Silas na "cadeira de sonho" 30 anos após ter recusado ser emprestado pelo Sporting

Novo treinador dos leões, apresentado esta sexta-feira, representou o clube durante dois anos nas camadas jovens, mas quando percebeu que ia ser dispensado decidiu escolher o próprio destino.

Três décadas depois, Silas está de regresso ao Sporting, o clube pelo qual assumiu publicamente ter simpatia e pelo qual jogou durante dois anos nas camadas jovens. Há mais de 30 anos, era um miúdo que procurara a sorte nas captações depois de uma época a ganhar rodagem no Domingos Sávio. Hoje, aos 43 anos, é um treinador a dar um salto na carreira após ano e meio a deixar boa impressão no Belenenses SAD.

"Éramos uns 300 miúdos e eu fiquei. Ia todos os dias para o treino sozinho. Tinha de me desenrascar. O meu pai ia-me buscar à noite depois do treino, não tínhamos carro, íamos de transportes e só chegava a casa depois das 23.00...", recordou em conversa com o DN em junho de 2017, depois de pendurar as botas. Quando Silas fala do pai, refere-se ao padrasto, com quem a mãe se juntou quando já tinha 6 anos. O pai biológico, de ascendência cabo-verdiana, nunca o conheceu.

A passagem por Alvalade durou dois anos e não acabou da melhor maneira. Os responsáveis leoninos quiseram emprestá-lo, mas Jorge Fernandes - o seu nome de batismo - não deixou. "Já não sei a quem me queriam emprestar. E eu disse 'não, se vou ser dispensado, eu é que decido para onde quero ir'. E fui para o Atlético', contou na altura, um pouco antes de ter a primeira experiência como treinador, no estágio do Sindicato de Jogadores - um episódio que recordou esta sexta-feira durante a apresentação em Alvalade.

Ainda assim, foi no Sporting que ganhou a alcunha de Silas, devido às semelhanças com a fisionomia e a maneira de jogar do médio ofensivo brasileiro Paulo Silas, que representou os verdes e brancos entre 1988 e 1990.

A experiência de leão ao peito foi um dos pontos altos de uma infância e de uma adolescência de altos e baixos no bairro social Bela Flor, em Campolide, a poucos metros do extinto Casal Ventoso, em Lisboa, onde deu os primeiros toques na bola. Viveu numa barraca aos 4 anos e foi precisamente o futebol que o desviou de outros caminhos: "Na minha infância e na adolescência, foi quando apareceu em força a heroína e houve muita gente a dar cabo da vida por causa do vício. Era um mercado de droga a céu aberto, tinha tudo para me ter perdido, mas a minha obsessão pelo futebol era tão grande que me afastou daquilo tudo. Eu tinha tudo para ser bandido, menos cabeça, porque a minha cabeça era só futebol."

No Atlético fez-se jogador e ganhou o primeiro salário: 12 contos (60 euros). Paralelamente, jogou futsal no Santana e até se sagrou campeão nacional de juniores. Depois de três épocas na Tapadinha, na II Divisão B, tentou dar o salto para a I Liga, mas Campomaiorense e Salgueiros não o quiseram. A avó, com quem viveu até aos 21 anos, queria que ele arranjasse um emprego fora do futebol, mas a teimosia do antigo médio ofensivo levou-o a fazer uma carreira de grande nível no desporto-rei, a ponto de se ter tornado internacional português. Com as portas fechadas em Portugal, rumou ao Ceuta, da II Divisão B espanhola, que oferecia 60 mil euros ao Atlético e 3000 euros ao jogador.

Influência de Mourinho e Jesus

Depois de três temporadas em Espanha, Silas estreou-se finalmente na I Liga portuguesa em 2001-02, na União de Leiria de José Mourinho, apesar do interesse do Barcelona B. Na cidade do Lis fez duas excelentes temporadas, com direito a disputar uma final da Taça de Portugal, que o catapultaram para a seleção nacional e para a Premier League, por intermédio do Wolverhampton, tornando-se o primeiro português a representar os Wolves.

