A questão não é o que se ouve, é o que fica por ouvir

Uma "ameaça à segurança" levada a cabo por um intérprete de "música escandalosa", com exibições "animalescas e depravadas" em palco, "mais próprias de um prostíbulo" do que de um espetáculo decente. Quando Elvis tomou de assalto os jovens adultos da sua geração, a conservadora sociedade americana dos anos 50 reagiu com choque e horror. Quis-se proibir a sua música, censurou-se a sua forma de dançar e até o FBI, então liderado por J. Edgar Hoover, foi chamado a agir perante o risco que o cantor representava para toda uma geração que rapidamente o projetava à condição de estrela mundial. Quarenta e cinco anos depois da sua morte, o mundo não acabou - ainda que a humanidade nos teste com demasiada frequência -, Elvis continua a ser uma estrela e até se mantém no centro de polémicas tolas. Mas os jovens rebeldes desses dias cresceram e repetem hoje as palavras que ouviram sobre os seus heróis.

Crescentemente aberto, inclusivo e livre, o mundo parece ter evoluído pouco na capacidade de aceitar a música que os jovens ouvem - e sobretudo a sua competência para entender que a letra de uma canção não é necessariamente um exemplo de vida, seja uma incrível história de amor seja um guião para levar uma companhia nova para casa todas as noites. Por alguma razão não se conhece (fora dos temas religiosos) grandes êxitos sobre como ser caridoso, bondoso, um exemplo para os que nos rodeiam.

Os mesmos que louvam as sonoridades étnicas puras como reflexo de culturas que antes não chegavam ao mainstream, continuam a marcar fronteiras quando a música choca com as suas referências. E como antes se viu com Elvis, com os Beatles, até com Madonna, ficam em choque com as letras de estilos que vão do rap ao funk, do hip hop ao reggaeton, dos êxitos que os mais novos hoje sabem de cor. Os que cantam em inglês ainda passam (alguns deles, inacreditavelmente depois de obliteradas palavras que todos os dias ouvimos na televisão), mas quando é em português a tolerância vai-se toda.

A questão não é se as mensagens são edificantes - não são; as letras retratam frequentemente a realidade das ruas onde foram criadas, revelam o dia-a-dia do submundo de onde conseguiram fugir alguns dos que chegaram aos tops, falam de engates fáceis, de drogas, de crime e obviamente não de um ponto de vista educativo. Mas pretender que ao ouvi-las os jovens vão virar delinquentes é tão esticado quanto chamar o FBI para travar a dança de Elvis.

O problema não é a música que os jovens ouvem na rua, é a que não ouvem em casa, é a que não lhes é revelada em educação musical, é a que nunca chegam a conhecer porque mesmo quando fisicamente obrigados a estar com outras gerações raramente estão mentalmente disponíveis para as escutar. E nisso sim, valia a pena investir, nessa troca de saberes e experiências, no tempo de qualidade que passamos com os mais novos.

Além de ser um péssimo princípio, proibir ou limitar horizontes não leva a nada de bom. O que faz falta é o oposto: alargar, adicionar, incluir experiências que permitam entender as diferenças e moldar gostos.

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