Aumentos 25% a 30% na luz preocupam empresas

Empresários dizem que está em risco a sobrevivência de muitas empresas e pedem soluções ao Governo. A EDP garante que não aumentou os preços, nem vai aumentá-los este ano.

Há empresas portuguesas a serem confrontadas com aumentos de "25% a 30% nos preços da eletricidade", garante o presidente da Associação Empresarial de Portugal, Paulo Nunes de Almeida, que fala em valores "incomportáveis" e pede soluções do Governo que ajudem a "reduzir" o impacto da medida. A indústria de cerâmica está "muito preocupada" com a situação, que poderá "por em risco a sobrevivência" de "muitas empresas"; os têxteis pedem que o Governo atue ao nível fiscal.

Celso Pedreiras, responsável pela área energética da APICER, a associação da indústria de cerâmica, lembra que a fatura energética pesa 30% na estrutura de custos da empresa, sendo que, só a eletricidade, vale 10%. Para este empresário, que é também representante dos Grandes Consumidores no Conselho Tarifário da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), a grande dúvida é se o mercado livre ibérico "estará efetivamente a funcionar livremente", referindo-se às investigações formais do regulador português e do espanhol aos preços formados no Mibel, o mercado ibérico de eletricidade.

"Tenho ouvido muitas explicações. É verdade que o preço das licenças de CO2 dispararam, mas para mim isso é muito estranho porque as centrais térmicas a carvão e a gás natural produziram, este ano, menos 25% de eletricidade que o ano passado, logo as emissões foram menores. Também o argumento de que houve menos vento e menos chuva não bate certo, porque as renováveis produziram este ano mais 28% que no período homólogo de 2017 (janeiro a agosto)", diz Celso Pedreiras. "Não tenho nenhuma explicação para isto, mas espero que se cheguem a conclusões rapidamente".

Garantido, diz, é que as empresas irão passar por "dificuldades acrescidas" se se concretizarem os aumentos de preço que se preveem com base nas cotações diárias do Mibel. "A situação varia de empresa para empresa, mas os aumentos foram este ano, em média, de 8%. Olhando para o Mibel, onde os preços têm batido recordes, podemos antecipar um aumento, no próximo ano, da eletricidade da ordem dos 25% a 30%. É um panorama muito negativo".

Celso Pedreiras lembra, por outro lado, que o preço final que os clientes pagam na fatura energética é o somatório de várias parcelas, algumas das quais reguladas, como as tarifas de acesso à rede ou os custos de política energética, de sustentabilidade e de interesse económico geral, vulgo CIEG, "uma componente brutal que onera a eletricidade em Portugal de uma forma escandalosa", diz. Só em 2018 - lembra - os consumidores vão pagar dois mil milhões de euros para esta parcela que inclui os tão falados CMEC, custos de manutenção do equilíbrio contratual, pagos às empresas e que estão sob investigação. "Tudo isto são decisões políticas que foram tomadas e cujas consequências estamos a pagar", lamenta.

Paulo Melo, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), reclama compensações para as empresas, em nome da sua competitividade no mercado global, lembrando que as taxas fixas "representam hoje 40%" da fatura de eletricidade. "Numa fatura de um milhão, 400 mil euros são taxas".

O Governo assume que está a acompanhar a situação "com bastante preocupação" e a atuar "com os meios" que tem à disposição. Uma atuação conjunta e concertada com Espanha. Os reguladores dos dois países procuram "boas soluções" para ultrapassar um problema que é mais do que ibérico. "Ontem, na Holanda, o megawatt hora chegou aos 411 euros, quando a média do ano passado eram 40 euros", diz fonte oficial do Governo. A EDP, que tem uma quota de 18% do mercado em volume, garante, em resposta ao Dinheiro Vivo, que "não está a proceder a atualizações tarifárias, nem irá fazê-lo este ano".

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.