A experiência britânica não correu bem e acabou por regressar a Portugal. Primeiro para o Marítimo, depois para o Belenenses, onde haveria de se cruzar com Jorge Jesus em 2006-07 e 2007-08. "Foi o treinador que mais me marcou. Para mim no futebol existiu um antes de Jesus e um depois de Jesus. O facto de ele não ter saído de Portugal acabou por prejudicar o seu reconhecimento", afirmou em abril do ano passado, antes de um jogo entre os azuis e o Sporting, em que ele e o seu antigo treinador estavam em bancos opostos.

Durante a passagem pelo emblema da Cruz de Cristo, o médio ofensivo foi companheiro de equipa de Cândido Costa, que logo viu nele potencial para se tornar "um bom treinador". "E isso está mesmo a acontecer", diz o amigo. "O sentido de liderança dele já era notória, era capitão de equipa e sabia sê-lo, era uma voz ativa e interrogava muito. Na altura não era muito fácil interrogar o treinador, até porque se chamava Jorge Jesus, mas mesmo assim ele tinha essa coragem. Ele gostava de perceber as coisas, não só acatar as ordens. Na minha opinião, os grandes líderes são assim: interrogam-se, gostam de saber e de aprender. Era alguém que agregava o balneário", recordou o antigo lateral/extremo, hoje comentador televisivo.

Já trintão, depois de quatro anos no Restelo, Silas voltou à União de Leiria, experimentou o futebol cipriota e o indiano, regressou ao Atlético e pôs um ponto final da carreira na Margem Sul, ao serviço do Cova da Piedade, à beira de completar 41 anos. Depois orientou a equipa do Sindicato de Jogadores, foi comentador na Sport TV e, quando tinha tudo alinhavado para ser o treinador da formação de sub-23 do Belenenses SAD, em 2018-19, acabou por assumir a equipa principal dos azuis cerca de meio ano antes.

Caminho passa pelo espetáculo

Silas vê o futebol como um espetáculo e, durante o ano e meio em que foi possível observar o seu trabalho no Belenenses SAD, ficou plasmada na equipa uma identidade que privilegiava a relação com a bola. "As pessoas têm de vir ver um espetáculo. Este vai ser o caminho", afirmou após a estreia como treinador principal, a 29 de janeiro do ano passado. E repetiu na apresentação como técnico leonino: "A nossa forma de jogar obriga a que todos acreditem nela, porque é arrojada, mas dá prazer aos jogadores e depois aos adeptos."

"Jogamos sempre para atacar. Às vezes teremos de defender, porque o FC Porto nos vai obrigar a isso, mas vamos procurar atacar. Durante a semana, o trabalho foca sempre mais o ataque organizado, e nesta semana não foi diferente. Se não jogarmos assim, não temos hipóteses contra FC Porto, Benfica, Sporting", vincou antes de um jogo com o FC Porto, há pouco mais de um ano.

Esse modelo de jogo ofensivo, muitas vezes operacionalizado num sistema de três centrais, com os laterais bem projetados e bastante mobilidade entre os homens da frente, ajudou a valorizar jogadores que deram o salto para outras paragens. Reinildo (Lille), Muriel (Fluminense) e Diogo Viana (Sp. Braga) são os principais exemplos.

Após 16 vitórias, 21 empates e 24 derrotas em 61 jogos pelo Belenenses SAD, Silas entra em Alvalade como o quinto treinador desde que Frederico Varandas é presidente do Sporting, depois de José Peseiro, Tiago Fernandes, Marcel Keizer e Leonel Pontes, que ainda dirigiu a equipa nesta quinta-feira na receção ao Rio Ave, em partida da primeira jornada da fase de grupos da Taça da Liga.

Curiosamente, há cerca de dez dias, o provável futuro técnico leonino tinha pedido tempo para... Leonel Pontes. "Vai precisar, sobretudo, de tempo. Não é fácil pegar num plantel à quarta jornada e começar logo a ter resultados. Inclusive, chegaram agora jogadores nos últimos dias. Depois, vê-se se realmente consegue levar o barco a bom porto. Eu penso que sim, mas vai precisar de tempo", atirou, à margem da apresentação da Semana Europeia do Desporto.

