o PS continuar, até 2019, neste ritmo de comboio regional, quando podia estar a circular à velocidade de um TGV para a maioria absoluta, António Costa perde uma oportunidade única. Pode até ficar na história como um político habilidoso - característica que lhe é reconhecida pelos próprios adversários - mas ficará também, para sempre, como o político que desperdiçou uma oportunidade única de conquistar a segunda maioria absoluta na história do PS.

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