Apesar de Silas não possuir o quarto nível de treinador e por isso estar impedido de estar de pé no banco a dar instruções aos jogadores, o que é "um calcanhar de Aquiles", Cândido Costa acredita que o amigo tem o que é necessário para tornar o Sporting melhor. "Tem um conhecimento profundo do futebol português, jogou em quase todas as divisões, perpetuou enquanto pôde a sua carreira enquanto jogador, e daí pode retirar-se que ele é mesmo um apaixonado pelo jogo. Tem uma metodologia de treino atraente. Privilegia o futebol ofensivo e gosta de um futebol com critério, de utilizar a bola, com alto pensamento. Mesmo na pior fase dele no Belenenses SAD, nunca largou as suas ideias, o que é de alguém com personalidade e carácter. Sei que gosta do Sporting, que olha para os jovens com olhos de ver, e isso é importante para o Sporting nesta altura. É ambicioso, destemido e não vai olhar para este desafio com receio", vaticinou o antigo internacional sub-21 português.

"Sei que gosta do Sporting"

"O futebol tem uma grande imprevisibilidade, mas o Silas é extremamente competente, sabe qual o caminho a traçar e qual a ideia de jogo que pretende para ganhar os jogos. A fase não é boa e o trajeto dele como treinador pode suscitar algumas dúvidas, mas quem trabalhou de perto com o Silas sabe da sua competência e da sua ambição. Acredito que pode oferecer ao Sporting uma tranquilidade que não é fácil obter por tudo o que o Sporting está a viver. É um treinador que está acessível ao Sporting e que pode pegar na matéria humana que há no Sporting e tornar a equipa melhor, mais organizada e mais compacta. É um treinador que gosta de dar liberdade aos jogadores no processo ofensivo, o que por norma agrada aos jogadores, e tem uma característica que não se compra nem se tira nos cursos: a experiência. Ele andou muitos e muitos anos nos relvados e sabe o que é necessário fazer", acrescentou Cândido Costa, que não torce o nariz ao timing da ida do antigo companheiro para o Sporting: "As oportunidades no futebol não surgem normalmente com um convite dourado. Essas oportunidades são geradas muitas das vezes pelo azar de uns. Se calhar, se o Sporting estivesse forte, robusto e saudável financeiramente, o Silas não teria esta oportunidade. Mas acredito que ele possa ser o homem certo, no lugar certo e no momento certo."

O antigo lateral/extremo diz mesmo que esta é uma espécie de cadeira de sonho para o amigo, que nunca representou um dos chamados três grandes como jogador e tem simpatia pelo Sporting. "Sei que o Silas gosta do Sporting há muito tempo e que olha para esta possibilidade como uma cadeira de sonho. Ele foi um jogador que viveu o drama de não jogar num grande, apesar de ter feito épocas de grande qualidade em Leiria, com Mourinho. O telefone dele nunca tocou enquanto jogador e na minha opinião está a acontecer agora o que deveria ter acontecido, porque era um jogador extraordinário e ele fez o suficiente para o telefone tocar. Vi, durante a minha carreira, jogadores menos apetrechados a nível qualitativo chegarem a grandes clubes e fazerem grandes carreiras. Isso da cadeira de sonho também tem muito a ver com isso", rematou o antigo jogador de FC Porto, V. Setúbal, Sp. Braga e Belenenses, entre outros.

Exclusivos

Premium

Gastronomia

Quem vai ganhar em Portugal as próximas estrelas Michelin

É já no próximo dia 20, em Sevilha, que vamos conhecer a composição ibérica das estrelas Michelin para 2020. Estamos em festa, claro, e festejaremos depois com os nossos bravos, mesmo sabendo que serão poucos para o grande nível a que já chegámos. Fernando Melo* escreve sobre os restaurantes que podem ganhar estrelas Michelin em 2020 em Portugal.